PÁSCOA – 4o. DOMINGO – Ano C

Atos 9,36-43 – Pedro orou e curou Tabita
Salmo 23 –  O Senhor é meu Pastor!
Apocalipse 7,9-17 – Seu Pastor vos conduzira a fontes de águas vivas
João 10,22-30 – Deus dá sua vida aos homens através do Bom Pastor 

o pastorEm regiões desérticas como na Palestina bíblica, a vida ou a morte do rebanho dependia do cuidado do pastor. Levar as ovelhas para campos verdes da primavera, ou para a vegetação seca comestível no verão, e alimentá-las, é sua função. Especialmente quanto às sobras da ceifa já realizada nos campos próximos das vilas e cidades. Nas noites escuras o pastor deve cuidar do rebanho, pois feras do deserto, e eventualmente salteadores, rondam e podem atacá-lo.

O pastor deve estar vigilante, escutar cada pequeno ruído e manter-se em posição de defesa ou ataque, se necessário for. Dá-lhes segurança ao atravessarem depressões profundas, nos terrenos difíceis ou nos caminhos cheios de pedras soltas e perigosas onde ovelhas possam resvalar.  Sabe a exata distância entre os oásis; conhece as fontes de água onde se pode permanecer para se refazerem as forças… Tudo isso pertence ao cuidado, ao desvelo e à prudência do pastor não mercenário (cf. Jo 10, 12-13; Zc 11, 15), no exemplo do salmista e poeta. O bom pastor continua cuidando de suas ovelhas, busca a ovelha ferida, trata de seus machucados. Busca a que se extraviou, chama-a docemente ao caminho certo. Trata-a com doçura e carinho.

O pastor é companheiro. Liga seu destino ao destino do rebanho. Sofre a mesma sede, a mesma fome, padece sob as perseguições ferozes. É solidário, mesmo com sol ardente,  ou o frio intenso durante a noite. Cansa-se com as ovelhas, debaixo de sol escaldante e sobre pedras. Corre riscos de agressão pelas feras, ou é ferido e até morto pelos ladrões escondidos à beira da estrada. O pastor é diferente do mercenário, ele dá a sua vida pelas ovelhas (cf. Jo 10, 15). Ele mantém uma relação de afeto profundo com as ovelhas. Elas o amam: “Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem” e “elas seguem o pastor porque conhecem a sua voz” (10, 4.27). As ovelhas sentem o bater cadenciado do cajado no chão ou nas pedras. Estão protegidas e cuidadas. Sabem disso (L.Boff).

É um escândalo, o Bom Pastor dos evangelhos, porque toda a vida de Jesus é um juízo contra os que pensavam que Deus devia ajustar-se à “lógica” religiosa. Ele não se adapta! Assim, pois, o que decide de um modo definitivo o sentido deste evangelho, cotejado com o Salmo 23, é a atitude que devemos ter ante a verdade que Jesus propõe: quem se encontra para valer, com Ele, “veste a camisa” do Reino de Deus, encontra-se com Deus custe o que custar, enquanto confia sem reservas nos cuidados do Bom Pastor. Se Ele, Jesus, escuta nossas súplicas, Deus faz o mesmo. Se Ele dá a vida por nós, isso é o que faz Deus por nós. Não estamos ante uma ficção com estas palavras. Algo concreto se apresenta: estamos diante do “Doador da Vida”, que também se dá para “manter a Vida”. O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas! A cruz não é sofrimento inútil. A parte mais difícil, porém, continua sendo as renúncias necessárias e a entrega total à Causa do Bom Pastor! (cf. Jo 10, 3).  Jesus conhece os problemas da suas ovelhas. Mesmo quando elas seguem falsários e arremedos substitutivos que pretendem, na verdade, levá-las ao matadouro.

Mas a crítica é dura, sempre, aos pastores perversos, como os envolvidos com a ganância, e justificadores de dirigentes e comunidades milionárias. O povo é pobre, mas os pastores e as igrejas são ricos. Perverteram a natureza do pastor –e da igreja –, que é de apascentar as ovelhas. Eles se apascentam a si mesmos, com arrogância e desfaçatez (Ez 34, 2.8.16). Consequentemente as ovelhas dispersam e se tornam vítimas da pilhagem, e de “animais selvagens” (Ez 34, 8; Jr 10, 21; 23, 3; 50, 6). O castigo virá sobre eles: “Gemei, pastores, e gritai. Revolvei-vos no pó, chefes do rebanho! Sereis dispersados e caireis como vasos preciosos; não há refúgio para os pastores nem escapatória para os chefes do rebanho” (Jr 25, 34-35; Zc 11, 16-17).

Esses textos parecem mostrar situações atuais, como as descritas pela revista de negócios Forbes (cit. Pastores Evangélicos mais Ricos). Como se pode avaliar, bíblica e teologicamente, a figura do pastor suscitaria arquétipos ancestrais ligados ao cuidado, à acolhida, à segurança, à confiança que deve caber aos guardiões do povo. Não ao que se vê a olho nu, hoje. O mais implacável crítico dos pastores do povo de Deus é o profeta Ezequiel. Todo o capítulo 34 do livro de Ezequiel é uma peça acusatória contra os pastores, condutores, dirigentes de Israel, “que se apascentam a si mesmos” (v. 2).

Em discurso direto o profeta invectiva: “Bebeis o leite das ovelhas, vestis sua lã e sacrificais os animais gordos… Não fortalecestes a ovelha doente nem enfaixastes a ovelha quebrada. Não trouxestes de volta a ovelha extraviada, não procurastes a ovelha perdida, mas as dominastes com dureza e brutalidade” (vv. 4-5), (L. Boff, O Senhor é meu Pastor, Sextante,2004).

Pastores notórios, midiáticos ou presenciais, fazem muito dinheiro com a religião, como se a parábola das moedas escondidas resumisse o Reino de Deus (Mt 13,44). Não é a toa que a recente força evangélica pentecostal, que mais influencia a religião histórica, dedica-se tão intensamente à mídia e ao potencial mercadológico das multidões, ou da política*(1). Mas nem tudo são flores para os pastores que se transmudam em lobos. Platão entendia que o “pastor” humano, o governante, é um esboço (schema) do pastor divino, e deve governar com o senso de justiça, equidade e benevolência própria do Ser divino. Por esta razão se entende porque, segundo o profeta Isaías, Deus chama Ciro, rei pagão da Pérsia, de “meu pastor”. Porque cuidou do bem-estar do povo judeu exilado, permitindo que regressasse à Palestina e reconstituísse o Templo (Is 42, 28).

Há, no entanto, uma nota de grande realismo, aqui. Quando se faz referência aos soberanos e reis hebreus como pastores, predominam críticas severas e ressaltam-se os traços negativos dos governantes. O profeta Isaías, por exemplo, os chama de “cachorros que têm enorme apetite, nunca se fartam, pastores que não sabem discernir… cada um visa ao próprio lucro, sem limites” (Is 56, 11-12). Por que não perguntamos sobre isso, e aceitamos o modelo predominante dos dias de hoje?

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 *(1). Eleito para novo mandato, estando há 22 anos dirigindo a Assembléia de Deus no Brasil (Mapa das Religiões da FGV: 10.300 milhões de fieis),  o pastor presidente declarava: “A igreja evangélica (AD) sai fortalecida em todos os sentidos. Não só como igreja, a religiosa, mas também (a igreja evangélica) no próprio momento político (assunto em destaque: manutenção do dep. Marco Feliciano na presidência da CDHM no congresso nacional). Nós estamos mais unidos, mais fortes e dispostos a continuar vencendo”, disse o pastor, praticamente confirmando que sua denominação representa uma facção política nacional coesa, “evangélica”, pronta para assumir seu papel na “condução moral” da nação. 

Nenhuma palavra foi dita sobre a frequência de pastores e dirigentes da AD às páginas policiais, presos ou investigados pelo Ministério Público em escândalos financeiros. Mas a lembrança do apoio ao bloco evangélico pentecostal no Congresso não deixou de ser feita. Entre as principais plataformas dos mesmos encontra-se o “direito constitucional” de manter indevassável as contas eclesiásticas e inimputabilidade fiscal de pastores e igrejas, por enriquecimento ilícito. Este é um momento importante, uma vez que uma das maiores denominações pentecostais do país tem dirigentes levados à prisão, processados por sonegação fiscal, improbidade, lavagem de dinheiro eclesiástico, enriquecimento ilícito, enquanto ameaçam testemunhas, promotores e juízes.

 

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