QUARESMA – 3o DOMINGO – ANO “C”
Isaías 55,1-9 – Chamem por Deus enquanto ele está perto… afastem-se dos maus
Salmo 63,1-8 – O Senhor é bondoso e compassivo
1Coríntios 10,1-6;10-12 – A vida do povo com Moisés no deserto, exemplo para nós
Lucas 13,1-9 – Se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo

cortar a figueira (1)fO acontecimento da Torre de Siloé desmoronando é desconhecido historicamente.  Foram propostos diferentes fatos, mas nenhum coincide exatamente com este. É estranho que Flávio Josefo (historiador do séc.I DC) não o tenha narrado. Entretanto o debate supõe um (ou dois) acontecimento ocorrido. A miscigenação racial, a participação dos galileus nos sacrifícios cultuais das religiões do lugar, faz pensar na festa da Páscoa: nesta data os peregrinos judeus – e também os galileus –, se encontram em Jerusalém, e fiéis comuns participam dos sacrifícios uma vez que devem levar para sua casa o cordeiro para ser comido em família, segundo tradição remota. É nesse momento que brota a parábola registrada por Lucas.

As parábolas de Jesus pretendem dar um sentido mais humano à vida das pessoas. Que elas se compreendam em sua humanidade real, enquanto se situam dentro da realidade da coletividade humana. Se esta se entrega ao barbarismo intuitivo, e se entrega tão somente às pulsões da vida, de desejo (de retribuição, por exemplo), de poder, ganância, é preciso encontrar um caminho libertador, através de uma espiritualidade que não ignore as forças contrárias à gratuidade, ternura, compaixão, solidariedade.

A figueira não só deixa de produzir fruto, mas ocupa um lugar importante. O agricultor repete o que já sabemos: foi colher e não encontrou frutos. Entretanto acrescenta novos elementos: “há três anos repete a mesma busca em vão, e então decide cortá-la”. A “destruição” aqui é imagem do juízo, um alerta sobre o que não deve acontecer, e não uma condenação ou sentença. O surpreendente é a intercessão do vinhateiro (na Bíblia é comum que o intercessor seja um subalterno; neste caso, o vinhateiro dirige-se ao dono da vinha). Ele se ocupará de alimentar e irrigar a planta, enquanto conduzirá o agricultor à última esperança de futuros frutos. Esta será a última oportunidade da árvore produzir frutos, caso contrário será cortada.

A pergunta de Jesus é instigante: “Vocês, por que se consideram privilegiados pela eleição de Deus, pensam que aqueles ‘galileus’ são inferiores, pelo que fizeram no passado, e por isso merecem castigo e morte violenta”? Na tradição do povo bíblico, havia uma convicção de que a saúde, a vida longeva, são sinais de bênção. Do mesmo modo que possuir bens, muitos filhos e descendentes. O contrário também ocorria, sendo a morte prematura, morte violenta, e a enfermidade, sinais da “inimizade com Deus”. O livro de Jó é o que mais se destaca, no AT, quanto a essa forma de pensar: os justos, os obedientes à lei religiosa e suas prescrições, são preservados da enfermidade e da morte por doença incurável, como também da morte violenta, à semelhança da catástrofe que foi o desabamento da torre de Siloé, diriam os “amigos” fundamentalistas de Jó.

Voltemos nossos olhos para a tragédia dos jovens em Santa Maria, RS, quando morreram mais de duas centena de jovens numa boate. O bem, o amor, a misericórdia e a compaixão, não podem ser definidos nem alcançados por explicação inteligente, no uso da razão, sugere Jesus. Nem o mal.  Freud descobriu que há pulsões determinantes na vida humana que nos permitem uma melhor compreensão do funcionamento do inconsciente coletivo (Carl Jung), e da irrupção dos impulsos irrefreáveis. Como vimos na recente tragédia de Santa Maria – RS. Sem responsabilizar governantes e fiscais venais, depois da morte de quase três centenas de jovens num curral sem saída, sufocados por uma fumaça negra e asfixiante. Discorrendo com habilidade professoral sobre “as causas imediatas da tragédia”, escondemos fiscais, prefeitos, governadores e autoridades governativas responsáveis pela tragédia. 

Estamos diante de um escândalo à razão, na cultura ou na religião. O teólogo Jürgen Moltmann destacou muito bem: “Deus é solidário com o oprimido, o explorado, e não causador de sua dor; Deus não é conivente ou indiferente ao sofrimento”, onde quer que ele se manifeste. E temos o complemento inaceitável pela razão religiosa que justifica o racismo: “Deus nunca se isentou do sofrimento, ele sempre sofreu e sofre conosco”.

Jesus desmente a tradição da retribuição ou a isenção de Deus quanto ao mal existente. Na paixão de Cristo, Deus percorreu os nossos caminhos andando em meio ao sofrimento humano, não foi poupado dos clamores e lágrimas de todo homem e de toda mulher, apreendendo a dor, vivenciando toda espécie de sofrimento, mas propondo modificá-lo. O profeta do Apocalipse afirmou que, por fim: “não haverá fome nem sede”, entre os sofrimentos humanos (Ap 21,1-4). De fato, Deus estará conosco para sempre, e “enxugará nossos olhos de toda lágrima, a morte não mais existirá, nem haverá luto, nem pranto, nem fadiga, porque tudo isso terá passado”.

O abismo das desigualdades; as diferenças no repartir dos bens sociais, passam ao largo do interesse popular, do senso comum e da mídia. Freud explica? Não. Mas a parábola da figueira infértil, proferida por Jesus, aponta para o cultivo da Graça, para que a Igreja, o povo eleito, não se entregue às demandas da ganância, do poder político setorial, da felicidade vendida em qualquer esquina. Esta parábola sugere a proliferação da Graça sem limites, para todos os povos, raças e nações.

Deus, o Pai, não é justiceiro nem um capataz endurecido que castiga e manda vir o mal e o sofrimento a “servos desobedientes”, aqueles que ignoram os ditames da moral religiosa em vigor, sugere o texto bíblico. Os fatos históricos que antecedem ao conto dessa história exemplar, são indicadores de que experiências negativas do passado, se vividas ainda no presente, podem servir para mudar o futuro. Contratempos, sofrimentos, motivam para compreendermos o modo de agir de Deus, orientando para dar sentido à Graça, depois de alcançada. É preciso escutar e repensar esta questão. Privilegiados pela Graça, vivendo como eleitos, mas sem nada produzir, é preciso fazê-la frutífera, de algum modo. A vida de fé sob a graça pressupõe fecundidade na prática e na vida cotidiana.

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