QUARESMA – 1º Domingo – Ano C     
Deuteronômio 26,1-11: Ele nos ouviu, e atentou para a nossa miséria e opressão.
Salmo 91,1-2,9-16: Ele é meu refúgio, minha fortaleza, só nele confiarei.
Romanos 10,8b-13: Como crerão, se não há quem pregue?
Lucas 4,1-13: Por quarenta dias Jesus foi tentado…

Jesus no deserto

Jesus vai para o deserto, começando sua pregação sobre a vinda do Reino, e culmina na cidade onde será julgado, sempre guiado pelo Espírito. Sugestão para o novo tempo litúrgico da Igreja: a Quaresma significa quarenta dias de oração e reflexão. Prepara-se para sua missão na cidade. Na primeira tentação, o diabo não nega que Jesus é o Filho de Deus. Indica que ele tem poderes para transformar pedra em pão, e resolver com prestidigitação e magia o problema  da fome. E por que não poderia satisfazer pentecostais  gananciosos? Por que Jesus não opera o milagre sugerido pelo diabo?

 “Você poderá alimentá-los, ou satisfazê-los (Lc 9,13), com prestidigitação e magia. Eles não se importarão com os indícios de charlatanismo. Serão satisfeitos momentaneamente, e se esquecerão da fome permanente, aparentemente insolucionável. Eles não pensarão em políticas governamentais planejadas; em exigir iniciativas para os problemas que envolvem a fome, desproteção ambiental, miséria e a corrupção. Você pode ser carismático, populista, como um pregador pentecostal  anestésico, hipnótico, midiático, ganhando prestígio e admiração, garantindo seus projetos pessoais. Como um um milionário, terá aviões, mercedes blindadas, iates, férias em hoteis vip,  mansões luxuosas, isenção de impostos, igrejas para usar como lavanderia de dinheiro roubado dos crédulos fieis que esperam ficar ricos como ele.  Você pode prometer que sua igreja e denominação serão ricos e que todos serão milionários no futuro”.

A segunda, é a tentação do “poder”. A tentação de mandar exercendo uma autoridade inquestionável (exousia), sobre toda e qualquer questão, quando terá assumido o controle da massa, é o que o diabo oferece a Jesus. Quando “o cerco das multidões” for completado, mantidas em currais religiosos, “você cultivará a soberania, a supremacia, o controle e mando sobre todos os seus admiradores”. Essa tentação levaria Jesus à autoidolatria e ao narcisismo de estilo pentecostal, comuns nos dias atuais. Mas Ele rebate o diabo, diz o evangelho: Jesus deixa claro que seu ministério é solidário; sua missão é servir, e não ser servido. Não é para anestesiar, mas para alertar as multidões sobre o sofrimento que lhes é imposto; não é para vender a graça barata, e conceder bem-aventuranças provisórias; não é esconder a realidade opressora, e os que dela se beneficiam.

Sim, é preciso tomar consciência e reagir com indignação e insurgência contra a opressão. O ministério de Jesus não combina com a autoexaltação de um pregador milionário, rolex no braço, luxo e ostentação. Jesus não vê como necessária a autodeificação visível na tv; os cartões de depósito de contribuição; editoras e igrejas para “lavar” dinheiro amealhado com o charlatanismo religioso – também chamado de simonia –, como símbolo de suas conquistas sob um evangelho da ganância. Ele diz: “o Filho do Homem não tem sequer onde pousar a cabeça” [na literatura bíblica, como a parábola, “midrashes”, discursos morais utilizam o folclore e as crendices comuns da cultura mediterrânica oriental; Lucas — como também Mateus — carrega na magnífica interpretação da superioridade espiritual do Filho do Homem, como é comum nos demais evangelhos, sobre forças cegas que dominam culturalmente o ambiente onde se anuncia o evangelho do Reino de Deus] .

Que perguntas faremos nós, na Quaresma? Quantas vezes traímos princípios de justiça, de cuidado com o outro, ou quantas foram as infidelidades que cometemos depois dos compromissos feitos com a verdade e a justiça? Quantas vezes deixamos de lado o bom senso? De quantas situações de injustiça participamos descuidadamente, sem prever o prejuízo da coletividade? Por que nos entregamos ao egoísmo, à ganância, e incluímos em nossas vidas projetos de consumo acima de nossas possibilidades, depois de absorver a intensa propaganda sobre o que se espera de nós, em termos de ajustamento aos apelos de nossos dias?

Devemos à Quaresma oportunidade para verificar as infidelidades que cometemos. São muitas as injustiças das quais compartilhamos, por adesão, apatia ou consentimento explícto… É para revisar a vida, corrigir os desvios, desfazer nossos compromissos com a injustiça.  É um tempo de conversão, e conversão significa mudar os rumos do barbarismo de nossos dias, retomar o caminho de volta para o Pai, e ouví-lo. A aceitação e incorporação da Graça, da gratuidade, da solidariedade e compartilhamento das bem-aventuranças, a partir das promessas de Jesus para um mundo novo. A Quaresma ensina sobre a acolhida do Reino de Deus em todos os setores de nossas vidas

Observamos vozes harmônicas e afinadas que interpretariam o ser interior essencial da humanidade. Os fatos, as tragédias diárias, compõem e executam a sinfonia macabra reveladora da vida humana aviltada.  O mal e o bem nos acompanham a vida toda. No entanto, ninguém pode ler essa partitura, muito menos ouvi-la, a não ser diante de tragédias, nas igrejas, preocupadas que estão em justificar escândalos financeiros de líderes evangélicos, e oram reclamando quando antes já venderam coletivamente a alma ao diabo (não leram Göethe nem os evangelhos, desconhecem Mefisto, que cooptou Fausto pela ganância; no deserto é o diabo que procura Jesus; na cidade milionários evangélicos seduzem até o diabo…).

A tragédia da violência contra os jovens (Campanha da Fraternidade – 2013), da fome, das enfermidades sociais implacáveis, da permanente corrupção dos poderes públicos e privados, da religião que serve ao dragão devorador – a ganância, a acumulação privada, os bens móveis e imóveis, a espoliação dos bens naturais, a divisão entre incluídos e excluídos, a competição, o individualismo selvagem contra a solidariedade e a partilha.

Jesus nos coloca em paralelo com o povo de Israel, no evangelho. A tradição cristã indica essa primeira vinculação na história da fé. São as mesmas circunstâncias de infidelidade coletiva, mas Jesus segue em frente. Enfrenta a tentação. E para realçar o paralelo entre as duas situações, o evangelista usa o deserto e citações de Deuteronômio. A Lei de Deus – compatível ao código de princípios, a partir da convocação e pedagogia divina: “ouve, ó Israel” (shemah Israel); ouve, ó povo de Deus… –, reinterpretada face ao cotidiano violento, à ausência de indignação quanto as injustiças sociais, e a contrapartida da ganância ensinada nas igrejas cristãs.

Derval Dasilio

Quaresma de 2013

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