11º DOMINGO – TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
1Reis 21, 1-10 (11-14) – Profecia contra a prepotência
Salmo 5,1-8 – Acode os meus gemidos, Senhor
Gálatas 2,15-21 – A injustiça das leis que oprimem
Lucas 7,36-50 – Perdão pelos pecados impostos por outros

(mãos) perdão acima de tudoNas palavras de Lutero, “o cristão é ao mesmo tempo justo e pecador” (“simul justus et peccator“). Portanto, pecamos quando insistimos na discórdia. O perdão, porém, é um dom, uma graça que procede do amor e da misericórdia de Deus. Há, porém, a exigência de se abrir o coração, de se criar um espírito de conversão, de mudança, de transformação, entre as partes envolvidas na discórdia. Na comunidade se buscará a paz, sugere o Evangelho. Onde não reina a paz prevalece a ofensa. Portanto, a reconciliação torna-se imprescindível, acreditamos, sem restrições, avançando na direção do perdão mútuo e incondicional. As instâncias, nesse caso, são definidas no Evangelho: primeiro em caráter pessoal; segundo, na forma deuteronômica, social (Dt 19,15), com testemunhas.

Pensadores como Jacques Derrida, não religioso, têm insistido: “A verdade começa com o perdão”. Inspira-se em Mandela e Desmond Tuto nos resultados do apartheid na África do Sul (e não se trata aqui de perdoar a seleção racial fracassada). Sul-africanos reconhecem 11 línguas como legítimas, em todas se estimula a tradução do evangelho do perdão: fraternidade, humanismo, bondade, misericórdia. Interessado, Derrida descobriu com eles que na tradição cristã há dois conceitos para o perdão: perdão incondicional (o culpado por todos os seus crimes, mesmo sem pedir perdão é perdoado). A tradição contraditória, em vigor, é do perdão condicional (o perdão exige a transformação do pecador). Alguns, no entanto, diriam que basta pedir perdão a Deus, mas dessa maneira o processo fica incompleto, torna-se necessária a ação pública, a confrontação e o diálogo. Qual deles é evangélico? Penso que nenhum.

Perdão e amor são inseparáveis, pois resultam em reconciliação. No texto encontramos um enorme contraste: uma mulher “pecadora” e um fariseu. Vejamos os termos. “Pecador” é o infrator da lei religiosa; “fariseu” é o religioso de vida “santificada”, um pretensioso purista moral, como diz o termo (fariseu = perushim = separado dos outros, “santo”). Fariseus eram peritos em catalogar pecados, e classificar os 630 preceitos religiosos que não estão na Bíblia, mas no Halacah (mais de quatrocentos começam com “não farás…”). Aqui, nesta passagem, pecadora é a mulher “desclassificada”, chamada “mulher da cidade”. Em outras palavras, “mulher da rua”, ou “mulher da vida”, “mulher da zona”… uma prostituta.

Mas ela trazia um frasco de perfume para Jesus, um tipo de óleo afrodisíaco, comum. Igual aos que aparecem na tv com imagens de sedução feminina, para atrair compradores. E Jesus aceitou! Talvez lhe agradasse os cheiros do almíscar, da alfazema, de óleo do cravo e da canela. Ou quem sabe do extrato de jasmim, bergamota, óleo das rosas de Sharon, lembrado nos salmos bíblicos. Ou no Cantares: “Como o teu perfume é agradável! Como o teu nome é doce…” (Ct 1,3).

Isso causou tremendo escândalo entre os fariseus. Homens santos não podem sucumbir à sensualidade dos cheiros maravilhosos extraídos da natureza, nem se estiverem nos poemas bíblicos sobre o amor erótico. Jesus percebe, e pergunta a um deles: “quando um credor perdoa duas pessoas que lhe devem valores diferentes (500 ou 50 reais), dessas, qual lhe será mais grata? Quem terá mais amor”? E o fariseu responde acertadamente: “aquela cuja quantia maior foi perdoada” (Lc 7,36-50). E Jesus lhe disse: “muito bem”! Bingo…

Com um pouco mais de atenção, veremos que a mulher não pede perdão a Jesus. Por nada. Na verdade, Jesus diz  que ela já fora perdoada. Sua declaração (v. 47) é sobre algo que já aconteceu: “seus numerosos pecados lhe estão perdoados” (BJ); ou “os seus pecados tão numerosos foram perdoados” (TEB), “os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados” (Pastoral) ou conforme traduz muito bem a BLH: “o grande amor que ela mostrou prova que os seus muitos pecados já foram perdoados”.

O Evangelho de Jesus Cristo aponta, ainda, como se deve resolver o problema que está afetando profundamente a vida e a humanidade de todos nós: é imperativo aplicar a compaixão e a própria misericórdia aprendida, ao próximo devedor. Ou ao próximo ofendido por nós. E não devemos esquecer o ensinamento de Jesus, entre os muitos que não nos permitem olvidar a necessidade do perdão e da reconciliação, acima de todos os julgamentos. As represálias e as retaliações que nos tentam, sempre quando somos ofendidos, ou quando ofendemos alguém, devem ser suplantadas com a ternura do Amor. O evangelista João também disse: “Deus é amor”. Quem ama perdoa.

A ofensa toma um significado econômico, quando Pedro indaga: “… quantas vezes?” E a resposta de Jesus aponta: “infinitamente” (70×7, na matemática do amor). Reserva-se, neste último exemplo do Evangelho, uma demonstração de que o homem  e as comunidades de fé são alvo da imensa Misericórdia, destinatárias da Graça infinita e ilimitada do perdão (Sl 86,7: “Escuta minha súplica, Senhor; dá atenção ao pedido da tua Graça”).  O ensinamento simples e sem adornos, na oração que o Senhor ensina, completa: “… perdoa as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tem ofendido”. Versa a respeito do que devemos aprender com a misericórdia de Deus.

Excelente terapia espiritual, boas exortações sobre a necessidade do perdão: “Quem lança uma pedra no ar, lança-a para cair na própria cabeça”; “quem abre uma cova, nela cairá, e quem arma uma cilada nela será apanhado”; “o mal que o homem comete retorna contra ele, sem que ele saiba donde veio…” (Eclo 27,25;26;27). Perdoar é reconhecer uma abertura infinita, em nós e em quem nos ofende, por isso não se pode simplesmente reduzir a questão a um virar as costas e ignorar as consequências da ofensa.

Perdoar significa libertar o ofensor de sua dívida, mesmo quando o mesmo não deseja sair do compartimento em que está preso. É permitir que o amor flua de novo, torneiras abertas; é permitir que a generosidade tome o lugar da avareza; é compreender que temos de entregar ou repartir o amor que recebemos do Pai. Por isso oramos: “Perdoa as nossas ofensas assim como perdoamos os nossos devedores… e não nos deixes cair em tentação (de não perdoar), mas livra-nos do mal”.

Seria isso que Jesus indica, além da necessidade dos discípulos dirigirem-se aos excluídos e tresmalhados do grupo religioso que se acha protegido para julgar? Jesus fala da alegria de perdoar, para salvar e libertar (no NT o vocábulo “afíemi”, perdoar, tem o sentido de soltar, libertar…). É esta a apologia que Jesus faz do evangelho do Reino: porque Deus é assim, de misericórdia incompreensível, a tal ponto que a alegria de perdoar é imensa. Embora os maníacos da santidade falsa não queiram assim.

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