A1 – Textos da Conferência do Nordeste – 1962

A Igreja e a sua responsabilidade social Pastor Ernest Schilieper)

Publicado no blog METODISTAS ECUMÊNICOS

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Não é minha intenção apresentar um estudo completo sobre a Igreja e a sua responsabilidade social. Quero examinar o assunto apenas sob o aspecto que considero essencial: Qual é o significado da palavra “e”? Ou então: Qual é a relação entre Igreja e responsabilidade social? Ou por que e em que sentido a Igreja é responsável pela sociedade?

A sociedade a que nos referimos é a sociedade humana, é o homem em seu convívio com os outros homens. A Igreja não pode desinteressar-se pelos homens porque é a Igreja daquele que por amor se tornou irmão de todos os homens; a Igreja é responsável e isso quer dizer, ela é chamada a responder e a corresponder em toda a sua atuação, a esse determinado fato que é o fato central do Evangelho: a encarnação de Deus. Deus se tornou homem – e deste fato emana a responsabilidade da Igreja pelo homem, pelo homem em todas as relações de sua existência.

Deus se tornou homem, isto não é um argumento ideológico, mas fato da história de Jesus Cristo, que não veio para ser servido, mas para servir; não para condenar, mas para procurar e salvar o que estava perdido. Essa história da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo é fonte, fundamento e único critério de toda a atuação da Igreja. E a sua responsabilidade social só pode ser a resposta a esse fato, reposta em atos concretos na situação em que se encontra.

Deus se tornou homem e isto confere à pessoa humana uma dignidade incomparável. E se é meu Senhor que veio para servir e ajudar, a minha resposta só poderá consistir na minha responsabilidade pelo homem que está ao meu lado e por sua existência toda. Assim o amor de Deus é a carta de autorização da responsabilidade social da Igreja.

E por essa mesma razão a Igreja é impedida de gloriar-se perante o Senhor ou perante o mundo de sua atuação; é-lhe vedado, igualmente, menosprezar o que é feito neste terreno por outros. Também o Estado tem o seu mandato de Deus, e é sua tarefa favorecer o bem e impedir o mal, estabelecer as normas de vida humana, por meio da lei e do poder. É ao Estado que compete essa tarefa. Mas, por isso, a Igreja não deixa de ser responsável. Os teus meios, contudo são outros. Ela atua essencialmente por meio da Palavra, a Palavra pregada, a qual tem a promessa de não voltar vazia, mas de fazer e executar aquilo para o que foi enviada… A situação social da Igreja só será legítima, e não intromissão em terreno alheio, se for a resposta daqueles que ouviram a Palavra, resposta por meio da qual testemunham perante o mundo, em atos concretos e visíveis, o que lhes foi dado em Cristo. Cristo morreu não só por mim, mas pelo outro, por todos. Por isso o outro nunca será apenas objeto de nossa caridade; ao qual por piedade damos um pouco do muito que nos foi confiado. O outro só nos pode ser homem – irmão! – pelo qual Cristo deu a sua vida.

Deus, em seu amor, não esperou até que os homens se chegassem a Ele; mas na sua condescendência veio a nós, para procurar-nos aqui, onde realmente temos a nossa existência. A Igreja, que por obediência quer realmente servir aos homens, não poderá permanecer imóvel no seu lugar, encerrada em si mesma, como um recinto de portas fechadas; é seu dever corresponder à ação divina procurando também ela os homens ali onde realmente se encontram; por isso deve sempre estar aberta para novos caminhos e formas não usadas nem previstas em suas tradições. E dessa sua incumbência de procurar o homem, ela só pode desempenhar-se num espírito de solidariedade integral. Solidariedade que não provém de uma simpatia natural, mas do saber: este outro é meu irmão. Deus sempre nos procura pelo irmão, e isso quer dizer: em primeiro lugar pelo irmão que sofre que é oprimido e subjugado, e do qual Cristo disse: o que fizestes a um destes seus irmãos mais pequeninos, a mim é que o fizestes. Este tipo de solidariedade cristã não pode limitar-se a uma esfera privada, não é com a Caritas de homem para homem que é cumprido o grande mandamento. Esse mandamento exige a nossa atuação responsável também no terreno da ordem política e social. A Igreja não pregará a revolução como meio para conseguir uma nova ordem de justiça social – ela sabe que Cristo não seria seu aliado na revolução, mas, nem tão pouco, a Igreja resignará perante a realidade existente, mas examinará todas as possibilidades de melhorá-la, com todo o conhecimento e toda a prudência. É o seu dever alertar as consciências e mostrar oportunidades concretas de fazer planos, certamente planos bons e menos bons, e assim ajudar aos seus membros a assumir a sua responsabilidade cristã em todos os setores da vida humana, para que tenham “olhos abertos para as necessidades, aflições e injustiças, como oportunidades oferecidas por Deus – e Ele espera pela nossa resposta, pela nossa ação”.

Mas, como tudo o que faz, a Igreja será modesta. Sabe que não lhe foi dada a promessa de serem os cristãos necessariamente os melhores técnicos, políticos, ou economistas. E sabe que não se pode entregar a um cego ativismo que vive da ilusão de que com a força humana poderia transformar o mundo, poderia vencer o sofrimento, a aflição, os poderes do mal. E, no entanto, somos chamados a agir e lutar. Mas essa luta só pode ser feita na certeza de que já foi conquistada a vitória sobre os poderes do mal e da injustiça. De Deus é a vitória, e Ele não deixa o mundo que é seu, não deixa os homens entregues a si mesmos. Deus está no mundo. Dele é a vitória e todo o poder. Mas que sentido então pode ter ainda lutar aqui na terra contra a aflição, a injustiça e a opressão? A resposta só pode ser: justamente porque Deus está presente no mundo, tanto mais somos chamados a fazer a sua vontade contida no grande mandamento: “Amarás ao Senhor teu Deus e amarás ao teu próximo”… Mais do que esse antigo mandamento também hoje nos múltiplos problemas da vida humana não nos é dado.

A Igreja não tem uma solução pronta para os problemas da vida social. Mas tem para todos os setores da vida humana. Este mandamento pelo qual somos chamados a erguer sinais – mais não podemos fazer – erguer sinais, em meio a este nosso mundo, que de tradições estarrecidas e de fanatismo ideológico só pode morrer. Erguer sinais da realidade de Deus, de seu Reino, de seu amor – confiando onde, com nossas forças deparamos com barreiras instransponíveis, que Cristo as há de vencer, porque Ele em todo o caso cumprirá a sua promessa: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles serão fartos”.
(*) Palestra promovida em reunião de consulta sobre Igreja e Sociedade, promovida pelo Setor de Responsabilidade Social da Igreja (Umuarama, abril de 1963), quando se aprovou um plano de estudo e ação para o período de cinco anos.

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OBS: Texto extraído das páginas introdutórias VII a X, do livro CRISTO E O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO BRASILEIRO, livro Volume 2, resultado da Conferência do Nordeste, promovida em julho de 1962 pelo setor de Responsabilidade Social da Igreja, da Confederação Evangélica do Brasil -CEB.

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