PÁSCOA – 7º DOMINGO – Ano “C”
Atos 1, 1-11 – Jesus foi levado aos céus, à vista deles.
Efésios 1, 15-23 – E o fez sentar-se à sua direita nos céus.
Lucas 24,44-53 –  Ascensão: Jesus está vivo entre nós…

ascensão do senhorA ascensão, apontada no Novo Testamento depois da Paixão, procura a fé, e ela nos remete à fé de que Jesus está vivo entre nós, e ele representa o Reino de Deus. Ele é diferente de nós e ao se ausentar de nosso meio, não nos abandona. “Sua história e ministério se perpetuam através da nossa história e ministério” (Elias Maper Vergara). A Ascensão do Senhor foi um fato histórico, físico, espiritual, teológico? Qual é a mensagem fundamental do mistério da Ascensão? “A terra é o único caminho que temos para chegar ao céu…”, concordamos com esta frase? Que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo nos dê um espírito de sabedoria que abra o nosso coração à sua luz, para que saibamos qual a esperança que o seu chamamento nos dá. 

Jesus é levado aos céus em Betânia. Esse pequeno vilarejo de Betânia fica muito próximo do vilarejo de Belém, onde Jesus nasceu. Nesta aproximação geográfica destes dois acontecimentos, há uma forte conexão entre o nascimento de Jesus e a sua ascensão. A estrela que anuncia o nascimento de Jesus constrói simbolicamente uma forte conexão entre céu e terra da mesma forma que o episódio da ascensão. Belém e Betânia são a periferia de Jerusalém, não há negócios chamarizes ao consumo, ali. E é nessa periferia que inicia e finda a narrativa sobre a vida de Jesus. Assim sendo a periferia de Jerusalém, onde vivem os mais pobres e marginalizados, é colocada no centro do interesse do ministério de Jesus.

O poder prometido por Jesus aos seus discípulos não será um poder concedido pelas estruturas institucionais comuns e humanas, será um poder que, vindo do alto, não se subordinará a nenhuma lógica de poder até então exercida [grego = dynamin, v.49, força, energia; a promessa do Espírito é a “força” prometida, a mesma da encarnação, força que vem do céu: “…ficai na cidade até que sejais revestidos de força”. Conforme se vê nos relatos dos Atos dos Apóstolos ( cap. 2), essa força-poder prometida por Jesus será recebida pelos discípulos na visitação do Espírito Santo. A visita do Espírito Santo vai romper com os limites de exercício de poder até então conhecidos. O poder concedido pelo Espírito Santo vai universalizar as boas novas de Deus em Cristo. Será então um poder (imperativo) de serviço a todos os povos e não um poder político e religioso exclusivo para o povo de Deus.

É muito difícil compreender o que Deus planeja, a partir da missão e da própria pessoa de Jesus. E, aqui, Lucas não faz mais que fazer reconhecer que o legado apostólico vai compor a primeira tradição sobre os significados históricos que envolvem Jesus com o anúncio da chegada do Reino. Estamos diante do momento em que eclodirá o Reino de Deus, e quem conduzirá a verdade completa sobre os caminhos e ênfases libertárias é o Espírito. Aí está o desafio para a Igreja, em todos os tempos, e em todas as eras. Os fatos se encaixam na história humana, os processos civilizatórios, enquanto as essências das liberdades vão se apresentando no tempo, desvelando as escravidões e os processos de dominação, desmascarando a pretensão humana de gerenciar o mundo em lugar de Deus.

A mundialização do capitalismo econômico, através de um tempo histórico manifesto desde a helenização da economia, a substituição do escambo pela moeda comercial, “bancária”, por exemplo, impõe ao planeta inteiro a substituição da economia solidária; da partilha igualitária, pela acumulação de poder. E como disse Roger Garaudy, um mundo com tais pretensões indica que não precisa de Deus. Isto é, dispensa a gratuidade divina, a misericórdia, a compaixão, a solidariedade e a partilha. O homem declara-se mestre e senhor da natureza enquanto domina os outros homens, os continentes, as nações, com os poderes de seus próprios reinos. E o mesmo espírito mercador do mundo de negócios chega à religião. A religião evangélica insistirá em ser parte do mundo dos negócios, preocupada em fugir de impostos, reclamando privilégios e impunidade fiscal?

A semana que segue à comemoração da Ascensão (40 dias depois da Ressurreição) prepara-nos para o Pentecostes (50 dias depois da Ressurreição), o dia em que a Unidade da Igreja se estabelece pela possibilidade de todas as línguas serem ouvidas, e entendidas, como uma só, coerência dos discípulos que atendem à intercessão de Jesus ao Pai, e de que todas as nações e tradições sejam alcançadas pelo Espírito do Ressuscitado. As maravilhas de Deus passam a ser proclamadas sem barreiras culturais, étnicas ou religiosas.

Esta semana é propícia para a “Oração pela Unidade da Igreja”, porque todas as tradições cristãs encontram no Pentecostes o Espírito que vem para permanecer. É um Pentecostes permanente que prepara a Igreja discípula para anunciar o que lhe foi exigido. A fé apostólica não pode ser setorizada na igreja visível, porque a Igreja do Senhor não pode ser loteada ao sabor das particularidades denominacionais. Nesse dia, a Igreja se reconhecerá, na diversidade das famílias da fé, outra vez, unida como orou o Senhor, preparando a Ascensão:“… agora vou para junto de ti … Pai, oro para que sejam um como eu e tu somos um… para que o mundo creia (na salvação possível)” (Jo 17, 13a e 11c).  

O episódio da Ascensão não se configura como um final, um epílogo da história da vida de Jesus. A ascensão nos remete à fé de que Jesus está vivo entre nós, anunciando e garantindo a Salvação. Através da justiça do Reino do Deus.  Ele é diferente de nós, e ao se ausentar do meio físico não nos abandona. Jesus está e continua no meio dos homens e mulheres que sofrem as exclusões, o preconceito, a exploração, a redução econômico-social.

Sua história e ministério se perpetuam através da nossa história social, política, econômica, religiosa. O poder a nós delegado é sempre o do serviço ao nosso semelhante (Nota: dynamis=poder=força=energia, para servir a Deus e ao Reino). Precisará sempre contestar a realidade presente. No tempo de Jesus era Jerusalém. Hoje dezenas de “jerusaléns”, centros de poder, continuam a oprimir, escravizar e empobrecer os povos no mundo inteiro. O ministério da Igreja, hoje, se constrói em Betânia ou em Jerusalém?, como pergunta Elias M. Vergara. Cada homem, mulher, jovem, idoso, deve responder, no reconhecimento de que Jesus Cristo, na Ascensão, ocupará o mais alto posto na orientação de nossa fé. Como dizemos na liturgia da comunhão: “Corações ao alto…, Ele está no meio de nós”.

Derval Dasilio

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