AUMENTA A NOSSA FÉ, SENHOR

Lucas 17,5-10 –  Aumenta a nossa fé, Senhor!

Deus quer justiça? Quer dignidade para homens e mulheres? Quer pontes sobre os abismos sociais para eliminar as desigualdades? Servir a Deus é compartilhar do seu querer. Quem ainda não descobriu isso, ainda não conhece o Deus verdadeiro,porque ele é a fonte da liberdade e da vida plena, inteira, sem que nada falte àqueles de quem Deus está cuidando de suprir. Servir a Deus é encontrar essa liberdade e vida que tanto procuramos. E isso mereceria um prêmio especial? Nem Deus, que tudo faz, exige retribuição à graça que concede (Ivo Storniolo).

O cristianismo não é religião do livro em primeiro lugar e sim religião do testemunho! Se usarmos o conceito de “fé bíblica”, deveremos ter o cuidado de dizer de que fé falamos. A parábola pode chocar, parece justificar a escravidão. Mas Jesus não pretende isso. Ele quer apenas usar um fato da vida,para mostrar que cristãos são servos de Deus, e que o serviço a Deus não deve ser concebido como fonte de méritos: “o cristão faz o que deve fazer,sem esperar retribuição ou prosperidade”… Como digerir isso? Basta lembrarmos de que servir à vontade de Deus não é ir contra a vontade nossa,pois a vontade de Deus é a nossa vontade mais profunda. Em outras palavras,servir ao que Deus quer é servir ao que nós mesmos queremos.

Os apóstolos fazem um pedido muito importante: “aumenta a nossa fé”!  Isso porque a comunidade se reúne “graças a uma fé”, porque a solidariedade, a compaixão, a misericórdia, são um milagre num mundo egoísta, pragmático, materialista. A fé bíblica é a polarização, o outro extremo da confiança em elementos matriciais para todas as coisas; é diferente da confiança em que a vida se organiza e reorganiza por determinismos da matéria, elementos, vácuos quânticos, através de fenômenos naturais. Assim, para defenderem-se, as comunidades fechadas dispensam as demais, pela passividade assumida; ingressam no realismo materialista que impõe a indiferença, e evitam consciência e compromisso com as demais parcelas do universo e das comunidades humanas.  

“Nos últimos tempos, tenho me interessado por outra virtude, a confiança, essa, tão difícil quanto a coragem, uma vez tomada a alma pelo niilismo e pela tragédia.É sobre ela que quero falar, acompanhado da monotonia do dia a dia que recomeça imerso num sono que nunca descansa, porque sempre atormentado pela dúvida com relação ao amor, à família, ao trabalho e à viabilidade do futuro. […] Amar cães e confiar neles é mais fácil do que amar seres humanos e confiar neles.Por isso, num mundo atormentado pela dúvida niilista, ainda que em constante de negação dela, tanta gente se lança à defesa melosa de cães e gatos e exige carne de frangos felizes na hora de comer em restaurantes ridículos” (L.F. Pondé).

Lidando com a teologia, somos obrigados a conceituar a fé, e perguntamos: – De que fé falamos? Para quê serve a fé? Mas do quê está falando Lucas? A que fé se refere, quando coloca na boca dos apóstolos a expressão: …aumenta a nossa fé…? Certamente é o discurso confessional da Igreja inicial, igreja dos apóstolos. Atos prolonga a pregação sobre o Reino de Deus, como está implícito em todo o evangelho. Não há salvação fora da invocação de Jesus como Senhor. Somente aceitando a Jesus como Senhor é que os homens podem salvar-se. A fé constitui-se como kérygma da comunidade que se forma em torno da mensagem de Jesus e do testemunho dos apóstolos (At 2,14-41).

A fé nos ajudará, após séculos de cultura materialista, a buscar a simplicidade sólida no reconhecimento do mistério do universo e do ser humano (Leonardo Boff), na responsabilidade para com os demais; na solidariedade, compaixão, misericórdia, cuidado; no valor de cada coisa feita para servir ao outro e a outra; na diaconia amorosa, no trabalho realizado com esmero, na competência exercida para se encontrar soluções mais adequadas aos problemas do cotidiano, nas intenções transparentes de gratuidade para com o irmão e a irmã. 

A  fé significa compromisso com o programa de Deus, plenamente realizado na palavra e na ação de Jesus. Deus quer salvar o mundo. Como aumentar um compromisso? Trata-se de um patrão sem recursos, o sujeito da parábola, pois tem um só empregado. Quem é que vai servir? Ele ou o empregado? É claro que o empregado. Precisa o patrão agradecer ao empregado pelo serviço? Claro que não, pois o empregado fez o que devia fazer, e nada mais.

Não se planta uma árvore, no mar. A fé também não é uma coisa a ser quantificada para mais ou para menos. É uma relação de confiança com o que Deus faz através de Jesus. É abertura à energia de Deus: “arranca-te daí e planta-te no mar”. Então,a confiança nessa energia realiza as coisas além da expectativa normal.

Crescerá a expectativa da corresponsabilidade com homens e mulheres do planeta; a luta por direitos humanos, sociais e culturais; contra a fome e a desnutrição; contra o racismo; contra a homofobia; contra a violência intra-familiar; contra o abandono do jovem ou do idoso, do deficiente ou  do portador de doença sexualmente transmissível. Crescerá a compreensão e a tolerância nas diversidades de culturas, de linguagens, e de tradições diferentes das nossas. A semente da fé nos levará à aventura histórica que sacudirá o planeta, permitindo visibilidade para o projeto do Reino, anunciado por Jesus.

Derval Dasilio

26º. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
Lamentações 1,1-6 – Sem fé, estavam como animais sem pasto
Salmo 137 – Nos caminhos das angústias a fé faz-me viver
2Timóteo 1,1-14 – Tenho a graça de servir a Deus
Lucas 17,5-10 – Senhor, aumenta a nossa fé!

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