13º. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES           
2Reis 5,1-14 – O profeta curou Naamã, sem exigir prata e ouro
Salmo 30 – Pela tarde o pranto, pela manhã gritos de alegria!
Gálatas 6 (1-6); 7-16 – Tormento das tristezas doentias
Lucas 10,1-12;16-20 – Sem vergonha de viver com alegria e entusiasmo

família felizA alegria deve ser celebrada, não de forma egoísta, mas envolvendo a comunidade. Por isso, quando o pastor chega em casa, reúne amigos e vizinhos, dizendo-lhes: alegrai-vos comigo, porque já achei a ovelha perdida (Lc 15,6). A mulher, após encontrar a moeda perdida, convoca amigas e vizinhas, dizendo: alegrai-vos comigo, achei a moeda perdida (Lc 15,9). A validade, o poder do compromisso, na reivindicação de Jesus não se limita, por essa razão, à uma única expressão relacionada ao reconhecimento fiel da ação salvadora de Deus. A espera da realização plena do Reino envolve prazeres.   Não se exclui a alegria nessa espera (George Kümmel).

O convite para participar da alegria reaparece (Lc 15, 22-24), após a volta do filho perdido e pródigo. Nas aplicações das parábolas, percebemos que festa na terra sinaliza festa no céu, quando um pecador se converte. O tom de alegria, fundamental na parábola da ovelha perdida e na da moeda perdida, refere-se explicitamente ao próprio Deus, e sua alegria, nos versículos conclusivos de ambos os relatos (Lc 15,7; 10,16ss). A ética de Jesus, portanto, sugere alegria, não obstante ele anunciar a proximidade do reino de Deus e o julgamento da sociedade autoritária, carrancuda, de má-vontade com a novidade, e novos relacionamentos. Não pode ser entendida como uma “ética de ínterim” e deve ser caracterizada mais corretamente por “ética do tempo da graça” ou “ética da Nova Aliança”.

O que se deseja, no mais secreto do coração, como bem supremo é, de fato, ser “feliz”? Aristóteles, o autor da Ética a Nicômaco, e Jesus Ben Sirac (Eclesiástico  – BJ), ensinaram que, afinal de contas, todos queremos ser felizes, e a felicidade é o grande fim em si mesmo, grande desejo humano. Assim também dizia o salmista: “Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dias…” (Sl 34,13). Antes de contrair a doença mortal da ganância, quando o homem se sentia feliz, tranquilo e seguro sem honra e poder, e nem pensava num deus comercializável, que se vende, movido por bajulação; ou que permite vender graça num balcão; que se encastela em honra, prosperidade, e poder. Um poeta hebreu, salmista já dizia: A ira de Yahweh dura um momento, e seu favor dura a vida inteira. Pela tarde vem o pranto, e pela manhã gritos de alegria (Sl 30,6). 

O mais alto ideal cristão está aqui: a felicidade, bem-aventurança eterna. A felicidade não se compra, mas é sempre buscada. Como uma “ave peregrina”, um pássaro azul que pousa às vezes em nossa janela, mas que escapa no momento exato em que queremos domesticá-la, lembra um ensinamento budista. Damos muitas voltas pelo mundo: buscamos “ter”, “saber” e “poder”. Contudo, através desses poderosos verbos auxiliares da apropriação, da potência, da sabedoria, buscamos ser felizes… Um equívoco. Dificilmente alcançamos esse fim (Luiz Carlos Susin). Atravessamos a vida como uma noite escura, e manhã nunca chega, por esses meios.

O que desejamos como ser-humano, homem ou mulher, não é o abstrato “ser em si mesmo”. O que queremos mesmo é ser “felizes”, sempre. Concretamente. Dá pra ser feliz num mundo sem compaixão? A felicidade está essencialmente ligada à alegria e ao prazer, ao sentimento jubiloso de gozo, à plenitude passageira, mas profunda, em que o prazer faz vibrar o ser humano na sensação positiva da vida: o prazer de uma boa comida, não importa se churrasco, feijoada, muqueca, tambaqui, pato ao tucupi. O prazer de uma música, que pode ser de Mozart a Debussy, Pixinguinha. O repertório lírico de José Carreras e Kiri Te Kanawa. A MPB de Tom Jobim, Edu Lobo e Gonzaguinha. Lutero dizia, feliz: “faz escuro, mas eu canto”. Um “crente” pode e deve ser feliz com a música: “Não sou da opinião de que todas as artes devam ser massacradas e desaparecer”, queixava-se do iconoclasta Zwínglio o grande reformador, que proibia instrumentos musicais no culto. O iconoclasta Calvino reafirmou as teses de Lutero, mas depois proibira a arte e paramentos litúrgicos no templo. 

A felicidade está ligada ao prazer de um sorriso, como o da criança que brinca feliz com a areia, ou como minha neta que risca com giz de cera as portas do quarto. Ela pressente que é, já, um esboço do que vai ser o “ser (que) pode ver um mundo num grão de areia e um céu numa flor silvestre, / segurar o infinito na palma da mão / e a eternidade em uma hora”, dizia William Blake. Ela nem se imagina que é uma gota de orvalho numa pétala de flor (Rubem Alves). Tantos conteúdos da “alegria de viver”! A ética mais rudimentar e mais sincera é a que envolve o prazer como forma de ser feliz.

Aí está a primeira liberdade, e o primeiro amor à vida. A primeira consciência da honestidade e do dever na coletividade. Creio que Kant poderia ter dito isso, se não disse. Haverá outras formas de se expandir a felicidade como, por exemplo, a felicidade de se dedicar, de trabalhar, de aprender, de fazer alguém feliz e até de sofrer pela pessoa amada. Mas, como degraus sobre esta estrutura básica do prazer, a alegria primeira de viver. O mais alto ideal ético, o de viver em comunhão; a busca da justiça, não dispensa, mas exige o prazer (Luiz Carlos Susin). Saint-Exupéry dizia: “o maior prazer é o prazer de conviver”. A ética começa e finaliza, portanto, no bem, no desejo do bem, na felicidade e no prazer de viver pela justiça e a liberdade.

Em todo o evangelho (Lucas 10,1-12, 16-20) os personagens são possuídos de uma estranha alegria. Podemos concluir a centralidade da alegria de Jesus na missão de Deus (sugxárete moi = alegrai-vos comigo, festejemos o reencontro da ovelha, da moeda e do filho perdido). Em Lucas, para que não se vangloriassem como exorcistas, prestidigitadores e milagreiros, Jesus os alertou: “Não vos alegreis porque os espíritos se sujeitem a vós; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lc 10,20). 

“Eu morreria feliz se visse o Brasil cheio de marchas (pela felicidade). Marcha para os que não tem escola, dos reprovados pela sociedade autoritária; marcha dos que querem amar, e não podem; dos rebeldes a uma obediência servil; dos que querem, mas são proibidos de ser gente; dos andarilhos históricos correndo o mundo, em favor das liberdades” (Paulo Freire, adaptação).  

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