QUARESMA – 2º DOMINGO – ANO “C”
Gênesis 15,1-12, 17-18 – Não tenha medo, eu te protegerei
Salmo 27 – O Senhor é a minha luz, a quem temerei?
Filipenses 3,17- 4.1 – Cristo transformará o nosso corpo abatido por sua causa
Lucas 9,28-36 – Moisés e Elias falavam das razões de suas mortes

borboleta na folha verde

Jesus é estranho! Depois de derrubar as expectativas espirituais, religiosas, próprias de seu tempo, diz ainda que terá que morrer… e assim salvará a todos. Depois, ele diz que seus seguidores devem trilhar o mesmo caminho, dispondo-se a morrer; devem passar o mesmo cruzamento, atentos às sinalizações, sinais vermelhos, para evitar ou impedir a morte inútil dos demais. Todos os dias! Quem poderia saber sobre os perigos que cercam a vida de crianças, homens e mulheres, sobre o planeta?

A cruz e a ressurreição são afins, tanto que se torna impossível separá-las, tal o seu impacto, na vida da humanidade. Uma espiritualidade profunda nos símbolos da fé cristã. A cruz é a morte pela solidariedade, na causa de Deus. Cruz é sofrimento. Todas as dores do mundo estão no madeiro cruzado, testemunho (marturia) da inconformidade de Deus sob o sofrimento das injustiças impostas, e as desiguladades históricas.

A ressurreição, porém, dá sentido à vida nova e fecunda, como o fruto que vem no lugar do grão que morreu. Ou da borboleta que deixou para trás o casulo morto. A morte de Jesus dá um novo significado para a morte e a ressurreição: “A causa é tão grande que é preciso até morrer por ela”. A cruz não é o fim de uma jornada em favor de um mundo novo possível, mas sim um cataclismo na história do mundo entregue aos poderes da morte.

Pedro, na contra-mão, quer encerrar a jornada libertária, sem cruz e sem ressurreição: “Seria bom ficar aqui, dentro das tendas (igrejas?), em companhia de Moisés e Elias”. Mas a Voz ressoa: “Este é o meu filho…”, não eles, ou o que eles representam: “ouçam-no”. Qualquer processo de conversão e de mudança de rumo faz sentido, porque, na Transfiguração, temos um mapa do universo e seus caminhos tortuosos. A realidade da violência, das pequenas e grandes guerras, o crime organizado e o crime legalizado no congresso – roubo dos bens do povo –; a violência dos assassinatos, da fome, do desemprego, da saúde sem assistência, da moradia negada, da escola seletiva, representam um mundo entregue aos poderes da morte.

Transfiguração é antecipação, é um “eclipse invertido”: um meteoro, uma luz atravessando a escuridão dos tempos. Um novo significado para a vida e a morte! Assim, entendemos a reflexão de Hélder Câmara: “aquele que não tem uma razão para viver, não tem uma razão para morrer”. A Transfiguração, como a observação de um impacto estrondoso na história do mundo, está dizendo: “isto é o que se espera, depois da cruz”. Como o poeta anuncia: “valorizar a vida… tudo vale a pena se a alma não é pequena” (Mário Quintana). Iluminada com a mensagem de Jesus, a Transfiguração indica o sentido da vida.

Vi o filme “Lincoln”, de Spielberg, e admirei-me da luta pela abolição da escravidão nos EUA, introdução gradual para a igualdade civil e jurídica para um povo escravizado, excluído, racialmente oprimido, na direção do sufrágio igualitário; do direito à saúde e à escolaridade em igualdade com brancos e outras cores de pele, no século seguinte. A obtenção da difícil aprovação da Emenda Constitucional 13º, nos EUA, resultou no assassinato de um presidente que abominava a desigualdade de direitos na recente democracia norte-americana. O presidente filósofo, Thomas Jefferson, fundador dessa nação politicamente democrática, possuía centenas de escravos, e tivera muitas concubinas negras, e pelo menos seis filhos mulatos. Pode-se dizer que Lincoln morreu defendendo os direitos sociais e raciais das concubinas e filhos, netos, bisnetos, de um presidente venerado pela nação. Esperamos muitos “Oscars” aos quais concorre, tal é a importância da lição de política e democracia na película, antecipando a concessão de “direitos humanos” sob igualdade racial dos descendentes africanos no século seguinte.

Jurgen Moltmann escreveu: “A injustiça e violência cindiram a humanidade num primeiro e num terceiro mundo”, um de abundância outro de carências estratosféricas, ausências inomináveis quanto aos direitos ao alimento, à saúde, à moradia, ao trabalho, à escola. O primeiro mundo, ¼ do planeta, coroa a abundância e o desperdício, irresponsabilidade para com os demais; o segundo e terceiro amargam a pobreza, a fome e a miséria. As mais arrasadoras catástrofes ambientais, porém, equalizam o destino do planeta, ameaçado pelo abuso na pressa de mais e mais conquistas indicadas para o consumo irresponsável. Os povos pobres desconhecem as democracias, via de regra aplicada aos ricos, que dela se beneficiam sem partilha. Mesmo no Brasil, não podemos falar na existência de uma democracia nos bens sociais.

Não é o sangue de um animal que dá vida, sinal da aliança. É o sangue de um homem, que só depois reconheceríamos como o Deus solidário compartilhando do sofrimento humano, e da Criação. Cristo, seu amor, o sangue de tantos mártires, vidas transfiguradas, dão sentido à vida, por causa das muitos mortes em razão da violência e injustiça dos sistemas escravistas, ou de servidão humana, de exploração irresponsável da natureza, que dominam o mundo. O que significa isso tudo nos nossos dias, quando somos dominados por escravidões que não queremos reconhecer? A cruz é o maior sinal de amor e liberdade. A transfiguração converge para a cruz.

O sacrifício das aparentes comodidades modernas, por solidariedade aos que estão à margem dos benefícios que só elites sociais alcançam, precisa acontecer. O ser humano, desde que o “homo habiles” passou a imaginar tecnologias para melhorar suas condições de sobrevivência, inventa ferramentas para dominar a matéria, escapando das limitações do próprio corpo. E a espécie humana se expande, e nos traz até um século de imensos recursos tecnológicos. Porém, dos 7 bilhões de habitantes do planeta, 5 bilhões vivem à margem da maioria deles. E 2 bilhões como quê vivem em tempos primitivos, amargando, inclusive, carências inimagináveis no campo da alimentação e saúde. A fome não foi dominada pelas tecnologias presentes no mundo moderno.

Temos uma aliança que é oferecida pelo amor generoso de Deus, e que cada crente confirma e reafirma “a cada dia” em derramamento de sangue. Sacrifício pela causa de Deus. É o amor de todos os dias, martírios dos que arriscam suas vidas, enfrentam as prisões, na luta pela justiça, em solidariedade com os fracos e dependentes. Deus nos ama sempre, a cada dia. Mas, como sempre, é a vida e o amor que contam, expressos na misericórdia, na compaixão, na solidariedade e na partilha; é a vida para o Reino, vida repartida para que outros também vivam. Vidas oferecidas em sacrifício e em favor da verdade e a justiça…

Derval Dasilio

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