PÁSCOA – 5º. DOMINGO – ANO C 
Atos 11,1-8 – Diziam deles: eles se amam tanto!
Salmo 148 – Louvai-o, céu dos céus
Apocalipse 21,1-6 – “…a quem tem sede, darei amor, água da Fonte da Vida” João 13,31-35: “Amai-vos os uns aos outros, assim como eu vos amei”…

Quando perguntamos sobre crianças mortas em Beslam, Newtow e Columbine, ou mortas quando esquecidas dentro de um carro, ou desnutridas, depauperadas pela fome das mães que nem leite produzem mais, numa favela de nossa cidade, na Índia ou no Afeganistão; quando uma bomba explode numa  avenida de Boston, ou quando jovens enlouquecidos pelo sistema matam crianças inocentes numa escola, estamos perguntando sobre o quê? Sobre o desespero que imputa à humanidade inteira o mal-estar no mundo? Sobre o ódio e o amor? J-P Sartre dizia que o homem, a vida humana, o nascer e o morrer, são absurdos (O Ser e o Nada).

Seres humanDOIS IRMÃOS - ESCULT BARROos adoecem num ambiente de desconfiança e de medo, de manipulação econômica e cultural, sob exploração ou instrumentalizados para finalidades inomináveis e inconfessáveis, como a medida jurídica contra o jovem. O que está por trás disso é de fato ódio social, vingança, ou é violência animal? O evangelho, no entanto, recomenda o conselho de Jesus Cristo para a entrega sem medo ao amor confiantemente, incondicionalmente, gratuitamente: Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. Há outra saída para quem tem fé no amor?

Drogas, violência, deserção escolar, trabalho precoce, prostituição infanto-juvenil, gravidez de adolescentes, AIDS, mendicância (moradores de rua), delinqüência, legislação frouxa quanto ao aliciamento da criança e do adolescente, antecipação da maioridade penal, e outros, são ameaças sobre o jovem. Estas ameaças em que sentido podem colocar em risco severo o projeto de Deus de vida plena para o mundo? Políticos mal-intencionados, especialmente da bancada evangélica no Congresso, pensam em resolver o assunto com um decreto de punição preventiva da criança e do adolescente, ao invés de ampará-los. 

De fato, o que se busca é um culpado, enquanto adiamos a exigência de mais severidade e eficácia para com o crime adulto, instrutor do crime juvenil. Uma lei estatal que possa transferir essas execuções contra menores, legalmente, para o Estado merecerá os agradecimentos do crime organizado quanto à ajuda desses legisladores. A criança e o adolescente permanecem no rol dos mais desamparados socialmente. E não nos indignamos com isso. Não prevenir danos biográficos psicossociais na infância, adolescência e juventude – na criminalização da criança e do adolescente –, é determiná-los duplamente vítimas permanentes da sociedade e do crime organizado. Eis o foco da questão.

João é o evangelista que tratou com mais profundidade esse momento de exortação sobre o sentido do amor, indicado por Jesus. Jean-Yves Leloup, comentando escritos joaninos, sugere que na tradição cristã o valor da palavra amor (ahavah), como elemento chave da revelação, indica que este é a luz de Deus revelada neste mundo, e não apenas uma representação de palavras, que é trabalho para exegetas e hermeneutas. É uma questão de representação do mundo, do homem e suas culturas.

O mitzvah (exercício ou mandamento) do ahavah (amor), no encontro de culturas do Judaísmo e do Cristianismo, sob o helenismo mediterrânico, no Oriente ou no Ocidente, leva imediatamente à compreensão da integridade da vida humana. Trata-se da inteireza da criança, do homem e da mulher. Sem amor, a sobrevivência no mundo da morte (thanatos) equivale a viver “amando como animais”, como lembra Alceu Valença, na canção: “… um cão vagabundo e uma onça pintada /se amando na praça como dois animais”.

Paulo, “helenizando” a fé cristã, exalta as qualidades de agape, o amor que assume todas as realidades humanas; que integra, faz sujeitos inteiros, e não-divididos. Amor possível sob o mandamento divino. Enfim, o caldo delicioso que resulta das receitas que nos foram passadas desde o início da criação (bereshit) nos convida ao sentido libertador do amor. Agape é superabundância e plenitude no amor. Principalmente, é gratuidade, generosidade, misericórdia, compaixão, solidariedade, capacidade de entender a Graça que vem entranhada e entrelaçada com o amor de Deus.  Envolve o exercício do perdão, da reconciliação, do cuidado, da misericórdia, da compaixão, da solidariedade e da salvação do outro e da outra. Martin Buber atualizaria a fórmula platônica do amor numa equação sobre a alteridade Eu|Tu  para a concretude exigida no amor: “Eu” sou como  “Tu”, e “Tu”  és como “Eu” sou. Alteridade reconhecida em igualdade possível somente através do amor. Fernando Pessoa diria: “Cara a cara, olho no olho, eu te olharei com teus olhos e tu me olharás com os teus”.

Do evangelho uma palavra de Jesus ressalta-se acima das outras. “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. João a coloca na boca de Jesus. Por quê? Como negar que, às vezes, as realidades fazem-nos cair no pior dos pessimismos e pensar que não há amor: “este mundo não tem solução”… Precisamente, as palavras do evangelho de hoje são determinantes: versam sobre a batalha do amor contra o caos da moral e da ética atrofiadas.

Situações duras e difíceis de assimilar, vistas das janelas dos espectadores privilegiados. E nem isso faz sentir-nos afortunados. Somos induzidos a competir e a violentar o outro. Vimos há poucos anos o treinador de natação olímpica espancando diante da câmera uma jovem nadadora australiana, sua filha. Agredimos e violentamos nossos filhos para vencerem custe o que custar.

Será que a chama enferma de um amor que não é amor, mas ódio, intolerância, inveja, ganância; corrupção de valores essenciais, medo e desconfiança do outro, é que nos move? Por que agimos como se o próximo fora nosso inimigo potencial, adversário que precisa ser abatido a qualquer custo? O outro é o próximo, como a criança e o adolescente, neste momento onde se engendram esforços para que paguem pelos pecados da sociedade impiedosa, hedonista, sem misericórdia, dos nossos dias? O que nos impede de compreender o imperativo divino: amai-vos como eu vos amei?

Derval Dasilio 

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