O FIM DE UMA ERA É O COMEÇO DO NOVO  

 

IGREJA URGENTE imagem_nHoje estamos num momento de mudança na história. Não são poucos os   analistas que crêem que estamos na presença de uma metamorfose da religião, acompanhando as profundas mudanças no mundo pós-industrial. Algo termina (um Templo está se desmoronando… uma religião está se desintegrando…), e algo está nascendo (uma nova resposta religiosa das igrejas?).

 

Quem dirá que em matéria de religião (ou de religiões) não pode haver mais nada de novo debaixo do sol? Quem dirá que novas gerações não têm direito de criar uma nova tradição religiosa, em torno da unidade que proponha um mundo transformado pela presença do Reino de Deus? Quem pode garantir, noutro extremo, que não se está criando essa nova tradição desviante nos incontáveis movimentos religiosos que brotaram nas últimas décadas? Quem afirmaria hoje que Jesus queria fundar exatamente o que logo se construiu sobre seu testemunho, e que não seria ele uma nova fundação ou refundição do futuro? E, por demais impressionante que pareça, quem não vê a igreja se apresentando em oposição ao Reino de Deus?

 

Mais de 82% da população brasileira vive em cidades. Algumas das metrópoles chegam a alcançar 91%, se não mais (pensemos nas cidades satélites da região metropolitana de S.Paulo, p.ex.). Imaginemos igrejas atuando na sociedade onde se inserem (e dela fazem parte!), discipulando e preparando fieis para a vida urbana, denunciando a presença constante da fome; a ausência da saúde pública, da escola, do trabalho solidário; denunciando a corrupção, os desmandos nos setores públicos, e reivindicando políticas públicas eficientes no atendimento da população coletiva… Paul Tillich falava da igreja concreta como “comunidades de testemunho” do Reino de Deus.

 

Jesus disse algo que eles não esperavam: o templo, centro referencial da religião, é admirável pela sua enormidade e beleza? Pois, assim como o vêm, “não ficará pedra sobre pedra”, tudo será destruído, até os alicerces ruirão. Imagem do sistema injusto, da religião, da economia e política alicerçadas na exploração dos mais fracos, e na cooptação dos bem-postos. Jesus fazia o diagnóstico terrível da religião, da sociedade gananciosa, e da cultura intolerante, preconceituosa, atrelada ao fatalismo reinante, que justificava a ação de Jesus.

                    

Dessa maneira Jesus deixou pelo menos três lições: perante os conflitos sociais, desigualdades econômicas, políticas e religiosas: é preciso viver em atitude de discernimento dos sinais que nele encontramos, para agir frente ao desconhecido, e ter certeza de que a vinda do Reino de Deus levará a história à plenitude. Há uma zona de obscuridade na vida humana, uma área sem luz no lugar onde a vida se debate; pelo medo de castigos e punições; pelo medo que se instala no âmago quase inatingível pelas ciências da mente (Paulo César Pinheiro), uma escuridão  imobiliza o ser humano religioso.

 

Um paradoxo leva a religião a construir muralhas em torno do “templo”, não permitindo a visão da realidade para transformá-la, instilando uma consciência negativa sobre possibilidades novas, um futuro libertado. A história do “templo” –      que seria um refúgio – escamoteia a miséria do mundo, examinada superficialmente, evitando-se os caminhos subterrâneos da alma. Como é também a história dos quarteirões dos pobres, os guetos da pobreza, nas grandes cidades do mundo desenvolvido (Emmanuel Lévinas).

 

Karl Barth lembrava que o ser humano usualmente é descrito como um pecador, mas disse também que a Igreja é vulnerável, porque é também humana e pecadora, em sua expressão religiosa. Isto se vê especialmente nas igrejas que viraram as costas para Deus e suas intenções de salvação e transformação do homem e da sociedade (Is 65,17-25); as igrejas encontram-se agora numa espécie de cegueira burocrática (Brakemeier), ou por um pragmatismo ganancioso, em busca de poder político e econômico-financeiro. Por si mesmo, o homem não possui a capacidade de conhecer a Deus, por falta de esforço discipulador da fé. O conhecimento de Deus é uma dádivaa ser transmitida e recebida pela fé em Cristo.

 

Entretanto, diria Jesus, isso não iria acontecer sem perseguição, sofrimento e morte (os mártires de então são os mártires de agora: Luther King, Monsenhor Romero, Jaime Wright, Paulo Evaristo Arns, e muitos outros; a palavra vem martyria = testemunha da fé). O Evangelho sugere que Jesus lhes disse: “não se confundam, e ponham cada coisa em seu lugar. Uma coisa é o que vai acontecer com o povo eleito, e com vocês, em relação aos chefes religiosos. Outra coisa muito distinta é o final da história. “Diante isto vocês terão que ver a maneira de agir no presente”. O fim do Templo não coincidiria com o fim da história… o fim não é nada mais do que o começo do novo (krisis). É o ensinamento de Jesus sobre a crise religiosa.

 

Derval Dasilio 

33º DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
Isaías 65,17-25 – Pois eu que eu criei um novo céu e uma nova terra
Isaías 12 – Senhor, ainda bem que não te iraste contra nós
2Tessalonicenses 3,6-13 – Não  coma o que é da comunidade
Lucas 21,5-19 – Não ficará pedra sobre pedra…

 

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