16º. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
Oséias 11,1-11 – Meu povo é obstinadamente apóstata
Salmo 107, 1-9 (40) –  Alguns extraviaram-se por desertos afora
Colossensses 3,1-11: Fazei morrer em vós os maus desejos
Lucas 12,13-21 –  Meu Pai entregou-lhes o reino como tesouro…

ganancia principalEntão Jesus lhes disse: “Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra todo tipo de ganância; a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens”. Por que razão viver submissos ou dependentes de outros, para nos manifestarmos, ou para tomarmos iniciativas cristãs em favor do Reino de Deus? Por que não viver sem nenhuma preocupação, vivendo de modo irresponsável para com os demais? Por que Jesus nos recorda que “à hora que menos esperam, virá o Filho do Homem”?

Calcada na ideia acertada de Nietsche sobre o poder, que poderia lembrar-nos os motivos anteriores, dos que preparam “o cerco das multidões”: trata-se do inato impulso em direção à posse, à supremacia, ao controle e mando, à competição e superioridade, em quaisquer situações. Estamos sitiados pelo dinheiro. Previu o mal-estar maior que a modernidade conheceria seria a exacerbação, o elogio da “ganância” por trás das tragédias, como a situação política da nação, nestes dias em que as ruas estão incendiadas, em manifestação e crítica direta aos governantes do país inteiro. 

A construção do painel vertiginoso da vida moderna, tomada pela ganância de poder, de ter, de dominar a vida e a morte, encontra na obra de Goethe “Fausto”, um parâmetro estarrecedor. E verdadeiro. Essa obra foi construída à luz de grandes turbulências políticas, como a revolução francesa, e a revolução industrial gerada na Gran Bretanha. A moderna democracia, assim como a industrialização capitalista, predatória, excludente, determina a vida das pessoas, especialmente no mundo ocidental. Temos no Fausto a síntese da ganância de poder e domínio sobre as riquezas deste mundo.

Fausto vendia ao diabo (Mefistófeles) sua alma, pela fortuna e pelo poder.   Mefistófeles trava com Fausto um debate sobre como sobreviver, onde a acumulação do capital, dos bens, explora fundamentalmente a mente gananciosa: “Entendamo-nos bem, não ponho a mira na posse do que o mundo apelida de gozos; o que eu quero é atordoar-me; quero a embriaguês de incomportáveis dores, a volúpia do ódio, o arroubo das mais altas aflições. Estou curado da sede de saber (…). As sensações todas da espécie humana em peso, quero-as dentro de mim; seus bens, seus males mais atrozes, mais íntimos, se entranhem aqui onde minha mente e vontade são aplacadas. Assim me torno eu próprio a humanidade e, se por fim a perder, me perderei com ela” (Marshal Bermann).

A característica fundamental do que se apresenta para os jovens de nosso tempo refere-se à ganância, agora ensinada como virtude na sociedade hipermoderna. A vida e a alma estão situadas nas coisas; a alma do mundo é o dinheiro e os bens acumulados. Mal que nos acompanha desde as sociedades arcaicas, ou primitivas. Sucesso é “ouro”, ser dono de tesouros e bens; ser portador de “credicard”, passaporte para a felicidade do consumo. Portanto, a desumanização da vida está em alta, e em baixa o espírito, valores que sustentam o corpo, a partir do cultivo da misericórdia; da compaixão e da solidariedade. O dinheiro é o coração do novo complexo de acumulação; capacidade de gerar falso bem-estar (juros) e energia, enquanto o corpo vai recebendo os influxos da civilização moderna em torno do capital (Norman O. Brown).

Quantos deixaram passar por suas vidas a grande oportunidade de ouvir a mensagem do Reino de Deus, de justiça para todos, e não são capazes de descobri-lo, pois seu coração está ocupado por outros desejos? “Onde está teu dinheiro, aí está o teu coração”, sugere o Evangelho… A expectativa de alcançar tesouros e bens é bem ilustrada na parábola rabínica: “Um homem descobre um cofre enterrado. Manda desenterrá-lo. Ao abrir o cofre, uma surpresa: dentro, ainda pulsando, estava seu coração…”. 

Aqui nos deparamos com o destino humano, pensando nos jovens, suas perspectivas abertas, horizontes infinitos, sem nos privarmos do esplendor da vida em todas as suas manifestações. A vida é um tesouro real e duradouro. Sonhamos com paraísos, igualdade entre homens e mulheres; construímos utopias sobre o bem-estar coletivo, habitação digna, saúde pública moralmente aceitável, escolas verdadeiras e humanizadas, pão em todas as mesas. Como os sons e as tonalidades do universo, podemos dizer que há um céu em nós, como há um sol, e estrelas; que não há um “eu” sozinho, mas muitos “eus” compartilhando a vida criada por Deus. Sempre em busca da plenitude.

Paraísos são sempre sonhados para serem realizados. Paraísos são a Esperança. Precisam ser vividos, necessitam ser magnificados. Gaston Bachelar recorre à poesia, poder da imaginação, porque um poeta imita Deus quando recorre à eficácia das belas imagens do mundo criado. Diria que “um belo poema, como o da Criação e do Universo inteiro (Salmo 19), não é mais que uma maravilhosa loucura retocada”. Só os poetas, e o próprio Deus, crêem que a beleza do mundo inteiro, como os seus mistérios, está nos olhos da criança recém-nascida. Que mundo e que humanidade a esperam. Os céus declaram a poesia de Deus, e o firmamento declama a obra das suas mãos.  

“Sim, e quantas vezes precisará um homem olhar para cima,/ Antes que ele possa ver o céu?/ Sim, e quantas orelhas precisará ter um homem,/ Antes que ele possa ouvir o lamento das pessoas?/ Sim, e quantas mortes ele causará, até saber/ Que tantas pessoas morreram?/ A resposta, meu amigo, está soprada no vento” (Blowin’ in the Wind, Bob Dylan). 

Derval Dasilio

 Livro em preparo: Pedagogia da Ganância

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