DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO
Lucas 19,28-40 – “Bendito o que vem em nome do Senhor!”
Salmo 118,1-2; 19-29 – “Entrarei pelas portas da justiça, esta é a porta do Senhor”

domingo-de-ramos1A chegada de Jesus a Jerusalém comove a multidão (Lucas 19,28-40).  O povo reage de maneiras diferente das autoridades. Este o aclama como Rei, aquelas ficam apreensivas. O povo tem esperança de libertação, se religiosa, política, econômica. A pobreza e as opressões são muitas. As autoridades sentem-se ameaçadas no seu prestígio e autoridade, e, sem dúvida, no exercício do “poder” (ah, o pudê, como exclamam os poderosos nordestinos brasileiros extasiados com o domínio sobre as massas camponesas…). E o povo alegre, festivo, cantante, dançando, recebe o Messias de Deus, como acreditava… Mas logo virá a tristeza: nesta mesma semana Jesus de Nazaré será preso, torturado, humilhado em sua realeza divina, e esvaziado de qualquer proteção! E então, enfraquecido, vulnerável, será levado ao martírio, sem que esse mesmo povo se comova. Ao contrário, na mesma semana da paixão responderá ao plebiscito: “Crucifica-o, crucifica-o…”. 

Os cristãos estarão, neste domingo de Ramos, caminhando ao lado de Jesus? As implicações dessa caminhada envolvem o compromisso de levar a sério nossa adesão à causa de Jesus Cristo. Acompanhar Jesus em sua última jornada no caminho da cruz, enquanto Ele entra na cidade de Jerusalém, aclamado como o rei que traz o shalom de Deus. Ninguém mais duvida de que as causas geradoras dos grandes e dos menores conflitos sociais, nacionais e internacionais, são encontradas nas desigualdades econômicas, na falta de oportunidade, nas políticas internacionais e domésticas envolvidas em questões que passam pela fome de 2 bilhões de habitantes do planeta; questões que identificam os abismos das desigualdades nos 5 bilhões à margem do mundo moderno, também chamado pós-industrial, no Ocidente.

Todos os dias, observamos as notícias mais recentes sobre o crime comum e o organizado. São dezenas de milhares de mortes violentas por ano, no Brasil. Pessoas são mortas até nas portas das igrejas (A Gazeta, 14.03.2013). O amanhã é pré-definido, só teremos que confirmar o estado de guerra permanente nos pequenos e grandes centros urbanos. Enquanto se espera por dignidade da pessoa humana, nos setores mais corriqueiros da vida, necessita-se de pão para quem tem fome; morada para quem não têm teto; educação para quem não têm escola; saúde para quem não têm hospitais; trabalho para os alijados da sociedade moderna.

Outros entram nas farmácias procurando calmantes, medicamentos contra a tensão cotidiana, drogas que serão consumidas em pilhas de caixas. De outro lado o imenso contingente de pobres e carentes. Os famintos, alvos do nojo da cidade, os que comem lixo e sobras, pivetes, crackeiros, viciados, moradores de rua. Na periferia e favelas um contingente monumental. Mas o Reino de Deus não é imposto pelo poder das armas, nem é acompanhado de decisões político-partidárias. A linguagem do Reino é a solidariedade.

Seguidores de Jesus são servos (doulos) do amor, servem à justiça (tsedakah ou dikaios), no rumo da paz, em total fé na fidelidade de Deus (emunah ou pistis). Deus é amor, disse João. O evangelista hebreu nos lembra para amar-nos uns aos outros com o amor sem medida de Jesus. Não há amor maior que este, o cuidado com os fracos, empobrecidos, marginalizados dos meios de produção e esquecidos nas políticas públicas. A palavra shalom ((shalom ou eirene:  direitos cidadãos atendidos, bem-estar social para todos, dignidade, espírito confortado pela justiça em todas as esferas de vida pública ou particular das pessoas) nas Escrituras, nos chama a atenção.

Este é o eixo do pronunciamento de Jesus, neste domingo. Há misericórdia, em suas palavras? Sim, porque podemos entender o Reino de Deus, quando o vemos separado das imagens construídas sobre grandezas que não se pode dizer, porque não há palavras ou línguas sagradas que possam defini-lo. Especialmente quanto ao alcance da justiça, no Evangelho.

Na Bíblia, denuncia-se a falta de clareza sobre tais realidades, onde os escritores apresentam o Reino de muitas maneiras, conforme suas crenças momentâneas, ou quando espiritualizam o que de fato é uma manifestação concreta, ora nos poemas de fé, ora na boca de contadores de histórias ancestrais, ora pelos profetas, ora pelos sacerdotes, ora pelos guerreiros sanguinários que não hesitaram em exterminar velhos, mulheres indefesas, crianças, para tomar terras e riquezas de outros povos…

São modos e crenças para descrever a ação Deus, conforme os impulsos da violência, de dominação e imposição pela força. Porém, todas as vezes que lidamos com a beleza ética, a solidariedade, a misericórdia, o amor e a bondade, estamos lidando com o nome sagrado de Deus, enquanto seu reinado vem chegando, realizando paulatinamente a utopia de Jesus. Na Bíblia, os evangelhos são mais claros, quando Jesus descreve o reinado de Deus como a realidade acima de todas as realidades.

Os sentidos da Paz, segundo Jesus, tratam de uma nova visão da vida em plena justiça: “Entrarei pelas portas da justiça, esta é a porta do Senhor” (Salmo 118,1-2; 19-29). Um mundo novo estará amanhecendo. Gandhi, Bonhoeffer, Niemöler, Paul Schneidder, Desmond Tuto, Nelson Mandela, Luther King Jr., Charles Roy Harper, Jaime Wright, Paulo Stuart Wright, Paulo Evaristo Arns, monsenhor Romero, Irmã Dorothy, mártires e testemunhas da Paz e da Fé, entenderam esse sentido. Perdão e reconciliação entre povos e nações; libertação do poder de todos os pecados, inclusive os pecados estruturais do nosso tempo. Reconciliação com os que não têm as mesmas tradições religiosas; nova vida no serviço da justiça de Deus; direito de herdar e gozar bem-estar coletivo, no trabalho, habitação, saúde, escolaridade, sem desigualdade no tratamento; direito a um mundo transformado pela misericórdia e a compaixão; direito de integrar uma nova realidade proposta sob  o empenho apaixonado na causa de Deus. Hosanas! Bendito aquele que vem em nome do Senhor. Shalom.

Derval Dasilio

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