DOMINGO DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR  
Atos 10,34-46 – “Deus estava com ele”, o Ressuscitado
1Coríntios 15,19-26 – Vi o Cristo ressuscitado, ressuscitei!
João 20,1-18 – A fé na ressurreição  é maior que qualquer dúvida

De todas aressurreição do Senhors crises (krysis), a morte é a mais decisiva da vida humana. Isso implica também em decisão, por que até aqui ainda se pode adiar, protelar, manter em luz-e-sombra o que fazer da vida. Agora não há meio-termo. Não é mais possível  flutuar na ambigüidade, é inevitável o desmoronamento do homem exterior (L.Boff). Mergulhadas no profundo de nossa humanidade, evocando o que não é consciente, individual e coletivamente, à luz de atavismos e heranças ancestrais que agora se apresentam irrevogavelmente, as verdadeiras dimensões do que somos são expostas à clareza do sol do meio-dia, com a morte. Caem todas as máscaras que encobrem nossa identidade, a realidade sai da nebulosidade, não há claros nem escuros: nós somos o que somos, sem mais recursos. Não há maquiagens que possam esconder nosso verdadeiro rosto. Na morte.

A ressurreição marca a presença da vida que se sobrepõe à morte e ao sofrimento; ao derrotismo, quietismo, conformismo e fatalismo, como falsas exigências divinas para se esconder as velhas opressões. A história humana é implacável, do Neandertal a  Lucy, e mesmo desde a humanidade pré-histórica, denuncia-se uma comunhão indesejável de vítimas e algozes, explorados e exploradores. Bilhões, trilhões, uma imensidão de corpos injustiçados, sepultados por causa da violência, ou da pulsão do poder. Trata-se do inato impulso em direção à supremacia, ao controle e mando, à competição e superioridade, em quaisquer situações que envolvem multidões, povos, para submetê-los. Rendemo-nos quando identificamos o “poder” como pulsão primordial incontrolável e irreversível.  

Agora é o poder das máquinas, e tudo se resumiria no aplauso à virtualização da realidade – que é a capacidade de condicionar a vida humana para combinar  nanotecnologia, inteligência artificial e ciências cognitivas –, enquanto as fronteiras entre o mundo biológico e o artificial, desfocadas, vão apontando para além do que é humano, em busca do que já se pode chamar de “pós-humano”. Tudo isso através da capacidade exponencial de processamento nos computadores (Rafael Shoji). E então já estaríamos falando de imortalidade – como se os gregos da antiguidade já não tivessem concebido esta possibilidade –, pensando em deuses e semi-deuses vivendo para sempre. Como se o mito do “eterno retorno” fosse uma novidade no terceiro milênio. A aceleração evolutiva da inteligência humana – que já chamamos de “alma virtual” – dirigiria a humanidade no retorno permanente à vida numa espiral auto-alimentadora inesgotável. E não se falaria mais de ressurreição, porque nem mesmo haveria uma humanidade mortal que dela se beneficiaria.

Para Deus até as trevas dos tempos e das eras é luz (Sl 139,12). Em meio às trevas da primeira Páscoa cristã, ressurgiu o brilho de uma vida nova que nenhum poder pode exterminar (L.C. Susin). Jesus sempre atinge de novo os que passam perto dele: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”… Nessa eclosão do novo, que é a ressurreição, Deus revela a verdadeira potência, o verdadeiro poder sobre a morte em todas as suas manifestações.

A ressurreição de Jesus é um protesto não-violento às ameaças do poder, venham donde venham. Políticas, econômicas, religiosas. Na ressurreição do Senhor, Deus informa que a injustiça não prevalecerá, e que o justo não se corromperá, igualmente. Jesus continua nos pequeninos, nas vítimas, nos que clamam por justiça, através da lógica própria do amor. A misericórdia, a compaixão, a solidariedade, são superlativos da perfeição do amor de Deus. Jesus, o Ressuscitado, derrama seu Espírito no caminho dos que sofrem injustiças, dos abandonados e esquecidos. Jesus é o fruto amadurecido de uma nova criação, uma nova humanidade renovada e em transfiguração (Susin). Esperança de uma nova criação, nas palavras de Paulo, o apóstolo, como escreveu aos cristãos romanos (Rm 8), ainda no primeiro século.

Um alerta exemplar: a pequena comunidade dos discípulos não apenas se tinha dispersado após a “condenação” de Jesus à morte, mas também por temerem os inimigos dele e pela insegurança gerada no grupo por causa da traição à causa por ele defendida. Os corações estavam feridos. Na hora da verdade, todos eram dignos de censura: ninguém tinha entendido corretamente a proposta do Cristo de Deus. Por isso, os que não o haviam atraiçoado, tinham-no abandonado à própria sorte. E, se todos tinham errado, todos estavam necessitados de perdão. Voltar a dar coesão à comunidade de seguidores, dar-lhe unidade interna no perdão mútuo, na solidariedade, na fraternidade e na igualdade, era humanamente impossível.

E agora diremos das gentes sem esperança, derrotadas pela realidade que esmaga e destrói as utopias de salvação, detonando os sonhos de bilhões de seres humanos oprimidos. Dos que são submetidos ao império da morte. O desespero sobre a morte é uma força que instila impotência, fatalismo, inevitabilidade, submissão, como se este fora um decreto divino irrevogável e irreversível. A ressurreição do Senhor desmente a falácia do mal e a opressão irreversível. Ela constitui a nossa esperança suprema na salvação, na libertação que só Deus pode proporcionar.

Falaremos nesta Páscoa sobre a ressurreição, reconhecendo a intervenção de Deus na história dos sofredores, vítimas dos pecados seus e da sociedade opressora, dos crentes e da religião que se juntam mortalmente na mesma vala da alienação, na equidistância das massas sofredoras, especialmente neste mundo histórico e geograficamente situado abaixo da Linha do Equador. Lugar de povos humilhados, vítimas de pecados estruturais e de tantas violências da parte de outros; etnias exterminadas, culturas apagadas por processos de aculturação (Paulo Freire); doentes, moribundos, acometidos de enfermidades que retornam continuamente, enquanto populações inteiras são exterminadas, inclusive culturalmente. 

Derval Dasilio

Livro recente: JAIME WRIGHT – O PASTOR DOS TORTURADOS

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