Gravura de Cerezo Barredo. Conferir "Pedagogia da Ganância"

Gravura   Cerezo Barredo

O senhorio de Cristo é libertador de toda forma de opressão e submissão. Desde a liberdade de espírito, que devolve à filiação divina obscurecida por nossos medos, fragilidades e pecados, à liberdade para a verdadeira unidade dos cristãos. Cristo Rei é, pois, o anti-rei aos olhos do “mundo”. É incrível que seja também anti-rei na Igreja. É o Cordeiro degolado (Ap 5,12) que nos reconcilia com Deus e nos leva, não de regresso ao Paraíso Perdido, às utopias negativas sobre o julgamento e a destruição do mundo, mas à utopia da esperança na Nova Jerusalém, do “novo céu e uma nova terra”, na qual não haverá joelhos dobrados, como se exige, às realezas deste mundo.

Dentro da Igreja, nos esforçamos por reproduzir os modelos de “reinado” do mundo, e não os do reino de Deus em Jesus Cristo! Quantas vezes estabelecemos relações de poder autoritárias ao invés de fraternas! Quantas vezes entramos em concordância com os poderes dos sistemas religião, política, economia, enquanto agimos contrariamente — ou quando nos omitimos — sobre a pregação da justiça! O modelo de “reinado” que o “Cordeiro degolado que tira o pecado do mundo” nos apresenta,  interpela e chama a mudar de rumo.

   De que maneira se beneficiaram da organização do “absolutismo” hobbesiano (“o poder absoluto do Estado e necessário, por causa do egoísmo intrínseco ao homem”), ou maquiavélico (o fim justifica os meios), e pelo humanismo de J-J. Rousseau. Apesar dessa importância, os principais teóricos do absolutismo se utilizariam do discurso racional, de origem renascentista. Machiavelli, mais cedo, defende a utilização de todos os meios ao alcance dos governantes para a centralização do poder; Thomas Hobbes defende o absolutismo necessário para a organização social, o Estado acima da defesa do interesse do indivíduo e da sociedade. Para J-J Rousseau a função do Estado, noutro rumo, é garantir a sobrevivência contra a anarquia e manter a ordem social. Quando falham outras formas aparecem os Estados paralelos. Mas Rousseau trataria também da importância da família e da educação como base de uma sociedade organizada no sentido da dignidade social e humana.

   À luz da liturgia com o tema “Cristo, o Rei do Universo”, e do modelo de relações existentes refletimos sobre nossas atitudes nos diversos âmbitos em que nos movemos, perguntamos: como são as relações de poder em nossa casa? Baseiam-se na domina-ção/subserviência, ou na promoção da mútua liberdade responsável entre os familiares? Como são as relações de poder na família? Valemo-nos  da autoridade para impor uma certa maneira de exercer autoridade? Justificamos, em nome da “autoridade”, abusos de poder, maltrato físico ou verbal, quando protagonistas da violência comum em tantos lares, contra a mulher e a criança? As relações entre os membros da igreja comunitária concreta seguem o modelo cristão ou seguem o modelo autoritário, repressivo, impositivo, excludente, próprio do “príncipe deste mundo”?

   Erich Fromm (Medo à Liberdade) expõe que “frente a angústia que produz no ser humano a consciência de estar separado do resto da criação, adotamos duas atitudes igualmente patológicas: dominar os outros, ou aceitar depender de alguém, entregando-lhe nossa liberdade. Em ambos os casos, as pessoas buscam, através destes mecanismos, dissolver a barreira que as separa do resto do universo”.     

   O pecado fundamental do ser humano é, pois, um pecado de “poder mal administrado”, mal assumido. E esta é a origem de todos os outros pecados: a avareza, a ganância, que conduzem a uma ordem econômica injusta; a soberba, que impede ver com clareza erros e pecados; a mentira, que  leva a manipular ou a deixarmos manipular; o sexo utilizado como instrumento de poder, para “possuir”, oprimir; o medo, que impede de levantar-nos e caminhar com nossos próprios pés.

   Convém recordar em que consistiam as esperanças messiânicas do povo judeu no tempo de Jesus: uns esperavam um novo rei, ao estilo de Davi e sua dinastia. Outros, um chefe militar que fosse capaz de derrotar o poderio romano; e outros como um novo Sumo Sacerdote que purificaria o Templo (cf. a revolução dos Macabeus). Nestes três casos se esperava um messias, cristo triunfante, poderoso, atuando na política, na economia e na religião.

   Poderíamos dizer que Jesus é o anti-rei segundo os modelos dos sistemas opressores: ele não quer dominar as demais pessoas. Pelo contrário, quer promover, convocar, “suscitar o poder” (energia) de cada ser humano, de modo que cada um assuma responsavelmente o peso e a alegria da liberdade. Jesus não recorre à violência de nenhum tipo, nem sequer à violência divina. Não recorre ao Deus dos Exércitos e suas milícias celestiais – não há nenhuma batalha espiritual em jogo, em éons superiores –, pois isso seria perpetuar as regras do jogo do “príncipe deste mundo” (Jo 12,31), o dono de “todos os reinos deste mundo e sua glória”. E por isso, pode dá-los a quem quiser (Lc 4,6: dou-te autoridade (exousia) sobre quem eu quiser, disse o diabo…).

   Na cruz Jesus derrota e substitui total e radicalmente o demônio do poder concebido como violência e pressão por uma parte e como dependência, submissão e alienação, por outra dependência (Leonardo Boff). Jesus se recusa a ser coroado rei ao estilo do “mundo político” logo após a multiplicação dos pães e dos peixes (Jo 6,15). A tentação do poder, entendido no estilo dos sistemas opressores persegue Jesus. E desde o deserto até a cruz Jesus rechaça este modelo denunciando-o com toda clareza: o poder procede do diabo, pertence ao “príncipe deste mundo”. Jesus não cai em suas armadilhas.

   Perguntado sobre o lugar onde pode ser encontrado (esperavam que confirmasse seu poder e autoridade entre reis, príncipes e imperadores), Jesus responde: “quando estou entre mendigos, e estou nú; quando tenho fome e sede; quando sou exilado, desamparado, explorado; quando estou preso, vítima da corrupção da política e da justiça” (Mateus 25). O custo desta resistência não só valente, mas lúcida, é a morte. Mas as ressurreições sucedem o martírio.

Derval Dasilio

                                                                                                                                        Último Domingo depois de Pentecostes do Ano “C”

Leituras:

Jeremias 6,1-6;2Samuel 5,1-3 – Ungiram Davi como rei de Israel

Salmo 122,1-5 – Na casa, está entronizada a justiça de Deus!

Colossenses 1, 11-20 – Recebeu-nos no reino de seu Filho

Lucas 23, 35-43 – Senhor, lembra-te de mim, no teu reinado…

 

 

 

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