“O futuro me preocupa, porque é o lugar onde pretendo passar o resto de minha vida” (Woody Allen).

A parábola está presente dentro de uma unidade literária (Lucas 16,19-31). O contraste é grande e impressionante: de um lado luxo e festas diárias e, de outro, úlcera e dependência humilhante. LázaroUtilizar esta mensagem bíblica como uma paráfrase do Inferno, de Dante, e dos horríveis fantasmas utilizados para escravizar consciências, e legitimar um poder religioso,  é um equívoco. Contradições  quanto à própria liberdade concedida aos homens de escolher seus caminhos. Uma parábola reflete o tempo dos homens e das mulheres, e esta não foge à regra.

Deus não está na parábola, e sim o pai Abraão, fundador da fé do chamado povo de Deus. O assunto, aqui, é a ausência de solidariedade, cuidado, misericórdia num mundo sem compaixão. O inferno de sempre. Um mínimo de senso realista nos remeterá aos corações humanos e suas complexidades. Como dizia Sartre, “o inferno são os outros”.

Trata do assunto de sempre, inspirando revolta pela indiferença e pelo narcisismo e da inveja. O desgaste na sedução da prosperidade inútil e infrutífera, considerada um ideal social de sedução permanente, influenciando individualismos e usufruto da riqueza sem responsabilidade social. Ou ausência de cuidado existencial pelo outro.

Paráfrase: “Havia um homem rico que gostava de exibir sua riqueza e luxos aos outros (Lucas 16,19-31). Sabia que seus amigos eram invejosos e gananciosos, e por isso os convidava para festas e banquetes suntuosos, em desperdício capaz de alimentar muitas famílias; oportunidade para a cobiça – gozos da riqueza –, mesa farta, bebidas, bajuladores refestelados em luxo, e climatização perfeita. O rico experimenta o lazer caro, as festas, a exuberância dos bens disponíveis, das roupas caras, e os convidados parasitários, enquanto invejosos aproveitavam o que lhes era oferecido do bom e do melhor. E Lázaro come com os cães o que cai da mesa.

A casa do rico era como a mansão de Sodoma, a cidade do pecado (Gn 19,24-25). Ele goza dos bens da vida opulenta, caros planos de saúde, medicina de ponta ao dispor, educação sofisticada para seus filhos, lazer e conforto; carros importados, serviçais para todos os fins domésticos, e pode viajar para qualquer paraíso fiscal, para acrescentar à sua fortuna protegida de impostos nacionais. Era pra satisfazer um economista da União Europeia, hospeda-se em hotéis cinco estrelas ‘A’, cercados por favelas na avenida Niemeyer, em busca de prazeres na noite carioca; acha o país dos ‘centavos do real’ maravilhoso*. Um cronista, como Chico Buarque, descreve-os:

No baticum lá na beira do mar / Aquela noite / Tinha do bom e do melhor / Só tô lhe contando que é pra lhe dar água na boca / […] Foi a GE quem iluminou / E a Macintosh entrou com o vatapá /[…] O Carrefour, digo, o baticum / Da Benetton, da beira do mar / Enquanto isso come do bom e do melhor.

Não lhes importava o gozo da riqueza sem justiça, sem partilha, sem compaixão. Nada de socorrer o pobre (Dt 15,1-11); o sofrimento dos desgraçados, os que passam fome; que não têm casa, nem eira nem beira; que não têm saúde, desnutridos que morrem como moscas nos bolsões de miséria; os atormentados pela miséria não são convidados aos banquetes, à mesa farta, aos bons vinhos e comidas finas.

Enquanto isso, Lázaro sofre, não há virtudes em sua pobreza. Suas chagas são lambidas pelos cães. Lázaro experimenta os tormentos da vida e da miséria, veste andrajos, e disputa comida com os cães sem dono. Um dia os dois morrem. O céu e o inferno fazem parte do enredo, que pode ser levado à Marquês do Sapucaí durante o Carnaval, e o gozo lhe é reservado, mas como recompensa pelo sofrimento da fome, do corpo ferido e lambido por animais de rua.

Inversamente, o rico experimentará o mesmo inferno de quem comia as migalhas que sobravam de seus banquetes. Este não tem nome, não têm existência nem dignidade. Esgotados os usufrutos da riqueza, nada mais lhe restou, senão o desespero da vida sem sentido. Não há razões para viver, instalou-se o desespero, as cenas do drama existencial passam a fazer parte de seu cotidiano; os atores têm as máscaras do sofrimento, alguns se atiram de edifícios altos, de pontes, em mares bravios, ou se jogam com seus carros em despenhadeiros mortais, buscando alívio”.

Porém, o pobre faminto, doente e miserável, chama-se Lázaro, que quer dizer: “aquele que é amparado por Deus”. Deus se lembra do pobre, do sofredor, do que tem a dignidade roubada. Lázaro despertará para eternidade, gozará da chegada ao Reino, das bem-aventuranças, da justiça, e da igualdade, os bens junto aos amigos de Deus. Novos horizontes para a vida, a conquista da esperança definitiva. A aura da serenidade envolve o bem-aventurado nos braços do Pai. Ainda há tormentos? Sim, mas a confiança na Graça (misericórdia = hesed), na realização das promessas de salvação, permite vislumbrar as ressurreições, a eternidade da vida com Deus que começa agora. Deus conduzirá seu barco pelos mares bravios, e o levará ao porto seguro.

Derval Dasilio

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Nota: * As fortunas dos três mais ricos do mundo são superiores ao PIB de 48 países. No planeta em que vivemos 25 mil pessoas morrem de inanição todos os dias, e 16 mil crianças de subnutrição. Passam fome, 852 milhões. Dos 7 bilhões do planeta, 5% ganham 114 vezes mais do que os mais pobres (2 bilhões). Há 64 favelas no Rio, e 20 a 25 pessoas morrem por dia de forma violenta, nem merecem uma menção destacada no noticiário. É um drama dantesco (inferno?). Das 20 cidades mais desiguais do mundo, 5 são brasileiras (Goiânia, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília e Curitiba). Mais de 10 milhões de brasileiros, de 39 milhões de miseráveis, vivem com menos de 39 reais por mês (Eduardo Hoonaert).  

LEITURAS – 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES Jeremias 32,1-3a, 6-15 – Direito ao resgate do melhor da fé …
Salmo 91,1-6;e 14-16 – Não compreendem que estão sendo imbecilizados
1Timóteo 6,6-19 – Devia ser crime tirar a esperança dos jovens
Lucas 16,19-31 – No Reino de Deus, os miseráveis têm dignidade…

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