4o DOMINGO DA QUARESMA
Josué 5,9-12 –  Importa celebrar a libertação em todo tempo
Salmo 32 – A  totalidade do mundo é alcançada pela misericórdia de Deus
2Coríntios 5,16-21 – Deus estava em Cristo reconciliando o mundo com Deus
Lucas 15,1-3; 11b-32 – A gratuidade ilimitada do Pai ao jovem seduzido pelo mercado da “felicidade”

filho pródigoEsta parábola evoca sentidos referentes ao Reino de Deus, o lugar da justiça, da misericórdia, da solidariedade e partilha do banquete da vida plena em abundância e gratuidade. Exclusiva de Lucas, ela é – ao lado das parábolas da ovelha perdida e da moeda perdida – uma resposta de Jesus à acusação dos especialistas em religião. Jesus acolhia pecadores e comia com eles (v.2). Mas diferentemente das parábolas anteriores, esta tem um contraponto ao autor da ação amorosa reprovada em favor das obrigações por mérito: o filho mais velho, que se supõe, ele sim, merecedor das bênçãos e dos bens do pai, rejeita o mais novo (pecador), e tudo o que o pai fez por este, estabelece um juízo de valor sobre o caçula que retorna.

O “incluído” não abre mão desse juízo. Recusa a gratuidade incondicional, o mesmo juízo condenatório que as lideranças judaicas tinham sobre a maior parte da população que não seguia a “reta doutrina” da religião (Flávio Irala). Estes, os quais já compartilham do perdão e da reconciliação, são meros espectadores. Nos relatos, assemelham-se aos participantes da festa de acolhida. São os que já descobriram a intimidade do amor misericordioso do Pai, pela reconciliação, porque Deus não despreza o que sofre.

Nos dias modernos, as antenas altas colocadas no alto dos grandes edifícios simbolizam as posições da juventude diante do mundo, por seu alcance sem limites, via satélite. “O modo como uma sociedade olha para a juventude é uma metáfora de como ela olha para si mesma” (Marília Spósito). Se ela não quer transformar a realidade, o jovem não quererá mudar o mundo, como lhe é próprio, desde todas as eras. O protagonismo que esperamos será exercido para “conservar” os interesses externos dos fabricantes da “felicidade” consumista, servida num “self-service” da esquina mais próxima.

A rede de atendimento aos “famintos de felicidade” tornou-se um negócio rendoso, e os usuários, para mantê-la, exigem mais exploração daqueles que já são super-explorados. Ecstasy, viagra e fast-food são símbolos da excitação permanente em que se mantêm os jovens. Há uma expressiva multidão de “especialistas” em felicidade religiosa, felicidade sexual, felicidade amorosa e felicidade química que, em coro, propagam e reforçam na mídia o mito da salvação individual. O Brasil moderno, informatizado, “liberalizado” eticamente e com todos os problemas resolvidos, de antemão, pelas leis do mercado, busca a salvação pelo cartão de crédito. Não há símbolo cultural mais significativo que um credicard. O shopping-center tornou-se o templo onde jovens depositam suas maiores esperanças.

Não conta para estes a outra parte, o outro mundo onde estão os jovens sendo “preparados” para aproveitar o descalabro total desta sociedade. Esta que cada vez mais se parece com as do mundo chamado desenvolvido. A massa de flanelinhas, pivetes, crackeiros, traficantes de cocaína, representa o lado sem o qual a visibilidade da primeira fila fica comprometida. Estes vêem nos ricos apenas consumidores de drogas e outras porcarias, e “trabalham” pra valer no sentido de atendê-los. Formam-se vocações para assaltantes, estupradores, assassinos gratuitos, à margem e ao mesmo tempo dentro da sociedade que dela parece depender e se alimentar.

A sociedade moderna vive, como um vampiro, do sangue dos jovens. É fonte geradora de incertezas e de toda desgraça. Causa da prostituição, do analfabetismo, da mortandade infantil, do turismo sexual, do tráfico de mulheres (Mozart Noronha). Imaginemos que os filhos do povo brasileiro, seduzidos, vão esgotar seus potenciais desperdiçando a vida com as ofertas da globalização cultural… E teremos uma legião de jovens seduzidos, como o rapaz da parábola. O mapa dos focos da violência mostra que as vítimas mais frequentes de morte violenta, hoje, são jovens e negros. Um cenário pior do que o de uma guerra (Marina Silva). O Estado campeão em violência contra os jovens era Alagoas (taxa de 125,3), seguido do Espírito Santo (120) e Pernambuco (106,1). A tragédia nos municípios campeões em violência são ainda mais impressionantes: Maceió (AL), com taxa de 251,4 homicídios de jovens a cada 100 mil habitantes; Serra (ES), com 245,8. Itabuna (BA), com 229,4. É uma carnificina.

Jovens evangélicos também abraçam a religião emocional salvadora. Vale tudo, enquanto se convidam os jovens para esquecer a História, as lutas pela democracia e pelas liberdades civis e direitos fundamentais do homem e da mulher. O passado não interessa, o presente justifica tudo. Comamos e bebamos, porque amanhã…  não interessa. Tão escondida está, a fé na utopia cristã de “um novo céu e uma nova terra” (Ap 21), um mundo novo possível, que não se pode ver sua beleza verdadeira e o que se pode fazer para mudar coisas verdadeiramente malignas que cercam a vida humana, invadindo-a com desigualdades, preconceitos, narcisismo, sofrimento e dor.

Aqui nos deparamos com o destino humano, pensando neles, perspectivas abertas, horizontes infinitos, sem nos privarmos do esplendor da vida em todas as suas manifestações. Sonhamos com paraísos, construímos utopias. Como os sons e as tonalidades do Universo, podemos dizer que há um céu em nós, como há um sol, estrelas; que não há um “eu” sozinho, mas muitos “eus” compartilhando a vida criada por Deus. Sempre em busca da plenitude.

Paraísos são sempre sonhados para serem realizados. Paraísos são a Esperança de um mundo novo possível. É o reinado de Deus. Reino de justiça e bem-aventuranças compartilhadas em igualdade. Paraísos precisam ser vividos, necessitam ser magnificados. Gaston Bachelar recorre à poesia, poder da imaginação, porque um poeta imita Deus quando recorre à eficácia das belas imagens do mundo criado em igualdade e justiça. Diria que “um belo poema, como o da Criação e do Universo inteiro (Sl 19), não é mais que uma maravilhosa loucura retocada”. Só os poetas, e o próprio Deus, crêem que a beleza do mundo inteiro, como os seus mistérios, está ao dispor dos jovens. Os céus declaram a poesia de Deus, e o firmamento declama a obra das suas mãos. O Reino está próximo, disse Jesus. Todas as possibilidades da justiça e alcance de bem-aventuranças em igualdade fraternal estão próximas. A festa da acolhida já começou, há lugar para todos os que buscam a acolhida de Deus.

Derval Dasilio

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