18º. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
Isaías 5,1-7 –  Deus amou Judá e Israel, um dia…
Salmo 80,1-2;8-19 – Quando gritavas sob opressão eu te libertei
Hebreus 11,29 -12,2 – Ninguém, no entanto, logrou a realização da promessa
Lucas 12,49-59 –  Como gostaria que a terra já estivesse incendiada

fogo sobre a terraLucas não quer complicar ainda mais a situação dos cristãos mediterrânicos que já estavam sendo perseguidos quando a primeira parte da sua obra fora escrita. Ele, simpaticamente, fala aos romanos ao dar a entender que eles ignoravam o que estava por trás de tudo, da realidade do governo imperial, das elites em torno do mesmo. Melhor é infiltrar do que confrontar-se com força cultural muitíssimo superior. Jesus fala a partir da experiência comum dos homens e das mulheres. Não, Jesus não é apenas um ativista que veio fazer uma revolução política, econômica e social. Fez muito mais que isso: subverteu os valores criados pela ideologia da ganância, abundância e desperdício; do poder, da riqueza e do prestígio, colocando em seu lugar os valores da fraternidade, compartilhamento dos bens, e da partilha que gera liberdade e vida para todos.

Avenidas, com financiamento público e proteção policial, têm sido ocupadas com paradas gays – e estes tão somente fazem uma farra massificada e divulgada na mídia, sem nada reivindicarem em direitos fundamentais para os demais grupos sociais. Acordo feito também com evangélicos pentecostais, amantes de uma estranha teologia da ganância (exibindo vantagens numéricas), que nada dizem dos problemas da cidade, nem falam de opressão política nas “marchas-com-jesus” que realizam. Controlados, bem comportados, absolutamente sem consequência, em ambos os casos, não houve — no espaço público que ocupavam — tensão entre a polícia e as multidões  esquecidas pela mídia no dia seguinte.

Questionado pelo público manifestante, sobre o que estava acontecendo na cidade, abusos nas privatizações referentes à mobilidade urbana, no entanto, o governo optou pela repressão, gás lacrimogênio, bombas de efeito moral, balas de borracha e cassete a torto e direito. Ao invés de proteger manifestantes, como fez nas manifestações anteriores, autorizadas, optou por reprimir, porque as reivindicações agora faziam sentido, impertinentes, perturbavam e até hoje incomodam os governantes. O movimento Occupy desencadeou, em Nova York, uma resposta policial muito feroz e realmente exagerada, pouco tempo atrás. Basta tentar participar de uma marcha, ou manifestação semelhante, para que haja 5 mil policiais em seu redor – e são bem agressivos (David Harvey).

Aqui, não sabemos quantos Jovens estão protestando contra a privatização dos bens da cidade, ao invés de reivindicarem um credicard, shopping centers fabulosos, complexos dedicados aos consumidores do luxo. Em minha cidade, a Assembleia Legislativa foi ocupada durante duas semanas, e desprezaram o gigantesco shopping à sua frente, fachada com fachada. Querem o espaço para se relacionar com os poderes políticos, mas com política nobre, para se reunir, para existirem como cidadãos, como fazem outros jovens em muitas cidades do planeta, e não querem que a casa legislativa seja um lugar de negociatas inconfessáveis; que defende interesses de corporações e de partidos sectários.

Hoje, as pessoas têm um instrumento próprio de informação, auto-organização e automobilização que não existia antes. Espaço cibernético. Se estavam descontentes, a única coisa que podiam fazer era ir diretamente para uma manifestação de massa organizada por partidos e sindicatos, que logo negociavam em nome das pessoas. Mas, agora, a capacidade é espontânea (Manuel Castells). Como negociar com uma massa independente e autodeterminante? Sem depender das organizações atreladas, de igrejas, de movimentos instituídos, pessoas se juntam para expor os problemas da cidade, dar visibilidade ao descontentamento, debater e intervir, ocupando o espaço público. Isso é política popular, brotando da sociedade indignada, crítica, insatisfeita, e não do autoritarismo tradicional.

Mas nos empolgamos com magistrados que julgam um “mensalão”, condenam políticos, enquanto “ensinam” como evadir divisas aplicando recursos pessoais em paraísos fiscais ou em mercado mais rentável, no exterior. O papa, porém, pergunta ao jovem, entre os que o ouvem num encontro mundial de 3 milhões de fieis, sobre  hipocrisia, política de baixa categoria; subserviência ao mercado, dos que não servem nem à justiça nem à população: “E você, jovem, o que está fazendo? Se não faz nada, grite!”.

A frase de Freud denuncia: “O estado proíbe ao indivíduo a prática de atos infratores, não que deseje aboli-los, mas porque quer monopolizá-los”.  O modelo de sociedade autoritária se exaure, dissolvido numa força que aparece quando governantes abdicam da justiça, da nobreza da ética, dos valores, da alta política. Aquela nobreza voltada para os direitos cidadãos, o direito à dignidade, vida com qualidade repartida igualitariamente. A razão principal da gente comum, nas manifestações, é a insegurança geral, expressa com mais evidência na saúde e na educação.

Nenhum ser humano vive sozinho, afastado dos interesses da grande comunidade humana. Pertence a famílias, grupos, entidades religiosas ou não, sociedades, e à própria condição planetária do ser. A sobrevivência do indivíduo está relacionada á sua identidade, ao ambiente cultural onde vive, ao equilíbrio nas relações uns com os outros, ao uso que os poderes governantes fazem dos mandatos políticos. Nesse caso, a solidariedade chama cada um a interpretar o espaço em que todos nos encontramos. Isso é política popular.

O Evangelho é intransigente em face da opressão econômica e quanto à exigência ética do cristianismo, mas, para fazê-la prevalecer, não se nega ao diálogo cultural e político, a fim de canalizar para o Bem a força histórica do Mal. Sugere como Paulo Freire, que “a melhor forma de amar os opressores é tirar das mãos deles as estruturas da opressão”. Para os seguidores de Cristo e suas comunidades era importante não dar murro em ponta de faca. “Hipócritas, vocês sabem reconhecer os aspectos da terra e do céu (realidades terrenas), e não sabem interpretar a conjuntura presente?” Lucas fala de espíritos pervertidos (cf. 6,42), literalmente, hipócritas desse tempo, o tempo de Jesus. Tempo de salvação, que é fácil de ser reconhecido, pois os sinais são claros (Lc 7,22; 11,20). Saibamos reconhecê-los.

Derval Dasilio

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