PÁSCOA – 6º. DOMINGO – ANO C
Atos 16,9-15 – Deus chamava Paulo para o Ocidente
Salmo 67 – A terra deu o seu fruto, e Deus a abençoaria.
Apocalipse 21,22; 22,15 – Na visão, não vi nenhum templo na cidade de Deus.
Evangelho: João 14,23-29 – O amor e a paz transformam o mundo
“Se paz, a mais doce, me deres gozar…” (Hino tradicional).

imagem-de-paz-28c6b6Para a linguagem bíblica, a palavra paz tem que ver com a salvação. A mensagem de paz de Jesus é a verdadeira mensagem de salvação, porque nos fala de reconciliação conosco mesmos, com Deus e com os demais. Passamos a ser conscientes de nossos próprios conflitos interiores e exteriores confrontados com o dom de Jesus Cristo. Dizia Paulo, “praticamos o mal que não queremos e deixamos de fazer o bem que queremos”. Pois, ante esta ruptura interior, Jesus manifesta um amor incondicional por parte de Deus; amor que acolhe nossa realidade ferida e destroçada por valores desintegrados, pulverizados pela violência, e nos dá uma nova oportunidade. É esta a recomendação que Jesus deixa para seus discípulos: transmitir a Boa Notícia da paz em meio de um mundo de tribulações. Porque a Paz que Jesus nos deixa não é como a “paz” que o mundo dá…

Eduardo Galeano fala de um “turismo” e funerais no rumo da paz celestial no espaço, mas com preços bem terrenos: “Por 2,5 mil dólares (mensais) você pode ter seu túmulo no Vale do Silêncio”, anunciavam nos EUA. Os foguetes levarão seus clientes partindo do Cabo Kennedy. A empresa funerária Earthview (um nome bem sugestivo: “Visão da Terra”!), por 5,6 mil dólares, oferecia um vídeo do lançamento, enquanto garantia um epitáfio aos primeiros escolhidos: “Que vista magnífica, daqui!”; “Meu espírito está livre, finalmente, para elevar-se às alturas”.

Jurandir Freire, etnopsiquiatra, diz: “Meus pressuposto éticos fizeram-me escolher como objeto de estudo um grupo de pessoas, sujeitos que estão submetidos à violência, seja ela de que ordem for. Minha opção fundamental é a violência da discriminação contra o negro, o drogado, e contra os pobres, maltratados e ofendidos pela sociedade e poderes públicos. A lembrança do extermínio de seres humanos é a centelha que constitui o modo produtor de toda a minha investigação”.

A lição de Jesus, conforme o Evangelho, é esta: não se pode expulsar Deus da realidade humana aqui na terra. Afirmar a divindade de Cristo é fácil, reconhecê-lo disputando lixo, procurando emprego, casa pra morar, como vemos em nossas cidades, na periferia, sem família, sem escola, sem educação, sem saúde, é que são elas (“… quando é que te vimos catando lixo?” – Mateus 25,44 – paráfrase do autor). Trata-se de uma exigência absurda? Teremos que conviver com esse “resíduo” social durante muito tempo, sem indignar-nos, declarando que estamos em paz com a nossa fé?

A experiência de Deus, também nos testemunhos dos primeiros discípulos do Senhor, é acompanhada de uma certeza estranha: Deus era a cara de Jesus, que se empenhava em reivindicar o nome e a honra do Deus da Bíblia (que a própria trata de complicar, com antropomorfismos autoritários, tirânicos, egoístas, em muitos lugares).

Mesmo preso e tachado de traidor, o profeta Jeremias proclama o evangelho da Paz: novas alegres de perdão entre os povos, as raças, os gêneros; gozo e alegria para uma terra desolada. “As nações” ensinam, “desfrutarão de todo bem e de toda a Paz que Deus haverá de trazer” (cf. Jeremias 33.8-9).  E Jesus nos disse, um dia: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5,9). 

A paz do mundo se baseia no poder, no domínio dos mais fortes e submissão dos mais fracos. Paz pelo exercício do poder (Machiavelli, Hobbes). No entanto, a Paz de Jesus não é assim. Implica num compromisso exigente dos discípulos. Nasce do amor e por isso procura a  defesa de condições de vida digna para os desfavorecidos, despojados, despossuídos. Nesse sentido, é uma paz que não recorre ao conflito quando a dignidade das pessoas está em jogo. Por isso, a mensagem de paz do evangelho não cai bem neste mundo, quando denuncia a injustiça, a marginalização, a exclusão e o poder que faz com que uns vivam à custa de outros. Os mensageiros dessa Paz vivem no meio do conflito, procurando os caminhos do Espírito, os caminhos do entendimento. Por isso, a mensagem essencial contida na Paz de Cristo é a reconciliação.

Há consequências mais imediatas para uma consciência de transcendência do  amor. Alcança-nos o amor quando compreendemos e lutamos pela Paz, dignidade, amparo, cuidado, respeito àquilo que é direito de cada um (dignitatis). É por esse aspecto que devemos ver que a crise humana pode ser superada. O processo, porém, dará bastante trabalho, porque parte de uma geração inteira  já se perdeu. Há milhões de crianças de rua, há a massa de desempregados e milhões de pessoas que vivem na miséria absoluta. E não estamos falando da Índia ou do Paquistão. Esses são irrecuperáveis? Como falar em ética e testemunho cristão para quem é criado no meio das opressões, neste país, Brasil, que Hobsbawn, celebrado como o maior historiador do século 20, denunciava como “um monumento à negligência social”?

É um pouco triste dizer que a maioria de nós está surda à voz do Crucificado, que desde a sua cruz nos lança um convite para tomar consciência de que vivemos num tempo de urgência para a Paz. Ironicamente, muitos cristãos dizem: “Jesus já nos deu a paz eterna!”. De que paz estão falando? “Paz Eterna” é nome de uma funerária famosa com esse nome, em minha cidade. Eu, por mim, já falei: “Não pretendo comparecer ao meu funeral”…

Só o nosso egoísmo justifica o alheamento sobre a necessidade de paz no mundo, quando não abrimos espaço em nossa devoção diária para a leitura da Bíblia; para a meditação profunda sobre as intenções de Deus de implantar seu Reino; para oração, clamor intercessório pelo mundo violentado, e nossa oferta espiritual na compaixão e na misericórdia por irmãos e irmãs que sofrem. A violenta turbulência do cotidiano, a consciência ferida e dolorida, as diferenças e abismos sociais, reclamam de nós atitudes espirituais e ações concretas em favor da Paz. A Paz de Jesus Cristo: “Eu dou a Paz, mas não nos modelos do mundo”.

Derval Dasilio

 

 

 

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