PÁSCOA – 3o DOMINGO – ANO C
Atos 9,1-20 – Prendam os que invocavam o nome de Deus…
Salmo 30 – Porventura o pó te louvará?
Ap 5,11-14 – Proclamando o Cordeiro que tira o pecado do mundo.
João 21,1-19 – Estava com eles, mas eles não o reconheciam…

26 domingo tc.dpNas últimas décadas consolidou-se o modelo fundamentalista pentecostal de igreja – bem-sucedido estatisticamente –, fortalecendo-se o espírito de intolerância (e ganância), e até da ideologia consumista de ‘produtos’ religiosos. Estes, sempre bem-vindos em grandes e pequenas comunidades, justificam ladrões, estelionatários, quadrilhas que roubam o erário, envolvem-se com o ministério público e a polícia. No entanto, reclamam impunidade, privilégios e exceções constitucionais. Além de se acharem no direito de pressionar a “nação permissiva” em nome da “religião”.  Querem leis autoritárias sobre criminalidade juvenil, orientação sexual, pedofilia, homoafetividade, entre outros aspectos, enquanto ignoram a realidade concreta. Tornam-se também um espaço de diversão e recreação religiosa.

Exigem espetáculos e reality-shows convincentes para os novos fins. Da inspiração fundamentalista, passamos também às idéias da recente igreja e maioria pentecostal brasileira; ao pluralismo litúrgico exorcista que agrega também elementos religiosos afro-brasileiros irreconciliáveis com o cristianismo tradicional (milagres duvidosos, curas, quebra-de-maldição, descarrego, invocação de demônios, caboclos, preto-velhos), mas que não espanta. Ao contrário, concilia o que acontece há décadas, assimilando as superstições e a religiosidade popular que vem desde o império.

Os desafios de uma Igreja cristológica, conforme a tradição apostólica, tomada pela Graça (diferença fundamental da “igreja pentecostal” dos nossos dias), contudo, não encontram fundamento na religiosidade “moralista”, ou popular, no espetáculo religioso do culto pentecostal comum. Partem das indagações sobre Ministérios, Missão e Serviço, teológicos, embora eclesiásticos. Se buscam as origens, terão o foco na declaração de Jesus sobre seu próprio ministério, missão e oferta de serviço (Mc 10,45), tema gerador dos elementos que orientam a Ação Pastoral da Igreja para as demandas do Reino de Deus, até agora “impropriamente deslocado para o além, para um mundo espiritual interior, ou um paraíso celestial abstrato”. O “paraíso eclesiástico materialista”, a religião mercadológica, é uma distorção do culto cristão.

Porém, Jesus disse: “O Espírito do Senhor está sobre mim, eis que me consagrou pela unção a apresentar a notícia nova aos pobres; enviou-me para publicar a libertação dos cativos (prisioneiros de determinismos e fatalismos) e aos cegos a recuperação da visão (sobre as realidades humanas opressivas), para restituir a liberdade aos oprimidos (pelos sistemas de pensar, a sociedade, a economia, a política e a religião), e para proclamar um ano de graça do Senhor [Lc 4,16ss/ Isaías 61,1e11: ano sabático; jubileu de justiça social, remissão, alforria, libertação de contratos injustos, perdão das dívidas; cf. Deut 15,1-18; Is 61 1ss.].

Desde a Igreja dos Apóstolos, histórica e teológica, sempre se buscou a totalidade da comunidade de Deus testemunhando a Graça (ekklesia katholica). Se o assunto “ekklesia” é mundo, “oikumene” (mundo em comum); a comunidade é o lugar da “koinonia”, comunhão. Pois só no mundo e na comunhão a Igreja é assunto eclesiástico e ecumênico. Para a existência teológica da Igreja – além da existência histórica ou social, ou econômica, ou política –, “kosmos” e “khaos” são termos extremos e antagônicos, e nunca elementos integrantes (João 3,17: “Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele”). A anti-igreja, porém, foge desse antagonismo, procurando salvar-se, mimetizando-se na paisagem (“kosmos”), e beneficiando-se dessa identificação, mergulhando no consenso dispersivo e desviante (“khaos”), propagando e vivenciando religiosidades excêntricas exuberantes, exibicionistas, que caracterizam a “antiekklesia”.

Outras vezes, pensando a igreja como ante-sala do céu, em falsa prosperidade estatística ou material, ou como sobrevivente do inferno – igreja como as comunidades mundanas, “ekklesia tou kosmou”, “igrejas do mundo” – igualam-se às assembleias profanas não-cristãs do mundo gentílico, ou greco-romano, onde se expandia a Igreja histórica e sociológica em crítica e diferença quanto ao comportamento geral. Por isso, era convocada a ser comunidade de testemunho da diferença (Paul Tillich).

Este capítulo do NT está transferindo a atenção dos ouvintes e leitores da narrativa dos que viram Jesus para uma experiência de vida (João 21,1-14). Os que não viram, mas crêem (20,29), são acolhidos com respeito. Isto é, a vida da Igreja em continuidade à missão recebida por Jesus. O Ressurreto se manifesta aos discípulos na pesca prodigiosa (vv. 2-8) e no diálogo na refeição com eles (v. 9ss). João insiste num sentido: “Cristo é alimento para as multidões” (Jo 6,1-11), porém, a multidão diz que necessita além do pão que sustenta a vida, sob a incitação gananciosa. Mas Jesus diz: “eu sou o pão da vida”; “ninguém vai ao pai senão por mim”… enquanto a multidão quer coagi-lo ao estilo religioso predominante; a realizar portentos e dar-lhe bens materiais: “…em verdade me procurais porque comestes dos pães e (não) vos fartastes… deveis buscar, no entanto, por outro tipo de comida, a que conduz à vida eterna (Jo 6,26-27). Jesus não se presta em servir à igreja gananciosa (antiekklesia).

A narrativa, aqui, está cheia de símbolos vivos. Ela se assemelha à pescaria narrada em Lucas (5,11ss). Primeiramente, sua Epifania (presença divina) não foi reconhecida. (Jesus) estava na praia e não foi reconhecido. Com a interpelação: “tendes alguma coisa a comer?” E a ordem: “lançai a rede…”, o discípulo foi levado a reconhecê-lo. Há uma relação com o acontecimento de Emaús (Lc 24,30): então, quando estavam à mesa, […] partiu o pão e deu-lhes; então se lhes abriram os olhos e o reconheceram. Presença eucarística em comunhão. E por fim: Eis que estarei convosco até o fim dos tempos… (Mt 28,20).

Os textos apontam a presença real de Jesus entre seus seguidores e acolhida à mesa, até que o Reino complete a salvação do mundo. Os que tiveram a esperança frustrada, na crucificação, sentindo-se abandonados, excluídos e oprimidos, sendo estes estreitamente associados à comunhão da mesa, experimentam a comunhão da comunidade de salvação. No partir do pão está a fidelidade ao princípio cristológico simultaneamente apostólico.

Derval Dasilio

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