15º. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
Amós 8,1-12 – A festa dos corrompidos transformada em funeral…
Salmo 52 – Os justos haverão de ver e ouvir tudo
Colossenses 1,15-18 – Nele são reconciliadas todas as coisas
Lucas 10, 38-42 – Bem-aventurado o que ouve!

“Et Dieu créa la femme”, lembrava o cineasta Roger Matha-&-MaryVadin em 1956. Por onde andariam as mulheres, no início da era cristã? Na segunda geração da igreja inicial, pós-apostólica, as mulheres tinham funções diminutas (Elza Tamez). Isso se deve à forte pressão da cultura patriarcal judaico-cristã na Igreja. Inventa-se uma outra forma de domínio para submeter a mulher: o “patriarcado amoroso”.  Que não deixa de ser patriarcado.

Lucas, depois, nos apresenta finalmente um caso pertencente às tradições recebidas pelo evangelista no círculo de seus discípulos, especialmente as mulheres, faz-nos contemplar um quadro familiar, no qual Jesus faz uma visita a amigas. Marta e Maria recebem-no em sua casa. Marta se multiplicava para atender o hóspede. Jesus a repreende: “por que andas inquieta com tantas coisas, tantos afazeres, e não ouves o que tenho a dizer”?

A vida das mulheres era, no antigo Israel, bem próxima da escravidão, se consideramos a exclusão da vida pública. Não menos na Judeia contemporânea de Jesus. Seu papel era servir os homens. Em tempos remotos, filhas podiam ser vendidas como escravas. Mulheres menstruam, parem filhos, têm sangramentos naturais, conforme determinam seus corpos e organismos, era repugnante a um judeu ser tocado por uma mulher nestas condições. Para a religião isso é “impureza”. Sua desqualificação, pela forte imposição da religião, separava-as no templo e na sinagoga.

Cristãos ortodoxos e islâmicos, no Oriente, continuam com prescrições semelhantes até os dias de hoje. Segundo a lei judaica, mesmo diante do direito romano que o favorecia, o divórcio não lhes era facultado. Só as mães eram elogiadas. Noivas, desde a pré-adolescência, podiam ser repudiadas se desvirginadas ou apresentando gravidez. Mulheres estupradas, violentadas, mães solteiras, eram apedrejadas. Risco que correu a mãe de Jesus, não houvesse José aceitado ser seu “pai adotivo”. Jesus não acompanhou a cultura  autoritária e codificada de seu povo, nas prescrições do “halacah”, ou na “Torah”. Provavelmente, porque as prescrições sobre o “impuro”: bastardia, enfermidades, pessoas com deficiências deficiências físicas, em geral, também não estavam em sua relação de interesses, a não ser quanto à inclusão religiosa e social de tais pessoas.  Anunciou que elas eram preferenciais no Reino de Deus (Mt 27-36).

Maria, frente a Jesus, prefere ser uma mulher educada, cortês, “receber Jesus”, oferecendo hospitalidade no seu espaço interior, secreto. Na profundidade dos sentimentos, das percepções, e das sensações e anseios do coração. Espaço colocado para ouvir e refletir. Marta, porém, oferece coisas a Jesus. Maria se oferece para ouvir, pode ver e ouvir com o coração, quando se pode constatar a Grande Realidade salvadora, mesmo quando constatada em pequenos fatos e pequenas realidades (J-Y. Leloup). Quais são as demandas, as necessidades e os sonhos libertários que Marta não intuiu?

Talvez, Jesus, quisesse lhe dizer que a sociedade autoritária, seus valores, aspirações de poder e de mando, funcionava contra a vida. E que mitos sobre supremacias sexuais, raciais, econômicas, culturais, confirmam criações e afirmações sobre absolutismos, determinismos políticos e culturais tidos como irremovíveis, agregados às crenças na fatalidade e irreversibilidade do mal estrutural. Desigualdades impostas, com ingredientes de preconceitos, intolerância, hegemonia sobre indivíduos e classes, comparecem como excrescências acumuladas nas sociedades autoritárias. E, quem sabe, outras coisas mais, das criações humanas para justificar a exclusão, oprimir, estigmatizar, alijar e exterminar seres humanos. Jesus poderia dizer à amiga judia que a vida criada por Deus, entregue às criações humanas da ganância, de supremacia, de poder, era corroída por um interesse espúrio de dominar as pessoas em lugar de Deus, substituindo-o.

Segundo o julgamento de Jesus, Maria escolheu imediatamente “a melhor parte”, que é refletir e tomar conhecimento das realidades imediatas, um mundo e uma sociedade que necessitam de transformação, de justiça e de igualdade na partilha dos bens sociais e culturais. Há necessidades, além do que se exige da mulher: paixão, abraços, carícias, sorrisos; intimidade sexual, e coisas que dão prazer. Marta, desgraçadamente, não quer que nada falte ao importante hóspede, pretende dar tudo, e deixa passar inconsequentemente “a única coisa necessária”: ouvir as intenções de Deus (shemah Israel:” ouve, ó Israel, diante de ti coloco dois caminhos” – Deut 6,4).

Não se podem ocultar as causas que fazem indivíduos humanos sofrer, homens ou mulheres, além das pressões sociais. Fracassos, desequilíbrios, desajustes, como a violência, a luta por supremacia, e tantas mais, atuam contra os mesmos. Além das estruturas antagônicas do medo, do pavor diante da natureza, tempestades, furacões, terremotos. E a angústia sobre o mal abstrato na superstição, na magia religiosa, da submissão à fatalidade. O evangelho de Jesus expõe os males concretos no campo das realidades econômico-sociais: trabalho, moradia, saúde pública, fome e miséria, no elenco perverso que traz sofrimento.  Marta reclama de Jesus, e não sabe o que ele quer. O problema é precisamente este: descobrir pouco a pouco o que Jesus quer falar.  A palavra de Jesus é a Palavra de Deus!

Maria compreendeu que estas palavras, que aos olhos da eficiência codificada da lei religiosa pode parecer superficial e inútil, é “condicio sine qua”, condição fundamental para alguém chegar a ser autêntico discípulo de Jesus. “Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, não será julgado (por não ouvir), mas passou da morte para a vida” (João 5,24). “O que vimos e ouvimos isso vos anunciamos, para que vós também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo” (1João 1,3). Maria compreendeu. Que mais deve ser dito?

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