5º DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DA EPIFANIA 

COR LITÚRGICA – VERDE (na túnica, estola, panos da mesa da comunhão; branca, nas flores do altar)
Isaías 6,1-2a.3-8 – Aqui estou, envia-me…
Salmo 138 –  Diante dos anjos, ofereço-me…
1Coríntios 15,1-11 – Cristo morreu e ressuscitou     
Lucas 5,1-11 – Tentaram atirar Jesus de morro abaixo

“Eu sou filho do Nordeste (Nazaré), não nego meu naturá
Mas uma seca medonha me tangeu de lá pra cá
Lá eu tinha o meu gadinho, num é bom nem imaginar”
(Patativa do Assaré)

penhasco

Domingo passado (4º domingo), depois da leitura que Jesus fez do profeta Isaías, o evangelho terminava, dizendo que “todos os presentes tinham os olhos fixos nele” (Lucas 4, 21-30). O evangelho de hoje dá prosseguimento à cena que – como nos lembramos – desenrola-se na sinagoga de Nazaré. Jesus diz que na pessoa dele se cumprem as palavras de Isaías, quer dizer, que é o ungido (o Messias) para anunciar a Boa Nova aos pobres e oprimidos… e o ano de graça do Senhor [ *Nota: É imprescindível conferir a relação com o Jubileu bíblico: Lev.25,31; Ex 21,2-11; Deut. 15,1-6].

Os vv. 22-30 podem ser divididos assim: v. 22: a reação do povo; vv. 23-27: a resposta de Jesus; vv. 28-29: indignação e tentativas dos nazarenos de matar Jesus; v. 30: Jesus continua seu caminho. É interessante notar o contraste entre a reação do povo no v. 22 e a dos vv. 28-29. Inicialmente, o povo o aprova e fica admirado com seu conterrâneo, mas eles não conseguiam ver em Jesus a graça de Deus, que saía de seus lábios. Nem perceberam nele o “profeta” anunciado por Isaías, mas simplesmente Jesus, filho de José.

Jesus percebe que seus conterrâneos não estão interessados em suas palavras, mas em seus gestos, interessa-lhes antes de tudo um espetáculo cheio de milagres, que cure os doentes do povoado, e basta Jesus lhes responde com um refrão: “nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”, deixando claro que em Nazaré não haverá milagre algum. As ações que se narram de Jesus e despertavam atenção em geral são chamadas nos evangelhos sinóticos de “atos de poder”, “atos de força” (exemplo: Mc 6,2.14).

Frisa-se com isso a dotação de força daquele que opera estas ações. Esta dotação de força podia ser interpretada no contexto histórico, político, religioso, da época, como poder divino (Mt 12,28; Lc 11,20), ou como “poder satânico” (Mc 3,22), e podia ser apresentado de forma exemplar e quase automática (Mc 5,30), ou de forma cultural espiritualizada (Lc 4,14). “O que se pode comprovar historicamente não leva além do âmbito de operação curativa psicossomática alhures atestada” (cf. E.Käsemann).

O leitor da Bíblia, hoje, pode, se quiser, atribuir as “curas e exorcismos” narrados a respeito de Jesus à natural capacidade de irradiação da personalidade de Jesus. Esta explicação, à luz da moderna medicina psicossomática (doenças sociais, doenças do espírito, doenças ideológicas, como enfermidades manifestas no corpo). Ganha cada vez mais sustentação esta hipótese, por suas probabilidades hermenêuticas.

À pergunta histórica acerca de Jesus de Nazaré e a sua operação de milagres historicamente comprovável, a exegese hodierna dá a resposta em princípio segura: “A tradição mais segura atesta o dom salvífico de Jesus” (E.Käsemann). Sigo  Rolf Baulmann (Milagres, Dicionário de Conceitos da Teologia, Paulus), a partir daqui: Deste dom salvífico são parte, por um lado, ações de exorcismo feitas por Jesus; estes, embora não tenhamos provavelmente nenhuma narrativa singular autêntica sobre este agir de Jesus, são, contudo, historicamente incontestáveis em razão de serem atestados na tradição dos ditos de Jesus (cf. Mc 3,22-27 par; Mt 9,34; Lc 13,32; Jo 7,20;8,48.52;10,20s).

Em razão do mesmo argumento também não se podem, por outro lado, contestar curas de doenças corporais por Jesus (Mt 11,5-6 par; 11,20-24 par; Lc 4,23;13,32), embora somente poucos casos em particular (exemplo: cura de febre, cura de cego, cura de uma mão ressequida). Esta suposição é apoiada por “testemunhos confiáveis” da época de Jesus, que atestam “curas de doentes e expulsões de demônios” (como quer que se explique o fenômeno da possessão) tanto para a Igreja apostólica como entre judeus e gentios (R.Fuller).

Jesus se refere ao Antigo Testamento para explicar sua situação (vv. 25-27). O verdadeiro profeta não se deixa monopolizar, nem muito menos pressionar, para satisfazer a um auditório interessado somente no espetáculo, ou em interesses individuais, embora seja ele sua própria família ou seu próprio povo.

As palavras finais de Jesus enfurecem os presentes. Ele não oferecerá sinais milagrosos (como um pregador pentecostal dos dias de hoje). Tentam, assim, precipitá-lo morro abaixo, fora do povoado. É curioso como os pobres de Nazaré convertem-se em sujeitos de ódio e de morte – não reconhecendo que são sujeitos preferenciais do anúncio da Boa Nova, desprezando a palavra presente em sua realidade, à viva voz.

Mas a Palavra não pode morrer nem cessar de ser anunciada (Evangelho), e Jesus continua seu caminho missionário a serviço do pobre, marginalizado e excluído, com uma palavra de Vida, embora ameaçada de morte por aqueles que fazem de sua vida uma “má-notícia” de egoísmo, de narcisismo e  de morte, ao vender a felicidade como num balcão de self-service. O pentecostalismo religioso, sobre o qual R. Shaull escreveu, identificando a base piramidal na massa pobre, comporta-se de modo semelhante, recusando a palavra de Vida anunciada por Jesus. Pregadores midiáticos conhecidos, sempre presentes nos noticiários escandalosos  do pentecostalismo ganancioso,   encastelados em fortunas astronômicas, representariam de fato o que o povo quer da religião? Pesquisas confiáveis (Ultimato – setembro de 2010) comprovam que a juventude evangélica coloca personalidades pentecostais nos primeiros lugares, entre expressões cristãs… Jeus merece dos jovens apenas o quinto lugar.

Derval Dasilio

[Próximo Domingo:  QUARESMA – Tempo litúrgico imediatamente após o Carnaval].

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