ANO “A” – (CALENDÁRIO) DOMINGO LITÚRGICO – Arquivo 2011

ESTRUTURA DO ANO LITÚRGICO

CALENDÁRIO LITÚRGICO 2011-2012-2013

1. CICLO DO NATAL

1.1 ADVENTO
1.2 NATAL
1.2.1 EPIFANIA

1.3 CICLO DO TEMPO COMUM – 1a.Parte
2. CICLO DA PÁSCOA
2.1 TRÍDUO PASCAL
2.1.1 QUARESMA
2.1.1.1 QUARTA-FEIRA DE CINZAS
2.1.1.2 DOMINGO DE RAMOS
2.1.1.3 QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO
2.1.1.4 SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO
2.1.1.5 VIGÍLIA PASCAL / DOMINGO PASCAL
2.1.2 TEMPO PASCAL
2.1.2.1 VIGÍLIA PASCAL / DOMINGO PASCAL
2.1.2.2 ASCENSÃO
2.1.2.3 PENTECOSTES

DOMINGO LITÚRGICO NA IGREJA PRESBITERIANA UNIDA –  CALENDÁRIO

VER 2010 (Arquivos)

20 de novembro – 2011

34o DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES 

JESUS CRISTO REI DO UNIVERSO

Ezequiel 34,11-16 –  Eu mesmo procurarei minhas ovelhas
Salmo 100 –  Celebrai, todos os moradores da terra
Efésios 1,15-23 –  Sento-me à direita do Pai, acima de todo principado e potestades…
Mateus 25, 31-46 – Quando te vimos entre os famintos, com sede, exilado, discriminado?

A familiaridade com as democracias modernas, seus sucessos e fracassos, apresenta cada vez mais a dificuldade de falar de Deus (e de Cristo) como “rei”, e de seu projeto escatológico como um “reino”. O Reino de Deus, o pobre, o oprimido, foi o centro da vida e da pregação de Jesus, o eixo de sua mensagem, o motivo de seus milagres, a razão de ser de sua fidelidade até a morte, a “coroa” da ressurreição. Como entenderemos o reinado de Jesus Cristo face aos governos deste mundo? Que significado tem a justiça do Reino face ao mundo de miséria e de fome globalizada?

“Então os justos perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, migrante, perseguido, exilado, e te hospedamos? Ou nu, e te vestimos e agasalhamos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, julgados ideológicamente, e fomos ver-te?

Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo estrangeiro, diferente na cor, raça, política, opção religiosa, sexualidade, não me tolerastes nem me acolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, aidético, leproso, tuberculoso, no gueto e condenado ao isolamento e prisão domiciliar, não me visitastes.

Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando não fizestes a um destes pequeninos, social e politicamente fracos, desprezados e julgados improdutivos, desapoderados,  não o fizestes a mim. Irão para o tormento eterno da ganância e insaciedade. Mas os justos seguirão na direção da plenitude e das bem-aventuranças,  a vida eterna” (Paráfrase do autor).

A condução de Deus, com justiça sobre os seres humanos, semelhante à relação do pastor com suas ovelhas, inclui um discernimento sobre os atos humanos. Por isso, Ezequiel (34,11-16), depois de ter descrito detalhadamente o cuidado das “ovelhas perdidas, desgarradas, feridas, enfermas…”, ameaça a cordeiros e bodes (Mt 25,32-33). Nesta perspectiva, o julgamento final é o ápice da preocupação misericordiosa de Deus sobre todo ser humano que padece socialmente desprotegido, fora do alcance da medicina de ponta, politicamente esquecido, abandonado pela religião (cf. Lucas 10,25-37). Prevalecerá a justiça! O Reino é também um tribunal, onde há o julgamento das injustiças, das desigualdades mantidas para sustentar privilégios econômicos e sociais. Conscientes da limitação inevitável de toda linguagem teológica que, por sua mesma natureza, é analógica, simbólica, figurativa, cada vez mais se vem insistindo que a palavra “reino” não seria a mais adequada nesta altura da história, por não expressar já uma forma de organização sócio-política desejável para os homens e mulheres de hoje. Talvez, a não ser que consigamos apagar o conceito de realeza, de absolutismo monárquico, e passemos a acreditar que a plena democracia foi alcançada no mundo pós-tecnológico. O planeta alcançou 7 bilhões de habitantes neste fim do ano 2011. A democracia utópica cedeu ao realismo do capitalismo pragmático. Lucro e acumulação antes de qualquer coisa.

Jesus, porém, pregou o Reino como centro da fé, e não um centro de poder  econômico ou espiritual. Derivados da proximidade de Deus, o reinado de Deus diz respeito aos fiéis cristãos, e ao mundo em sua totalidade, especialmente no sentido de um reinado, uma política divina que contradiz os parâmetros humanos quanto à justiça, mesmo que centralizada em dogmas e doutrinas. Em qualquer parte do Universo. No Reino de Deus prevalece uma justiça diferente. Esta justiça se dirige a um momento de revelação plena da soberania de Deus, presumindo o triunfo do Reino de Deus e dos crentes sobre a morte em todas as suas expressões. Morte econômica, morte social, morte ambiental, morte religiosa, morte espiritual e cultural. O significado da “justiça no reinado de Deus”, desta forma, chega a um de seus pontos culminantes.

Por que há tantas diferenças, desigualdades, se também há tanta riqueza potencialmente capaz de ser repartida solidariamente? Como explicar os privilégios no reinado dos ricos, dos que nunca se mostram capazes de prover um mínimo de condições dignas de vida para os habitantes na face da Terra, ou que jamais pensam em cooperação, face às necessidades da partilha? As distâncias sociais se ampliaram. A polarização dos privilegiados se evidencia na concentração da riqueza mundial nas mãos de apenas 358 multimilionários, que detém sozinhos 85% da riqueza mundial. No outro extremo 2,3 bilhões de habitantes da terra constituem sem-terra, sem-habitação, sem-saúde, sem-escola, sem tudo para o mínimo de dignidade. O ONU declara que 1 bilhão passa fome. Um abismo profundo separa ricos, bem-postos,  pobres e famintos, no planeta Terra.

No caso brasileiro, devemos imaginar o Brasil também como um país injusto, campeão em desigualdades, governado desde sempre por uma elite arrogante e corporativa. Nas palavras de Jung Mo Sung, “a apatia beira o cinismo, frente ao sofrimento de tantos, que revela uma profunda crise espiritual e ética que atinge o mundo de hoje”. Esta identificação de Deus com a miséria humana fica bem clara na grande descrição do juízo final que Mateus põe na boca de Jesus: O “reino” de Deus tendo por “rei”  Jesus (incomum, porque Mateus vai aos finalmente: “vigência permanente do reino de todos os céus”!, bem-aventuranças para todos), articula esta passagem em quatro momentos: uma introdução-apresentação (vv.31-33), a sentença que toca aos justos e sua motivação (vv.34-40), seguida daquela que concerne aos ímpios (vv. 41-45); e uma breve conclusão resume a sorte de uns e outros (v.46).

Cristo, Rei do Universo, monarquias arcaicas, absolutismo, são idéias que nos acompanham, mesmo depois revoluções liberais do século 19, do nazismo, fascismo e comunismo no século 20, e da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985).  Esta imagem suscita sentimentos de confiança no crente? Lembra o conceito de reino-monárquico? Um reino não é hoje, para muitos, a forma mais frequente de organização sócio-política. A maior  parte dos países são repúblicas, de diferentes tendências, e os reinos que persistem não são – em sua maior parte – reinos em forma clássica, adaptados à mentalidade atual. Democracia para servir o capitalismo consumista. Estas, no fundo, negam a essência do que é um “reino”. Por outro lado, cristãos imaginam a Igreja como “agência de um reino celestial”, e não poucas vezes assumem uma posição triunfalista, imaginando que a visibilidade do Reino de Deus se faz na Igreja. Não há maior equívoco, a Igreja, ao contrário, precisa viver “dentro” do Reino de Deus para fazer justiça à missão que propõe para si. A prática demonstra, na maioria das vezes, o contrário.  A Igreja  tende a ocultar  o sentido do reinado de Deus. Mesmo quando coloca na fachada do mega templo  o nome “Reino de Deus”, sem esclarecer que adotou o reino da ganância e o deus do próspero mercado religioso de nossos dias. O templo Theotokos (Mãe de Deus), para 100 mil pessoas, não fica atrás.

13 de novembro -2011

33º DOMINGO DO TEMPO COMUM DA IGREJA  – Ano A

Juízes 4,1-7 – O memorial da escolha das doze tribos de Israel
Salmo 78,1-7  –  Para que as novas gerações conheçam a fé e a esperança
1Tessalonicenses 5,1-11 – O dia do Senhor ocorrerá inesperadamente
Mateus 25, 14-30 – Parábola dos talentos

Pois será como um presidente que, ausentando-se do país, chamou os seus ministros e lhes confiou os seus bens. A um deu autonomia para gastar cinco bilhões, a outro, dois e a outro, um, a cada um segundo a sua própria capacidade e competência. E, então, partiu. O que recebera cinco bilhões saiu imediatamente em campo e fez negócios que renderam outros cinco à nação. Do mesmo modo, o que recebera dois ganhou outros dois. Mas o que recebera um, saindo, abriu uma conta e escondeu o dinheiro do erário para usá-lo na campanha política, distribuindo verbas estratégicas para os projetos do seu partido político.

Depois de muito tempo, voltou o presidente daquele país e ajustou contas com seus ministros. Então, aproximando-se o que recebera cinco bilhões, prestou conta de outros cinco, dizendo: Senhor presidente, eis aqui outros cinco bilhões que ganhei em negócios para a nação. Disse-lhe o presidente: Muito bem, ministro bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; ganhas prestígio neste governo, trazendo lucro para o país. E, aproximando-se também o que recebera dois bilhões, disse: Senhor, dois bilhões me confiaste; aqui tens outros dois que ganhei para a nação. Disse-lhe o senhor: Muito bem, ministro bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; ganhas prestígio neste governo, trazendo lucro para o país. Chegando, por fim, o que recebera um bilhão, disse: Presidente, sabendo que és severo, receoso de prejuízos, escondi num cofre o que me deste. Aqui tens o que é teu. Respondeu-lhe, porém, o senhor: Ministro mau e negligente, sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei, que eu espero lucros para a nação entregando-lhes recursos do erário? Cumpria, portanto, que entregasses o meu dinheiro aos banqueiros, para negociá-lo, e eu, ao voltar, receberíamos com juros o que é da nação. Tirai-lhe, pois, o bilhão que com ele deixei e dai-o ao que tem dez. Porque a todo o que tem tino para bons negócios se lhe dará este bilhão, e terá em abundância. Mas ao que não apresentou lucro, até o que tem lhe será tirado. E o ministro inútil será demitido.  Sairá do governo. Então, chorará e rangerá os dentes por causa de sua negligência”. (Paráfrase pelo autor).

A parábola dos talentos e das capacidades é desafiadora (Mt 2,14-30), muitos acham elementos para a defesa capitalista da competição livre, onde os derrotados são sepultados à beira do caminho. Não se trata disso. Ela se constitui em alerta sobre a necessária vigilância, como a das “dez virgens” (cf. reflexão do domingo anterior), e principalmente um compromisso com a diaconia financeira que costumávamos chamar de “mordomia”. Mudou o sentido do termo, dirige-se ao usufruto de vantagens desonestas. O contexto interpretativo do Evangelho é, na verdade, um incentivo ao compromisso, um elogio ao esforço empreendedor capaz de trazer rendimentos que permitirão multiplicar os recursos empregados na extensão do Reino. De que fala Mateus, senão na vinda futura do Filho do Homem para o juízo sobre a economia humana que nega os princípios da economia divina no reinado de Deus? A parábola elogia o trabalho, a efetividade, a inteligência nos ganhos justos, referindo-se a realidades terrestres do cotidiano de cada um, da sociedade e das nações.

A nova ótica do mundo, em sua ênfase individualista e egoísta, premia o mundo competitivo, enquanto sufoca os sonhos de transformação social, escondendo recursos para os desafios ambientais (o planeta sistematicamente violentado e assassinado!). Camufla-se o que está acontecendo com a sociedade inteira com gritarias sobre quebra da bolsa, “vacas loucas”, febre aftosa, gripe das galinhas. A mídia televisiva colabora, faz um circo sobre adolescentes assassinos e suicidas, estimulando outros assassinatos frente à telinha, enquanto o país pára e retrocede convidado a opinar sobre o direito de ter uma arma mortal em casa ou na gaveta do veículo que se dirige.

“O que nos dá a sensação de progredir, de ser felizes, pelo menos momentaneamente, é comprar, comprar e comprar”, frase instilada à exaustão. A sociedade de hoje não se inspira em ideais superiores em termos de civilização. Movimenta-se no sentido de estabelecer a concorrência acirrada entre todos os indivíduos, sem objetivos finais claros. Não se move pela aspiração a um mundo melhor, mas pela ação mecânica da competição (Luc Ferry). Faz inveja ao “non sense” dos anos 20, o nihilismo do século passado. O tempo é de negação das ideologias e utopias, mas também de valores éticos de fundamento permanente. Brecha para a tal terceira via inútil, nem esquerda nem direita. Solidariedade, misericórdia, compaixão, são dons desprezíveis, enquanto a afirmação capitalista do consumo toma um rosto diferente daquele que nos acostumáramos a combater em anos passados. É a face do tempo atual. Nenhum cirurgião plástico corrigirá.

Thomas Skidmore: “Do jeito que as coisas vão, os historiadores terão pouca coisa para contar, no futuro próximo, mas os antropólogos e arqueólogos estarão bem interessados no que teria acontecido com uma sociedade tão promissora que se entregou ao projeto do Brasil… ”, disse na Tv, referindo-se  ao desinteresse de hoje pela realidade visível, e mais: “… a sociedade brasileira não está disposta a sacrificar-se pelo desenvolvimento  que alcançaria toda a população”. E os jovens neofascistas ou neonazistas da classe bem-posta, representando as elites irresponsáveis, usam o facebook e o twitter para execrar governantes sérios que não hesitam em fazer “faxina ” nos ministérios, demitindo representantes de partidos corruptos. Vive-se furiosamente em função do consumo, por um lado. Por outro, todos se esforçam em aparecer como pessoas bem-sucedidas. As palavras de ordem são eficiência, qualidade total, inteligência emocional, possuir bens aparentes e exibi-los como prova de “capacidade”.

Temos uma visão do mundo como se fora um supermercado. Tudo se vende e tudo se compra. As igrejas imitam supermercados… o shopping center possui o deslumbramento incrível do acessível, mas desnecessário. A menina escrevia na internet: “Vocês já notaram como 10 reais é tão pouco no shopping, e ‘tão demais’ na hora do ofertório no  culto cristão”? Dentro da igreja, por outro lado, “a seleção natural do dinheiro”, da prosperidade, dá visibilidade aos bem-postos, bem-sucedidos, que ditam regras para o sucesso da legião de fracassados em contínuas competições. Estes não tem lugar na igreja. O futuro das igrejas evangélicas será construído com frequentadores de shoppings que vêm aos cultos dominicais exibir seu sucesso e suas vitórias, a televisão full HD, o computador e o celular novos?

Que faremos com os que não podem competir, ou consumir os bens que são produzidos dentro da ótica hipermoderna da produção de bens de consumo e desprezo por bens sociais? A vida que produz excluídos, tratada como “capital” (se não der lucro, deve ser desprezada; se útil para alguma coisa, “usela y tirela”). Abandona-se a austeridade, o uso racional dos recursos do planeta. Cada dia mais vai-se inviabilizando a vida  humana, e com ela os ecossistemas. A lei suprema do mercado é a concorrência. Já a lei suprema do Universo é da cooperação entre todos. Solidariedade. A Natureza não pode competir com o Homem, porém, serve-o como escrava desde todas as eras. A não ser quanto às circunstâncias paleontológicas, geológicas, quando somos lembrados das forças que atuam no Universo, não alcançáveis pela tecnologia ou pelo capital. A ecologia mental nos remete, entretanto, às causas remotas da crise ecológica (cf. FSM de Belém).

Do que mais incomoda, parques industriais estão lado a lado com universidades que pesquisam a biodiversidade. A razão instrumental técnica, antropocêntrica, ignora o ser humano como representante da vida natural e sua dependência da natureza. A prepotência da técnica prevalece, não defende o homem, mas os instrumentos que este criou para gerenciar o Planeta confirmam o dito: “comemos o que terminará por nos comer”.

Hoje, o Evangelho nos convida a ler “os sinais dos tempos” enquanto traçamos projetos de evangelização integral e integrada com as diaconias sociais que cuidam também da paz, da solidariedade, da discussão dos direitos negados, da cidadania, da ecologia humana. Ecologia do homem, já que a questão do mundo natural apresenta-se em manifestações de morte ambiental explícita. Não tenho mais coragem de voltar à cidade do interior onde cresci, ela não existe mais. A evangelização integrada à denúncia profética da destruição ambiental, da ausência de direitos fundamentais, da violência institucional e da própria sociedade encurralada pela problemática que não se quer ver, se entrelaçaria com as questões e exigências da proclamação da justiça, enquanto Jesus Cristo proclama o Reino de Deus?

06 de novembro – 2011

32º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A – 2011
Josué 24,1-3a; 14-25 –  Juramento para uma Aliança bi-lateral
Salmo 78,1-7 –  Escuta, Israel, minhas instruções: começa um novo tempo
1Tessalonicenses 4,13-18 – Deus trará de volta os que entraram no sono da morte
Mateus 25, 1-13 – O noivo está chegando. Ide ao seu encontro!

A parábola das virgens ensina a não sermos barrado no baile do Reino. Baile da vida. Mateus traz a parábola das dez virgens, prudentes e imprudentes, que estavam esperando o noivo. Não diz a “seus noivos” ou “aos noivos”. “O noivo” designa Jesus mesmo (Mt 9,15). E recordemos que o Reino de Deus também é simbolizado como um banquete de casamento. Ter diante de nós a morte biológica e observar os ciclos da natureza é importante. A convivência mais próxima de nós é a morte. A vida flui como um rio deslizando para ser absorvido pelo mar. Porém, com os avanços atuais, a biotecnologia  ganha importância, tanto para prolongar a vida como para defendê-la da morte prematura.  Mas isso pode levar-nos a desconsiderar o ciclo vital da vida e da morte, em termos da “escatologia da pessoa”. Queremos ignorar a impermanência, a finitude do ser, o desaparecimento de todos os seres vivos. Heidegger, extraordinário pensador cristão, já concluía: “o homem é o único ser que sabe da sua morte, mas não quer saber que ele é ‘ser-para-morte’”, portanto, deve cuidar muito bem da vida. Às portas dessa realidade, o texto nos remete para as metáforas de Jesus. Entendamo-las.

A parábola ensina um final, uma “escatologia” da pessoa. Todos dependem do caminho que escolhem. Que, de alguma maneira, a morte é consequência da vida prudente ou imprudente que se leva. Há escolhas a serem feitas… Imprudentes são os que ouviram a mensagem de Jesus mas não o levam a sério. Prudentes são os que traduzem em sua vida a prática de Jesus e sua causa, e por isso entram para a festa do banquete do Reino. É uma séria advertência. “Vigiem, fiquem acordados, porque não se sabe o dia e nem a hora”. Não deixem que em nenhum momento se apague a lâmpada da fé, em esperança, porque qualquer momento pode ser o último. Fiquem atentos, porque a festa da vida tem lugar já, agora mesmo. O Reino da vida está aqui. Acendam as lâmpadas com o azeite da fé, da fraternidade, do cuidado, do serviço, da cooperação mútua, da solidariedade. Corações cheios de luz permitirão viver a autêntica alegria da espera, aqui e agora. Os demais, os que vivem ao redor de nós, sentir-se-ão também iluminados, conhecerão também a alegria da presença do Noivo  esperado. Jesus pede para que nunca falte azeite em nossas lâmpadas. Corações e mentes sempre iluminados.

Certamente temos que aproveitar o momento presente para construir fraternidade, não para buscar de modo egoísta nosso próprio bem-estar. As virgens imprudentes colocaram “outro azeite” em suas lâmpadas: o que serve para iluminar somente os “caminhos delas”. Não puderam entrar na festa de casamento, não entraram no baile (São semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, clamam uns aos outros e dizem: Tocamos-vos flauta e não dançastes… – Lc 7,32a). E se tivessem entrado não teriam entendido absolutamente nada. Na festa da vida os que só olham por seu próprio interesse se aborrecem.  Não dançam e nem se alegram (Zwínglio Mota Dias).

O reinado de Deus permanece na pauta dos que “esperam a festa da vida em esperança”. Governos arbitrários, reinados deste mundo, sempre dando vantagens aos ricos e poderosos, são marcados pelo uso da força e da violência. Política, economia, religião, estão engajadas nesse esforço de poder. O reinado de Deus, porém, está marcado pela superação da violência, da miséria e da marginalização dos órfãos e viúvas deste mundo. Desprotegidos, despoderados, esquecidos de todos, são preferencialmente o alvo de Deus. O observador vigilante, como a virgem que espera pelo noivo, portanto, deve ter este duplo olhar: olhar para Deus e olhar para o que não goza dos direitos fundamentais da vida. Olhar para Deus é ver a fonte de toda libertação possível e o olhar para o excluído identifica onde há necessidades prioritárias para a libertação. Olhando para Deus, diferencia-se o Reino de Deus dos reinos deste mundo. O Reino de Deus – ordem de justiça e da superação de toda opressão possível – , ao pretender olhar para o excluído e para o sistema gerador de opressão, como pressuposto de todo fazer teológico, reclama o engajamento do fiel na luta contra todo sofrimento humano; sofrimento situado nas realidades cotidianas presentes, à vista de todos. Sob a luz da justiça de Deus.

Na caminhada dos seguidores de Jesus e das comunidades, semelhante consciência está explicitada, por exemplo, no canto: “o Deus dos pobres, do povo sofredor, aqui nos reuniu pra cantar o seu louvor, pra nos dar esperança e contar com nossas mãos  na construção do reino, reino novo, povo irmão”. O livro do Êxodo, tanto quanto o de Josué, sendo este mais direto e incisivo, mostra um Deus que age na história dos homens e das mulheres como um Deus libertador: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi seu grito por causa de seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir desta terra para uma terra boa e vasta, terra que mana leite e mel” (Ex 3,7-8b). Essa tradição do Deus libertador se expressa na profissão de fé do povo libertado: “Eu sou teu Deus que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão” (Ex 20,2). “Vocês vigiem, porque não sabem o dia e nem a hora”(Mt 25,13). Que hora? O momento novo da irrupção incontrolável do Reino, sem dúvida . Não se trata de decisão de homens e mulheres, mas  de esperar, a qualquer momento, a intervenção de Deus. Paráfrase conclusiva. Tal como no êxodo da escravidão no Egito: Não deixem que em nenhum momento se apague a lâmpada da fé, em esperança, porque qualquer momento pode ser o último”. Não sejamos, finalmente, barrados no baile.

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil


30 de outubro – 2011

3 1º Domingo do Tempo Comum  – Ano “A” 

Josué 3,7-17 –  Como fiz com Moisés, ofereço-te a liberdade

Salmo 107,1-7; 33-37 –  Porque a  misericórdia do Senhor dura para sempre…

1Tessalonicenses 2, 7b-9.13 – Deves dar  a própria vida pela causa…

Mateus 23, 1-12 –  Eles falam sobre justiça, mas a não praticam

  • O livro de Josué (Js 3,7-17) aponta duas direções: completa o “êxodo”, como saída da escravidão e servidão egípcia, primeiramente na direção da liberdade econômico-social, política, portanto. Em segundo lugar, inaugura-se uma nova etapa, dentro do esquema “servidão” em nação estrangeira, vida sedentária por quase duas gerações, e passagem do sedentarismo para a conquista de um lugar político próprio sob governo tribal (anfictionia, confederação tribal). É preciso compreender  um espaço de quase 800 anos até que esta história viesse a ser contada. Josué faz parte da História Deuteronomista (greg. dêutero = segundo momento da exposição sobre a “lei de Yahweh”).
  • Observemos que este capítulo adota uma técnica  “concêntrica”: o princípio e o fim se encontram novamente na narrativa da partida  e da chegada. Todas as referências apontam posições geográficas, os discursos de instrução são seguidos da “práxis” obrigatória; os discursos de governo controlam o movimento do povo.  Primeiro aos sacerdotes, e em segundo  ao povo. Um discurso religioso  e um discurso político.  Mas o “orador” eleito é Yahweh, Deus de Israel. A síntese é o que mais interessa, na fala de Josué: o milagre da liberdade e da libertação aponta para “o Deus vivo” que os profetas distiguirão das divindades  cananitas: deuses com pés-de-barro, não andam; que têm olhos, mas não vêem; têm ouvidos, mas não ouvem; têm boca, mas não falam (Jeremias 5,3-5). Deus é o Senhor da vida, não é uma divindade inerte e impassível diante da História.  Josué fala, Yahweh assina embaixo. Não é, também, o momento de se erigir um obelisco,  um monumento à margem do Mar Vermelho. Esta etapa já foi cumprida, à frente está a história que ainda deverá ser construída. “Allons enfants, le jour de gloire, est arrivée”, é necessário atravessar o Jordão! Uma nova história começa, em Israel.
  •  O ensinamento de Jesus se orienta nesta mesma direção e põe em cheque as pretensões de tantos que se preocupando pela “ortodoxia doutrinal”, dogmática, e descuidam dos principais elementos da justiça de Deus (Mateus 23, 1-12). A catequese se preocupou durante longo tempo em transmitir a doutrina corrente. Por isto, se de deu ênfase em aprender os mandamentos (igrejas tradicionais costumam fixar uma escultura das taboas da Lei, como símbolo evangélico… é evidente o apego ao judaísmo bíblico!), os sacramentos, os dons do Espírito Santo e seus frutos, e outras muitas tradições dogmáticas. Este interesse catequético é legítimo, excluindo o apego judaizante da Igreja, na comunidade mateusina. Inquestionável, não. Sem dúvida, é necessário perguntar: a catequese que se preocupa tanto pela “reta doutrina”, a chamada “ortodoxia”, se preocupa igualmente pela prática correta, corresponde ao dinamismo da Igreja, ou é um freio à sua permanente reforma?
    1. O evangelho de Mateus é direto e irrefutável. Indica que aceitemos a ortodoxia sempre, e quando está baseada e fundamentada na “ortopráxis” de Jesus, isto é, na prática da justiça (dikaiosune). Anunciar doutrina corretas, impostas, é fácil, sugere Mateus. A questão é praticá-las. O difícil é praticar o que a Lei manda. Leiam o Deuteronômio, revisão da lei mosaica. “O Senhor disse a Moisés. Desce depressa, porque o teu povo já se corrompeu, entregue os meus mandamentos: – não haverá pobres e oprimidos Israel; não te esqueças que o Senhor te tirou da casa das escravidões (Ex 20,2);-  olhei em volta e vi que vocês fundiram um bezerro de ouro para adorar, destruam-no; – lembra-te que o Senhor faz justiça aos desvalidos, órfãos e viúvas ao redor” . Por isso, urge revisar a prática catequética que os sistemas doutrinais impuseram.
    2. Durante muito tempo nossa catequese se limita, em grande parte, a memorizar preceitos, doutrinas e fórmulas. Mas o evangelho indica, sem esquecer tudo isto, preocupação em realizar-se o que é a verdadeira e “reta doutrina” que a Bíblia propõe. O fundamental de toda doutrina cristã, contida no evangelho, é a prática da justiça de Deus, em retidão ética! No serviço expresso em uma exigência irrevogável por direitos fundamentais. Justiça para todos (como expressa a Carta dos Direitos Humanos, da ONU). Preferencialmente o pobre (anawin), o “órfão e a viúva”, os deserdados socialmente.  A comunidade cristã existe para anunciar as boas noticias do reinado de Deus à vida concreta. Converte-se ela mesma em boa notícia quando transforma as realidades da morte em caminhos para a vida em abundancia e não quando se anuncia a si mesma. Disse Jesus.

O evangelho de Mateus é direto e irrefutável. Indica que aceitemos a ortodoxia sempre, e quando está baseada e fundamentada na “ortopráxis” de Jesus, isto é, na prática da justiça. Anunciar doutrina corretas, impostas, é fácil, sugere Mateus. A questão é praticá-las. O difícil é praticar o que a Lei manda. “Leiam o Deuteronômio: O Senhor disse a Moisés. Desce depressa, porque o teu povo já se corrompeu, entregue os meus mandamentos: – não haverá pobres e oprimidos Israel;- não te esqueças que o Senhor te tirou da casa das escravidões;- olhei em volta e vi que vocês fundiram um bezerro de ouro para adorar, destruam-no; – lembra-te que o Senhor faz justiça aos desvalidos, órfãos e viúvas ao redor”. Durante muito tempo nossa catequese se limita, em grande parte, a memorizar preceitos, doutrinas e fórmulas. Mas o evangelho indica, sem esquecer tudo isto, a preocupação em realizar-se o que a verdadeira e “reta doutrina” que a Bíblia propõe. O fundamental de toda doutrina cristã, contida no evangelho, é a prática da justiça de Deus.

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida

23 de outubro – 2011

30º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “A” (Cor Litúrgica: Verde)
Deuteronômio 34,1-12 – Moisés teve autoridade para exigir obediência a Deus
Salmo 90,1-6;13-17 –  Tudo passa rapidamente, o tempo voa
1Tessalonisenses 2,1-8 –  É imprescindível servir a Deus…
Mateus 22,34-40 – Amarás ao Senhor teu Deus, e ao teu próximo, como a ti mesmo

Não basta saber conjugar o verbo amar (Mt 22,34-40).  Talvez devamos perguntar, antes de tudo, sobre quem é o “próximo”. A palavra “plesion” deveria ter uma tradução mais adequada. Se a entendemos imediatamente como o “próximo”, perdemos a compreensão da referência por inteiro. J.Jeremias propõe que seja traduzida por “companheiro”. Assim, já é um conceito, um resultado hermenêutico da localização da palavra, por exemplo, em Lucas (10,25-37: “Quem é o meu próximo?”). Esta parábola é perfeita. Jesus está ensinando a seus discípulos o sentido da misericórdia. Ela se aplica aos estrangeiros, adversários religiosos e ideológicos, desprotegidos, deficientes, desgraçados, enquanto recorda a obrigatoriedade de não esquecermos os “órfãos e as viúvas”, conforme a literatura profética do Primeiro Testamento. Símbolos dos desprotegidos socialmente.

Na verdade, é o farisaísmo em conjunto que se aproxima de Jesus, representado por este jurista preocupado com um amor “legal”, segundo preceitos religiosos. Próprio de sua doutrina era a explicitação das exigências de Deus sobre a vida humana. Estas, para eles, não somente surgiam da Lei escrita, mas também das consequências que a tradição oral e o estudo fundamentalista haviam elaborado. No fundo, tratava-se de um esforço legítimo de traduzir para um ambiente diferente e tornar aí possível o cumprimento dos preceitos divinos surgidos em outra época e em outras circunstâncias da vida do povo.

Dessa forma   crescia muito o número das prescrições (613). Havia 365 positivas (para cada dia do ano) e 248 negativas (correspondentes ao número de componentes do corpo humano). Diante desta multiplicidade a questão sobre a importância dos mandamentos, e sua hierarquização, era um ponto candente entre os rabinos do tempo de Jesus. Desta maneira, transcendendo toda casuística, Jesus considera a Lei como um todo que depende da dupla fidelidade mencionada. Esta é a perspectiva essencial de toda interpretação e sem ela não é possível a observância “da Lei e dos profetas” (v. 40).

O grande inimigo do homem e da sociedade é a presunção humana de querer situar-se no lugar de Deus, e até de afastar Deus das causas humanas: liberdades civis, direitos humanos e direitos aos bens sociais; cidadania, direito ao alimento do corpo, habitação, saneamento e saúde pública, educação em todos os níveis, medicina qualificada; direitos da natureza explorada, escravizada e violada sem tréguas em todas as eras. Para estas questões, o imperativo divino, mandamento do amor, prevalece enquanto resume o sentido do amor a Deus e ao próximo. Assim a solução desta controvérsia com seus adversários remete cada ser humano ao mais profundo de sua resposta religiosa. O amor de Deus e o amor ao próximo concentrados na pessoa de Jesus, colocam-nos frente a Deus e a nossos semelhantes, e põe à prova nossa autenticidade religiosa.

Jesus, em sua resposta, remete primeiramente ao Deuteronômio (Dt 6,5), que cita ligeiramente mudado: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração (com compaixão), de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento”. O ser inteiro (nephesh), e as entranhas do homem (cardis) se envolvem com o amor. João não perde a oportunidade: “Deus é amor (agape), e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele” (1João 4,16 ). Esta última faculdade ocupa o lugar de “com todas as tuas forças”, do texto citado. Com os três componentes se quer indicar respectivamente a interioridade do ser humano, seu élan vital, e o aspecto racional da interioridade humana, até as entranhas. Trata-se, portanto, de situar a exigência do amor bem além de um sentimento piedoso (ou piegas, romãntico), como direção de toda a vida da pessoa. Desde esta direção para Deus, fundamento de toda a existência, adquirem sentido todos os demais mandamentos. Entretanto, partindo do Levítico (19,18), Jesus coloca, a seguir, outra exigência igualmente importante para a orientação da vida: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.

Com esta resposta Jesus conecta intimamente o amor de Deus e o amor ao próximo. Sua originalidade não está no fato de enunciar os dois mandamentos, que encontramos em outras fontes da tradição judaica. O mais relevante consiste na equiparação de ambos e, sobretudo, porque os dois mandamentos encontram em Jesus de Nazaré o seu lugar próprio e sua última consistência. Em sua resposta, portanto, mais que uma explicitação de textos legais, Jesus coloca os seus adversários frente a duas pessoas: Deus e o próximo. Põe-se de novo, desta maneira, a má atuação dos religiosos que não foram capazes de ser fiéis a Deus e ao ser humano e que, por conseguinte, não foram capazes de criar, a partir daí, uma sociedade justa. Jesus é radical, por isso suas palavras imperativas convidam ao discipulado radical do amor.

Fugindo do pieguismo e do romantismo, combater a violência e suas manifestações na sociedade e na família; combater o crime político e o crime organizado, latentes desde a sociedade autoritária/solidária com os mesmos; combater a intolerância religiosa, política, ou social; combater o preconceito e a homofobia (ou a héterofobia: desrespeito à alteridade de indivíduos e instituições, aversão ao diferente); combater a violência intrafamiliar e  o racismo latentes, cultural ou institucionalmente; acentuar a premência de redução da pobreza (exclusão social); garantir o direito à saúde, à seguridade e previdência social para todos; abordar questões da bioética, células tronco, saúde reprodutiva, saúde do deficiente, e suas particularidades, dizem-nos sobre o amor ao próximo e amor ao Deus da vida.

Derval Dasilio

16 de outubro – 2011

29º Domingo do Tempo Comum  – Ano “A”
Êxodo 33,12-23 –  “…não me confundam outros deuses”
Salmo  99 – Só Deus é santo, e nada mais…
1Tess 1,1-10 – A conversão implica em abandonar os ídolos de hoje
Mateus 22,15-22 – Uma questão sobre a economia excludente

O consumismo é a âncora da ganância. Por sua natureza o dinheiro é espúrio, sujo, num cartão bancário ou “em espécie”, “in catch”, porque contaminado com os mais imundos pensamentos de poder econômico, nos sistemas de exploração e dominação das pessoas: o lucro e a vantagem acima de tudo. O dinheiro deve voltar às mãos nojentas do dominador? Se este dinheiro se origina do poder que se desvia da finalidade da economia justa, “dai a César o que é de César”!, sugere Jesus. Porque a Deus pertence a vida, a sustentação das pessoas; a ele se entrega o que lhe pertence, bens econômicos para mantê-la. Solidariedade e partilha fazem parte da experiência de Deus, inclusive na economia justa (alguém já constatou que a palavra “dinheiro” aparece por mais de 2.300 vezes, na Bíblia). A prática tradicional, pseudobíblica, porém, prevalece: “Daí a César o que é de César… e o que é de Deus também”! John Stott confirma o que deduzo, porém “espiritualizando” e isentando o poder temporal, enquanto referia-se a Lutero e seu comentário sobre esta passagem: “Lutero viu uma dupla existência: um reino divino e espiritual, o Reino de Deus; um reino secular e temporal, o reino do imperador. O primeiro à direita de Deus, o segundo à esquerda”! Pode-se deduzir que o dízimo é um imposto complementar para pastores e igrejas que não pagam impostos civis? Igrejas e pastores, hoje, pensam no enriquecimento, de preferência sem pagar impostos ao governo.

O “capital”, “reino do imperador”, se defende e incendeia platéias que discutem sobre economia essencial. Na Consulta “Pobreza, Riqueza e Ecologia”, organizada pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI), reunida na Guatemala, autoridades locais afirmavam: “o consumismo é a âncora para o desenvolvimento, e a pobreza não é um problema econômico, mas uma questão sobre qualidade de vida”. Pensavam em bens secundários, comida como parte do lazer, diversões, vestuário da moda, roupa de griffe, e turismo hoteleiro. Não acreditam em organismos que procuram organizar a população  pobre na defesa de seus direitos tenham alguma função para melhorar a economia: “Há muitos organismos que defendem os pobres, e o que mudou? Existem organismos indígenas que querem voltar a um modo de vida de 500 anos atrás. Isso não é possível. O indígena de hoje tem que ser um pequeno ou médio empresário. O uso de novas tecnologias é fundamental. Se quisermos viver apenas do cultivo do milho, como faziam os ancestrais, todos nós morreremos de fome”. Não se discutia o consumismo do luxo no qual se enterra a classe média ganaciosa.

Um hebreu pensaria sobre o quê sobre o assunto em pauta? Nilton Bonder fala da tradição interpretativa judaica sobre o uso do dinheiro: “o conceito aparece em dois elementos distintos: ‘mashal’ (significador) e ‘nim’shal’ (significante). Metaforicamente, pode-se dizer que a água está em sua forma oculta enquanto aparente num bloco de gelo. A água em estado líquido, porém, revela os elementos que a compõem. Jesus, colocado numa armadilha por espiões fundamentalistas, parecia não ter saída (Mateus 22,15-22): Que fazer com o dinheiro de “César”, que é moeda circulante? Como decompor o dinheiro “significador”  da moeda “significante”?

O evangelho de Jesus Cristo implica numa simultaneidade inaceitável: “Não  se pode servir a dois senhores, pois um será amado e outro desprezado…”. Jesus está respondendo com uma afirmação libertadora, e somente a compreendem os que não estão cegos pelo poder, pelo  dinheiro, pela ganância, pelo ódio da héterofobia (aversão ao socialmente fraco; ao socialmente diferente; ao deficiente físico e o idoso, p.ex. ) e a injustiça. Contra isso, Irineu, pai da Igreja Antiga, pós-bíblica, usa uma expressão que pode ser ao mesmo tempo um paradigma de muitas radicalidades necessárias no testemunho cristão: “A glória de Deus é o homem vivente, a vida é uma visão de Deus (beleza, ética; valores; dignidade)”.  A economia e o dinheiro do imperador, porém, tem outros objetivos, no mais das vezes. Poderíamos dizer que o “dinheiro de Deus é para sustentar a vida”, mesmo administrado pelo “imperador”.

Deus entregou à criação a vida como um dom de alto valor para a construção do seu Reino (cf.Kümmel, Síntese Teológica do NT; J.Jeremias, Teologia do NT; L.Goppelt, Teologia do NT). Este reinado não se mantém com impostos, dinheiro para o consumo irresponsável, obrigações fazendárias em cada produto consumido. Ao contrário, o Reino prima pela justiça e pela paz social que a economia justa pode realizar (com habitação, com socialização da saúde e da escola, com direito ao trabalho, alimentação e lazer: vida digna para todos os membros da sociedade), de acordo com os parâmetros da fé que sustenta o Reino através dos que crêem: “O justo viverá pela fé” (Habacuque 2,4). Ou seja, o justo viverá em fidelidade ao Deus da vida, em favor da própria vida. O justo confia na providência divina, não em milagres econômicos, na loteria ou na Bolsa de Valores.

o9 de outubro – 2011

28o. Domingo do Tempo Comum  – Ano “A”

Êxodo 32,1-14 – Apostasia: rebelião quanto aos princípios de origem
Salmo 106,1-6;19-23 – Um bezerro de ouro!, preferiram o deus “grana”
Filipenses 4,1-9 – Tudo posso naquele que me fortalece!
Mateus 22,1-14 – Convidados para a festa da vida

Ariano Suassuna, autor de sucessos como “O Auto da Compadecida”, entre muitos outros, resolveu contar uma história sobre “as comidas que nos faltam à mesa”, usando um exemplo simples – uma história de cachorros –  sobre a grandiosidade cultural que nos cerca. “Entre o osso e o fillet, o que um cachorro prefere? Lógico que é o fillet’“. Osso é para roer, insinua o fast-food global contemporâneo. Então está faltando oportunidade aos jovens brasileiros de conhecer o fillet da nossa cultura”, e o que realmente acontece com nossa nação. Entre as forças ameaçadoras, opressoras, da globalização da bobagem e das besteiras, a  alienação do povo protestante-evangélico,  engabelado pelas promessas da religião da ganância individualista, compõe a exterminação dos melhores sentimentos culturais libertários da história do protestantismo, em sua proposta de vida de fé autêntica.  Com  a mistureba fundamentalista temperando tudo com condimentos que resultarão numa indigestão monumental, ganância materialista, talvez seja preferível permanecer com fome.

O código da comida tem seus desdobramentos. Comida exprime tão bem a sociedade como a política, a economia, a religião (Mateus 22,1-14). Lévy-Strauss já falava, chamando a atenção sobre o “crú” e o “cozido”, mas não como dois estados pelos quais passam os alimentos, e sim como modalidades pelas quais dá pra falar de transformações sociais. Aqui, as associações sobre o “salgado” e o “indigesto” também apontam para o estômago, “questões viscerais” (do latim ‘viscus’, pegajoso, grudante; ‘visceral’ é algo profundo, vital, mais instintivo que intelectual). Impossível evitar a alusão à fome e sede de justiça, que tem sido relegada em favor da “prosperidade”, por chantagem espiritual. Há alimento para a vida integral, como envolvimento dos famintos? De fato, existencialmente, para o homem bíblico, a vida é uma unidade absoluta e indivisível, ao mesmo tempo concreta e espiritual.  O homem precisa de alimento espiritual, e busca esse alimento na justiça. “Nem só de pão viverá o homem…”

A descoberta do corpo oprimido, que tem fome e sede de muitas coisas, além do alimento reclamado pelo estômago, está diretamente ligada à consciência da alma livre, da qual Lutero poderia dizer, debatendo com Erasmo: “O homem não poderia receber coisa alguma, se do céu não lhe fosse dado”. Por isso o pão da eucaristia, Jesus Cristo, se associa com os oprimidos deste mundo, e será lembrado como o Pão do Céu que sacia as fomes do mundo. O corpo do Cristo de Deus alimenta o mundo.

Concepções contrárias (violência, poder, dinheiro, capital), tidas como alimento essencial definitivo, avançam e matam o corpo e a “alma” do mundo. Brutalmente alvejado, bombardeado, estilhaçado, ainda em nosso tempo, o Pão do Céu não se esgota. Celebra-se a Ceia do Senhor no Espírito da vinda definitiva do Reino de Deus. Quem aceita o convite para o banquete da vida? Quais são os convidados que vestem roupas brancas de núpcias (símbolo bíblico dos que praticam a justiça), demonstrados no Apocalipse [“Esta é a mensagem daquele que tem os sete espíritos de Deus e as sete estrelas. Eu sei o que vocês estão fazendo. Vocês dizem que estão vivos, mas, de fato, estão mortos. Acordem e fortaleçam aquilo que ainda está vivo, antes que morra completamente”. (…)”Aqueles que conseguirem a vitória (da justiça) serão vestidos de branco, e eu não tirarei o nome dessas pessoas do Livro da Vida. Eu declararei abertamente, na presença do meu Pai e dos seus anjos, que elas pertencem a mim. Portanto, se vocês têm ouvidos para ouvir, então ouçam o que o Espírito de Deus diz às igrejas” – Ap 3,1-6]? São prostitutas, deficientes, portadores de necessidades especiais, coxos, cegos, surdos, doentes, pobres e excluidos,  os pobres deste mundo (cf. Lc14,16-24 par.)?  Três quartos da população mundial vivem em situação de pobreza até a miséria.

As oferendas da mesa que serão consumidas no banquete comemorativo da chegada do Reino, porém, comportam todos os sabores da vida desejável, e as formas de bem-estar. Fim da fome, das desigualdades e das injustiças. Encontraremos um fio condutor, no texto de hoje, onde a imagem do banquete eucarístico nos permitirá saborear todos os temperos, cheiros e gostos, de uma culinária libertária e maravilhosa, ao mesmo tempo. “No baticum lá na beira do mar/ Aquela noite / Tinha do bom e do melhor / Só tô lhe contando que é pra lhe dar água na boca… (Chico Buarque: Baticum). Quem quer participar?

Em Tempo: Sob os efeitos da notícia: “Dissolveram-se trilhões de dólares ‘virtuais’ (mesmo! – dinheiro que só aparece nas telas dos computadores…), economias “sólidas” estão se dissolvendo, anunciam a quebra de instituições financeiras de alcance mundial. O reinado financeiro do neoliberalismo, em vinte anos apenas, se desmorona rapidamente, no ritmo da internet. Mas não será o fim da loucura pelo dinheiro, por bens não-essenciais, do desprezo em relação à realidade concreta de bilhões de homens, mulheres e crianças, famintos e abandonados à própria sorte. Pobreza e miséria não é privilégio da globalização cultural que nos alcançou. A palavra de ordem é:”Salve-se quem puder!”.

Derval Dasilio

02 de outubro – 2011

27º. Domingo do Tempo Comum – Ano A

Êxodo 20,1-7  – Não terás outros deuses…

Salmo 19 – Os mandamentos do Senhor  orientam a vida

Filipenses 4, 4-9 –  O Deus da paz.

Mateus 21,33-43 – Melhor é arrendar a vinha a outros vinhateiros.

Toda a vida e ministério de Jesus refletem compromisso com a vida, e não com doutrinas religiosas. Através de práticas religiosas rituais ou habituais. Seus ensinamentos denunciam a religião opressiva e seus valores pragmáticos da religião gananciosa (toma-lá-dá-cá). Materialismo espiritual (Anacleto Rodrigues). Devoção interesseira, antes que voltada para a solidariedade, a partilha e compaixão. Graça. As ações e palavras de Jesus convocam todos para partilharem de sua vida nas novas realidades humanas, no cerne das realidades. Estruturas e conjunturas estão envolvidas pelo mal, um arranjo extenso de pecado e maldade nos sistemas de pensar. A construção do Reino de Deus começa por identificar a prática do mal como projeto de vida das pessoas; exige a acolhida ao excluído e o anúncio da utopia de Deus. Acolhida que abre novos horizontes de esperança no coração dos cansados e oprimidos. O cuidado com os esmagados, desapoderados, pobres, enfermos, oprimidos, devem ser observados. Estes e outros sinais de solidariedade são manifestações da vontade do Pai que envia Jesus para que seus filhos e filhas, em todo o universo, “tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). É a mensagem do texto.

Os “vinhateiros” modernos, assassinos dos profetas, não concordarão (Mt 21,33-43). Não restará ao dono da vinha senão “arrendar seu parreiral” a outros cultivadores do Reino (disse Jesus: Eu sou a videira, vós sois os ramos…). Os estranhos, diferentes, entregarão os frutos no tempo devido, já que tradicionais e “ortodoxos”, apegados à “reta doutrina”, estão a serviço da sociedade bem-posta, e têm sempre uma caixa de fósforos para acender fogueiras inquisitórias. Cada vez mais descobrimos que a causa de Jesus, antes que abraçada por cristãos de confissão, vem sendo interessante a quem, tantas vezes, nada tem a ver com compromissos eclesiásticos, ou que leve institucionalmente o nome “cristão evangélico” na fachada. Ao contrário, a considerar-se a atuação da sociedade organizada, em defesa dos desapoderados, e da natureza, o que se observa mais frequentemente é a apatia, o distanciamento, a indiferença das igrejas cristãs em relação às grandes lutas em favor das liberdades do homem e dos direitos sociais. A Teologia da Ganância se ajusta a quem ignora a exclusão.

Observando o cenário político nacional, as reeleições de prefeitos e vereadores corruptos, juntamente com deputados e senadores igualmente envolvidos em falcatruas, apontam que o cenário não muda. O Rio de Janeiro, tido como a cidade “mais evangélica” do Brasil, arma o palco da cultura dos novos ídolos. As demais capitais brasileiras acompanham seus “deuses”, e pastores congressistas. Na Bíblia, ciumento em relação à preferência idolátrica, Deus reclama: “Sou eu o Senhor que sou teu Deus, porque eu te libertei da servidão no Egito” (Êxodo 20,1-4;7). Trata-se do direito de não ser confundido com outras divindades (Os 13,4)., quaisquer que sejam. Em resumo: Yahweh  está dando o recado de que os muitos deuses que pululam na fé israelita (e cristã, sem dúvida alguma!) são inúteis, “têm corpos de ouro… mas pés  de barro, não andam” (Dn 2,33-34); “têm ouvidos, mas não ouvem; têm olhos, mas não vêem” (Jr 5,21-22). Não são eles que corrigem os nossos caminhos; não são eles que oferecem misericórdia, compaixão, perdão e reconciliação, como são as intenções de Deus.

Para Jesus, o Reino de Deus está aberto a todos os seres humanos “de boa vontade”. Ou seja, que tiveram como valor primeiro de sua vida o Amor e a Justiça (Mateus 21,33-43). O Reino é “Vida, Verdade, Justiça, Paz, Solidariedade, Gratuidade e Amor”. Jesus desafia abertamente quem condiciona sua mensagem a alguma prática religiosa e, por meio dessa comparação com a vinha, mostra que a ortodoxia doutrinária, recalcitrante, não conduz à salvação, ou plenitude de vida. O Reino não é propriedade privada de legisladores que privilegiam elites já sobrecarregadas de benesses e destaque social. Ninguém, nem nenhum grupo em particular, tem a verdade ou as respostas sobre a pergunta do Cristo de Deus, nos evangelhos: “Que dizem os homens que eu sou”? Ninguém encontra Jesus assegurando o titulo de exclusividade a uma razão religiosa concreta, afirmando-se “uma religião verdadeira”, pentecostal ou conservadora. Tiago explicaria melhor: “afirmas que há um só Deus, ótimo! Lembra-te, porém, os demônios também crêem… mas eles estremecem” (Tg 2,19). Eis a diferença.

Caco Barcelos diz: “Não tenho dúvidas de que, se a política de extermínio atingisse a classe média alta, acabaria no dia seguinte”. O banqueiro corrupto preso e algemado desperta indignação nas altas esferas, ministros e políticos do alto escalão se manifestam em favor dos “direitos” de alguém com destaque em não ser exposto publicamente entrando num camburão, cercado de policiais armados até os dentes. Mas debocham do camelô que é apanhado publicamente na contravenção, sofrendo “violência merecida”… Enquanto isso as igrejas cristãs se calam… Mas, quando se pronunciam, dizem: Não é conosco. Mas é conosco! Ou estamos aqui para quê?

25.setembro -2011

26o. Domingo do Tempo Comum – Ano “A”  

Êxodo 17,1-7 – Estará o Senhor conosco?

Salmo 78,1-4;12 -16 –  Escutai o que digo, povo meu…

Filipenses 2,1-13 – Tende o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus

Mateus 21,23-32 – No Reino, entram antes de vocês fiscais do IR e prostitutas

Os mais ilustres representantes da religião (sacerdotes judeus, fariseus, escribas, etc., equivalentes modernos na direção de igrejas) caem no pecado da   falsidade.  Sinaliza-se o perigo da desonestidade, ao mesmo tempo em que se denuncia a falsa consciência religiosa. Jesus propõe: a “vinha” é a realidade, uma parábola do mundo (e não da igreja). O trabalho é sempre árduo e urgente. A essa vinha um pai envia seus dois filhos. A resposta dos dois é ambígua (Mt 21,28-32: Mas que vos parece? Um homem tinha dois filhos e, chegando- se ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje na vinha. Ele respondeu: Sim, senhor; mas não foi. Chegando-se, então, ao segundo, falou-lhe de igual modo; respondeu-lhe este: Não quero; mas depois, arrependendo-se, foi). Entretanto, somente o compromisso daquele que inicialmente se havia negado a ir trabalhar nos permite descobrir quem agiu coerentemente com o dever.

Segundo Jesus, os que dizem absurdos doutrinários, dogmáticos, legalistas não conseguem ler os sinais da miséria, da injustiça, da opressão, dos distúrbios comportamentais em consequência  dos abusos religiosos ou econômicos. Mas sabem ler perfeitamente os sinais de como vai estar o tempo no dia seguinte, se vai chover ou fazer sol. Quando ignoramos, como esses, as duras realidades do nosso tempo (exclusão, dívidas sociais imensas, abusos contra a mulher e a criança), estamos sendo hipócritas? E a recusa de encarar a Bíblia em seus contextos históricos? Que dizer dessa preguiça histórica que afasta os crentes da realidade das opressões concretas?

Um chamado à prudência e ao bom senso sempre faz bem ao povo bíblico, quando envolvido em intrigas e alienado em permanentes conspirações eclesiásticas, em meio a  tensões e necessidades inexistentes ou artificiais. Alguma novidade? Caos e confusão doutrinal nas comunidades cristãs alimentam as dificuldades, como as comunidades que desconhecem ou negam sua própria história libertária. O povo sempre é mais lembrado, na Bíblia, por sua infidelidade. Era sempre necessário chamar à humildade e à honestidade. O mesmo  povo que deveria estar a serviço da justiça, pois, em nome do próprio bem-estar, não cessa em seus crimes e injustiças. Não há “um povo de Deus” que não faça parte dessa “humanidade” . Considerar-se justo não é senão um engano. Reflete-se um pecado de proporções maiores, nos dois sentidos. Os líderes do povo, contudo, seriam mais responsáveis por seus erros? E não é o povo que os escolhe e elege?

Deste modo Jesus denuncia os dirigentes e todo o povo, ou toda  a comunidade, que publicamente se comprometem a servir, mas são incapazes de agir conforme seus compromissos e promessas. Esta atitude parece contrastar com aqueles que num primeiro momento se negam ao serviço, mas depois acabam dando o melhor de si mesmos na transformação da “vinha” (o mundo). Algo inspirador, diante do desânimo com o qual lidamos, por tantas atitudes hipócritas, quando envolvidos no preparo do caminho que Jesus Cristo percorrerá na história humana. Para libertar homens e mulheres de suas ambiguidades, livrá-los dos julgamentos justificados com dois pesos e duas medidas. Somos hipócritas, sepulcros caiados (Mt 23,27)? Até que ponto nosso comportamento visa apenas à nossa boa reputação ou imagem? Jesus não hesitaria em chamar a isso hipocrisia. Jesus era verdadeiro, honesto, sincero e completamente transparente. Por isso, ao detectar as mentiras e a falsidade do mundo farisaico que rodeiam a comunidade, denunciá-las é sempre uma tarefa corajosa,  não só um dever político.

Jesus podia propor o endireitar do mundo religioso do qual fazia parte, corrigir posturas, mostrando o verdadeiro mundo ao qual Deus se dirigia, para salvá-lo. Mundo hipócrita construído com a nossa colaboração. Alimentamos o fermento ou levedura dos fariseus, hipocrisia e mentiras sobre o compromisso da fé, na forma de doutrinas abstratas, ou moralistas, distantes da realidade humana (Lc 12,1), anulamos o fermento do Reino, a verdade e a honestidade, transformadores dos reinos deste mundo (Lc 13,20-21). Há absurdos mentirosos que se impõem como verdade. Sim, quando é preciso afirmar a mudança possível, transformações necessárias. Não, quando é preciso desmentir os sistemas de pensar mentirosos, na religião gananciosa, na política, na economia e na sociedade. Sem esquecer a comunidade de fé.

Contra a religião da ganância, seja de bens ou de poder, Jesus poderia dizer-nos, também: a salvação não se alcança por méritos próprios, proporcionais à contribuição financeira e à dedicação de alguém, no esforço objetivo por algum rendimento, tirando-se proveito da vida religiosa, ou do nome “evangélico”; diria que a misericórdia de Deus é que nos concede a recompensa e reparação de nossas necessidades, justiça econômica, política, social; que a única prosperidade desejável deveria ser o bem-estar de todos os seguimentos, a partir dos órfãos e viúvas (símbolos bíblicos dos abandonados à sua própria sorte, quando bens sociais lhes são negados sistematicamente).

NOTAS:

Filipenses 2,1-11 –  O único critério para determinar a autenticidade das práticas cristãs é o que Paulo chama de ‘entranhas de compaixão’ (rahamim). Ou seja, o amor incondicional por pessoas excluídas, cuidado com as vítimas da opressão econômica, política,  na miséria e na fome de justiça. O mundo do novo testamento evidencia tudo isso. Para Paulo, os cristãos não podem se examinar unicamente à luz de critérios piedosos, envolvidos pela pieguice, pela espiritualidade egoísta, mas à luz da prática de Jesus, que sempre agiu no mundo com “entranhas de misericórdia”. Uma aguda reflexão sobre este problema, chamando a atenção elementos de discernimento, que nos permite avaliar nossas práticas cotidianas, sob a  diáfana luz do amor misericordioso, da solidariedade, do cuidado e do serviço solidário. A conversão que o sistema religioso considera deveria ser um sinal profético com poder de arrastar todos para o caminho compromissado com o Bem. Entretanto, não é isto o que acontece. Os cristãos, por suas mesmas boas intenções (diz a sabedoria popular: “de boas intenções o inferno está cheio…”), não raro somos propensos a adotar uma falsa consciência religiosa, que nos leve a considerar-nos superiores aos demais (predestinados, eleitos com exclusividade), quando, na verdade, são negligentes quanto às suas responsabilidades. Por nos considerarmos definitivamente salvos de todas as intempéries, enquanto aguardamos o “céu”, nos colocamos à parte da sociedade e dos problemas humanos.

 

Êxodo 17,1-7 –  O episódio  que fala de “sede” e de “água”  nada mais se refere senão a uma situação crítica, do jeito que estamos habituados a ver: o povo protesta contra seus líderes, os quais não para de chamá-lo à confiança e à fidelidade. Liderado por quem? Que líder dominará a falsa consciência religiosa sobre a retribuição a um determinado esforço político ou financeiro? Esse povo merecerá alguma coisa, envolvido com sincretismo, religiosidade pagã e idolatria propositista de sucesso e prosperidade? Inflamado contra os planos, questionando a qualidade da liderança de Moisés, o povo também “tenta” a Yahweh, desafiando-o. E parece não considerar a prova por que passa: “Agora vamos colocar Deus contra a parede, e exigir…”. É preciso lembrar as razões porque os termos [raízes do hebraico bíblico ryb (Me-ribah = contenda) e msh (Massah = prova, castigo] aparecem como exemplos no Primeiro Testamento. Sós ou combinados. O decisivo, no entanto, é a intervenção do Senhor, dando eficácia e autoridade à liderança de Moisés sem engabelar o povo com falsas promessas. Devemos recordar as narrativas bíblicas (Ex 16,3 (No Egito, sob servidão) “…estávamos sentados junto a panelas cheias de carne, agora passamos fome!”; Ex  15,25: (Justificando a missão)  “…o Eterno manda Moisés jogar uma árvore no mar, para adoçá-la”; e aí Yahweh ‘deu-lhes’ princípios, estatutos e leis”). Dessa maneira, temos a união de três temas interligados: trata-se de provar-se a si mesmos na confiança e na fé no Deus de Israel. “A necessidade do homem ser examinado, ou do povo, constantemente, não traz qualquer benefício a Deus, pelo contrário, este (povo) é que se beneficia” (Moshe Grylak). O texto não se dirigiria a um povo que preferiria a servidão (com panelas cheias, festas, “pão e circo”) à liberdade. apesar dos princípios libertários escriturísticos exigirem sacrifícios e perseverança no caminho da vida livre, na direção do Reino?

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil 

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25º.Domingo do Tempo Comum  – Ano  A

18.setembro – 2011

Êxodo 16,2-15 – É Deus que dá o pão, apesar das queixas de insuficiência…

Salmo 105,1-6;37-45 –  Com o pão do céu Deus saciou a fome do povo

Filipenses 1, 21-30 – Para mim, a graça é bastante (ponto final)

Mateus 20, 1-16 – Estás com inveja porque dou sem exigir retribuição?

Aonde chegará a Graça de Jesus Cristo? Quem dispõe de lantejoulas não precisa de brilhantes verdadeiros… Os primeiros aplicam-se a um mercado massificado rendoso, o evangelho da ganância enche os templos com o consumo de falsificações, e está cumprida a missão de evangelização. Produção em esteiras de montagem… os segundos, fundamentalistas, preferem a propaganda de teologias doutrinárias abstratas como a “dispensação da graça e a dispensação da lei”; “reta doutrina”, etc.. Estão proibidos de falar sobre justiça e compromisso social dos crentes.

Jesus, na “parábola dos trabalhadores descontententes” com o pagamento desproporcional recebido deixa claro o modo como Deus age. Bem diferente de nossa mentalidade propositista e retributivista, à procura de resultados e recompensas proporcionais por “horas trabalhadas” (Mt 20,1-16). Seja em membresia expressiva da igreja, milhares, milhões; seja em contribuições financeiras, dízimos induzidos, coercitivos, projeções de crescimento desnecessárias e mal justificadas. Por que uma denominação deve ser grande numericamente? Por que é necessário arrecadar dinheiro para expressar crescimento “espiritual”? Diante da teologia do mérito, da prosperidade, da retribuição, no sistema religioso, a Teologia da Gratuidade pregada por Jesus se opõe diretamente ao discurso desse momento. A graça e a  misericórdia de Deus se contrapõem à mentalidade religiosa dos tempos de Jesus. A partir da perspectiva de Jesus, nesta parábola, a salvação não se alcança por méritos próprios, proporcionais à “santidade” e à dedicação de alguém, no esforço objetivo, por algum rendimento. A misericórdia de Deus concede  recompensa e reparação por necessidades reclamadas a quem cabe. Nas diaconias para a sociedade toda.

O IBGE-2010 vai nos informar que dos aproximados  196 milhões, metade dos brasileiros e brasileiras vive abaixo ou apenas um pouco acima da “linha imaginária da pobreza”, inventada por economistas? As informações sobre o Novo Mapa da Religião (FGV), mostrando a supremacia evangélica pentecostal, refletirão que  a tipologia do “baixo proletariado espiritual” sugere fileiras de novos evangélicos pentecostais  inchando com rapidez, e seus  tormentos escorrendo, com profusão, de cima para baixo, saturando camadas cada vez mais espessas da pirâmide social? Que, no meio, a classe média evangélica em ascensão adere à religião da prosperidade (Teologia da Ganância), até para justificar-se? Que, no vértice da pirâmide, o alto clero evangélico, ricos, milionários, ostentando alto luxo  nos costumes, salários de até R$100mil, programas televisivos e de rádio, adornados com griffes internacionais, jóias e relógios caros; mansões e sítios de R$10milhões para cima (IstoÉ.09.09.2011), saem pela cidade para cumprir suas obrigações de carros importados, blindados e escoltados por seguranças, ou voando em helicóptero de R$2,5 milhões, causando inveja às lideranças que não estão lá nem cá? Que o protestantismo histórico não pentecostal e suas igrejas pobres, na luta crítica pela justiça política, justiça econômica e social; por consciência sobre direitos humanos, direitos sociais, cidadania; por não se entregar à Teologia da Ganância, terá o reconhecimento de sua firmeza na sociedade brasileira, por manterem-se sob princípios socialmente responsáveis (igrejas históricas melhoraram sua posição, segundo pesquisas recentes)?

O evangelho ensinado nesta parábola de Jesus é radical: fala de trabalho e da sociedade política, tremendamente devedora aos pobres e miseráveis, indigentes econômicos; aos mal-postos, desiguais, socialmente diferentes, componentes do déficit histórico que nos acompanha desde as colônias. Precisa-se muito mais que valores transcendentais e doutrinas abstratas na pregação dos cristãos sobre a Graça, para se alcançar a realidade dos pobres, dos desvalidos, dos esmagados e dos socialmente excluídos. A religiosidade evangélica espetaculosa identifica destaque político, felicidade financeira e psicológica eternas aos  crentes que financiam, imitam ou se associam a empreendimentos eclesiásticos recentes (“se o cara não tem fé, não enriquece, não se cura, não consegue nada” – cf. Silas Malafaia, A Gazeta 4.09.2011).

O contexto da parábola resultou da controvérsia de Jesus com as autoridades religiosas por sua continua relação com pessoas de duvidosa reputação, publicanos e “pecadores” (prostitutas, doentes comuns e doentes mentais, deficientes de toda ordem, leprosos, estrangeiros de outras etnias, crianças, gentílicos e mulheres sem lugar no templo/religião; homossexuais e mulheres adúlteras punidos com a morte). Aqui, a questão do trabalho e da remuneração indigna iguala-se na injustiça e no preconceito tradicionais para com o pobre socialmente improdutivo. Cá estão moradores de rua, prostitutas, minorias em atividades com recicláveis, trabalhadores de baixa qualificação; mal instalados, mal empregados; doentes terminais, deficientes físicos, homens e mulheres  no fim da idade outonal, empecilhos às teses salvacionistas neoevangélicas. Não são bons clientes  para a religião da prosperidade (e por que não às demais…), por razões óbvias. O verdadeiro prêmio nessa competição é a garantia de felicidade e sair das fileiras dos derrotados… e igrejas cheias de bajuladores de pastores empresários.

  1. Nota: A parábola narrada por Jesus, parte de um fato real. Sendo exceção, o proprietário representa o bem-posto contratante na sociedade econômica que, com suas manobras impeditivas da aplicação da justiça, havia usurpado os trabalhadores do campo, sonegando meios para sua sustentação e de suas famílias. Aqui, os desempregados espoliados eram os que haviam perdido tudo e se vendiam por qualquer preço para sobreviverem. Por certo, também havia aqueles que constituem a clientela fixa do proprietário, via de regra explorador do trabalho sub-remunerado a qualquer preço. Eram sempre contratados. Havia, também, os que apareciam na última hora trazendo consigo suas necessidades familiares: os filhos precisam comer, vestir, viver. Temos uma questão de vida, sobrevivência e dignidade no trabalho. O trabalho, mais que um simples meio de sustentação, é uma finalidade econômico-social onde ninguém deveria ser privado de participação, na construção da sociedade, como um todo. Construção da vida com dignidade, para todos.
  2. A parábola também fala de salvação concreta, não de “salvação metafísica”, não só do “pecador” (a religião a que pertenciam Jesus e os apóstolos informa que “pecador” é o que não cumpre ou não pode cumprir a Lei; é o miserável, deficiente físico ou mental, doente crônico, tido como pecador por hereditariedade ). Jesus diz não ao conceito vigente. As questões do trabalho e da produção de bens são a realidade inescapável. Tratamos aqui, sem dúvida, da vontade de Deus, que “desce” até às situações humanas de desconforto quanto à política e a economia  (J.Jeremias). Na pregação de Jesus há exigências verdadeiras, concretas e firmes, para a vida de fé, respondendo ao Evangelho. Jesus dá a conhecer o que ele espera de seus discípulos: “Aqueles que ouvem as minhas palavras e as põem em prática é semelhante ao homem prudente”(Mt 7,24). É também correto dizer que Mateus, judeu e cristão, cinquenta anos depois de Jesus, deixa uma mensagem para “sua” comunidade de cristãos. Concorda com quem afirma: “Jesus está profundamente identificado com seu tempo, quanto ao combate e rejeição da cultura política e religiosa de seus dias”. Não há grandes diferenças nos tempos atuais. Poucos confiam que a misericórdia de Deus alcança, em primeiro lugar, os pobres e  desprotegidos socialmente. Onde existirem. Quem quiser desmentir a Bíblia, tem a palavra.

Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

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1 opinião sobre “ANO “A” – (CALENDÁRIO) DOMINGO LITÚRGICO – Arquivo 2011”

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