O PAÍS DAS VIÚVAS

JUIZ-INIQUO-150x150Coisas do Brasil, lugar mais afeito a pizzas que feijoadas. Uma pena, porque linguiça e paio, lombo defumado de porco, rabada, tutu, bolo de fubá, violão, pandeiro, tamborim, réco-réco, marcariam bem melhor o lugar onde se   comemorariam as vitórias contra a corrupção. No balaio da justiça, porém, acompanham a tendência nefanda: “toma lá dá cá”; “e a cervejinha, cadê?”; “farinha pouca, o pirão é meu”; “amarrar cachorro com linguiça”; “jogo de cabresto”, “boca de siri”, lembraríamos as canções de Aldir Blanc. O Brasil está na 69ª posição entre os países mais corruptos, crescendo, no ranking mundial. Na América Latina, os brasileiros ficam atrás apenas dos chilenos e uruguaios, que estão no 20º lugar.  Foi o que revelou a Transparência Internacional.

Quando cristãos, judeus, muçulmanos, em suas orações pedem o silêncio de Deus nos genocídios que intentam, esperam que Deus intervenha neste mundo de desordem e injustiça legalizada? E ainda nem citamos que dois, dos 7 bilhões de habitantes deste planeta, vivem em permanente estado de miséria, fome, sujeitos a toda forma de atrocidades, abandono, em omissão incompreensível. Como compreender nosso papel, como cristãos, num mundo onde se desmoronam valores relacionais, éticos, para vivermos uma vida sob os imperativos de Deus? Não nos damos conta da realidade esmagadora da insensibilidade, e da omissão? Ainda há cristãos indignados com a injustiça? 

A zona cinzenta onde atua a justiça humana parece preferir o atendimento das camadas mais altas da sociedade, com recursos para pagar a justiça cara e espetaculosa em nosso país, longe dos “lugares onde confluem os afluentes da miséria humana” (Queiruga). A angústia cega diante das catástrofes, deslizamento de morros favelados; a dor da mãe da criança desnutrida que morre em seus braços; o desamparo da mulher abusada; o desespero dos pais que veem o filho que volta do trabalho morrer porque se recusou a entregar um celular; o choro intenso da comunidade nacional, porque um trabalhador foi sequestrado, torturado e morto pela polícia, não comove os magistrados que lidam ocasionalmente com a corrupção.

Basta lembrar o esboço de pregação sobre o reino de Deus (Lucas 4,18-21), e as consequências desse manifesto de Jesus a respeito dos oprimidos em todos os níveis; nos famintos da terra – mais de 1 bilhão de homens mulheres e crianças –, que comerão até fartar-se; “prisioneiros” por motivo de consciência ou de religião; inocentes sequestrados. Viúvas são o símbolo dos encurvados a estas realidades.

Das histórias mais conhecidas sobre viúvas é o relato bíblico de Rute e sua sogra, Noemi. Ambas eram viúvas. Visto que viviam numa sociedade que dependia dos homens, a situação delas era trágica, porque a mulher é sempre escrava da família, em Israel (Rt 1,1-5). “Quando vocês estiverem fazendo a colheita de sua lavoura e deixarem um feixe de trigo para trás, não voltem para apanhá-lo. Deixem-no para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva, para que o Senhor, o seu Deus, os abençoe em todo o trabalho das suas mãos” (Dt 24,19). “Trate adequadamente as viúvas que são realmente necessitadas. Mas, se uma viúva tem filhos ou netos, que estes aprendam primeiramente a pôr a sua religião ética em prática. […] A viúva realmente necessitada e desamparada põe sua esperança em Deus, e persiste dia e noite em oração e em súplica” (1Tm 5,3-7).

Exilados, imigrantes perseguidos nos países do primeiro mundo; lembra as viúvas e  os órfãos, símbolo dos esquecidos, despojados, sem trabalho, sem sustento… o Reino que Jesus anunciou trouxe esperança para dentro da caminhada humana e entregou-a aos pobres, despossuídos, alijados do mundo produtivo e do mercado mundial (Lc 6,20; Mt 5,1-12).

Não podemos esquecer a atitude de Jesus contra os poderosos, ensinando a não confiar neles. Feliz quem se apóia nesse Deus! Os perversos referem-se a ele, também, para justificar a injustiça que cometem, mas é ele mesmo, Deus de Israel, que aponta os meios para enfrentar a injustiça sem se submeter às imposições da  justiça corrompida. A mulher está numa situação desesperadora. É uma viúva que tem que lutar sozinha por seus direitos; que não tem amigos poderosos que intercedam por ela. Mas ela tem algo que jamais pode faltar à fé cristã: perseverança, teimosia, garra (Carlos Calvani).

Há muitas leis no AT referentes às viúvas (Lc 18,1-8). O personagem questionado é o juiz magistrado corrompido, que diz não temer a Deus nem respeitar homens fracos e sem força institucional que os proteja. O poder embriagante o envolve de tal modo que ele se instalava acima de todo direito e de toda justiça. Na literatura profética há várias acusações contra juízes e pastores que sempre favoreciam aqueles que podiam pagar-lhes propinas ou comprar sentenças (Ez 34,7-8). Nada muito diferente do que vemos até hoje – o poder financeiro determinando o poder judiciário.

A viúva representa aqueles que só têm a Deus por legítimo juiz guardião. É um símbolo típico dos impotentes, dos oprimidos, dos desabrigados e desamparados. Especialmente pelo sistema judiciário. Aqui, vemos uma viúva que, conhecendo seus direitos legais, os quais estavam sendo violados, espera que um juiz a atenda. Ela não está pedindo absurdos. Apenas quer justiça e o que é seu, de direito.  Dignidade e cidadania!  

Derval Dasilio

Leituras:

28º. Domingo do Tempo Comum depois de Pentecostes
Jeremias 31,27-34 – Virá o dia: porei minha lei no coração humano
Salmo 119,97-104 – Como amo a tua Lei, medito sobre ela dia e noite
2Timóteo 3,14- 4,5 – A Escritura é útil para educar na justiça
Lucas 18,1-8 – Incomodem os que podem julgar!

 

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