MENSAGEM À IGREJA DE DEUS

A SEDUÇÃO DA ANTI-IGREJA

A Reforma Protestante não inventou a igreja no século 16. Desde a Igreja dos Apóstolos, sempre buscando a totalidade da comunidade de Deus testemunhando a Graça (ekklesia katholica; ekklesia oikumene), o assunto “ekklesia” é confronto com o mundo e a comunidade, pois só no mundo e na comunidade ele é assunto eclesiástico e ecumênico. Para a existência teológica da Igreja – e não a existência histórica ou social –, kosmos e khaos são termos extremos e antagônicos, e nunca elementos integrantes da Igreja (João 3:17: “Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele”). A anti-igreja, porém, foge desse antagonismo, procurando salvar-se, mimetizando-se na paisagem (kosmos), e beneficiando-se dessa identificação fragmentária (khaos). Muitas vezes pensando a igreja como ante-sala do céu, em falsa prosperidade, ou como sobrevivente do inferno, igualando-se às “ekklesia tou kosmou, “igrejas do mundo”, igreja como as comunidades e assembleias profanas não-cristãs do mundo gentílico, ou greco-romano, onde se expandia a igreja histórica e sociológica. Lugar da igreja teológica.

A diferença entre Cristo e o Anticristo na cruz, está em quem bate o prego da crucificação” (Rubem Amorese). E qual será a diferença entre a Igreja e a Anti-igreja nos dias atuais? Para a Igreja, Jesus é Deus, Jesus é homem de verdade. A Igreja, como ekklesia de Deus, também é “igreja de verdade”, e não simulacro midiático, se não quer ser identificada como antiekklesia. Karl Barth disse isso, com todas as letras, em milhares de páginas. Estudou suas doutrinas, desde os Pais Apostólicos, mas resumiu-as em ensaios extraordinários sobre a humanidade de Deus, p.ex., ensinando que a Igreja de Deus assume a carne do mundo em plenas condições humanas. Como seu Senhor já o fizera.

Os desafios de uma igreja cristológica tomada pela Graça, contudo, não encontra apoio na religiosidade popular, evangélica ou pentecostal, e outras formas. Por exemplo, a igreja midiática ou a igreja virtual. As questões da Igreja partem das indagações sobre Ministérios, Missão e Serviço, teológicos, embora eclesiásticos; terão o foco na declaração de Jesus sobre seu próprio ministério, missão e oferta de serviço (Mc 10,45), tema gerador dos elementos que orientam a Ação Pastoral da Igreja para as demandas do Reino de Deus, até agora “impropriamente deslocado para o além, para um mundo espiritual interior, ou um paraíso celestial abstrato”: “O Espírito do Senhor está sobre mim, eis que me consagrou pela unção a apresentar a notícia nova aos pobres; enviou-me para publicar a libertação dos cativos (prisioneiros de determinismos e fatalismos) e aos cegos a recuperação da visão (sobre as realidades humanas opressivas), para restituir a liberdade aos oprimidos (pelos sistemas de pensar, da sociedade, da economia, da política e da religião), e para proclamar um ano de graça do Senhor [Lc 4,16ss/ Isaías 61,1e11: ano sabático; jubileu de justiça social, remissão, alforria, libertação de contratos injustos, perdão das dívidas; cf. Deut 15,1-18; Is 61 1ss.].

Há um paradoxo em questão, pois a cruz da Igreja, símbolo primeiro, é sofrimento em razão da causa e das responsabilidades anunciadas. Via dolorosa, e não de prazer gratuito, de prosperidade, de sucesso numérico, de apaziguamento ou satisfação quanto ao desejado, em projeção e relevância geométricas ou matemáticas. O símbolo da igreja, a cruz – e não o ouro no altar –, é para uma estrada percorrida em dor, sobre pedras e espinhos, incompreensões e perseguições. Nada é fácil, no caminho da Igreja de Deus. Tudo evoca o sacrifício, nessa caminhada. Enfermos buscam a Jesus, os contaminados pela violência demoníaca procuram-no no meio dos homens e  querem superar o que se apresenta como forças cegas impeditivas da salvação e transformação do mundo.

Na igreja, procurando a Cristo, do mesmo modo, pessoas travadas são exorcizadas e liberadas para experimentarem a plenificação da gratuidade divina. Os surdos ouvem e os mudos falam, os cegos vêem e os coxos andam (Mc 7,24-37). Anunciar o Reino de Deus não equivale a anunciar a igreja histórica ou sociológica, sua força e seu poder, mas apontar que o Reino é  comunicado enquanto a Igreja participa da grande energia transformadora de Deus.

A Igreja representa-se como resposta ao clamor dos homens e das mulheres contra as injustiças? Contra as desigualdades? Contra os privilégios de poucos no oceano de misérias e exclusões que cerca a ilha onde ela está? Quer salvar-se a si mesma do naufrágio geral, ingressando no mundo do “salve-se quem puder”? E não foi por nada que o lema e dístico da igreja ecumênica (oikumene) proposta pelo Conselho Mundial de Igrejas, desde 1948, é um barco navegando no mar revolto, à mercê das tempestades e diversidades (Mc 8,23-27), tendo como mastro principal a cruz para garantir as velas infladas com o sopro do Espírito Santo. A Igreja de Deus faz a diferença, se aceita a Cristo – e tão somente Cristo – no seu comando.

É preciso ser veemente, e dizer não à anti-igreja, à maioria pentecostalista gananciosa de influência e poder político e econômico; dizer não aos lemas eclesiásticos que dominam nosso tempo. Mais que nunca se faz obrigatório voltar aos conceitos apostólicos germinais, antes que a contaminação histórica, sociológica, antropológico-religiosa se fizesse sentir e dominasse a igreja. A nova igreja evangélica inculturada, fincada na religiosidade popular, oferece um diálogo entre as religiões diversas, afro-brasileiras, enquanto o deus ocidental se dilui quanto aos significados da Epifania do Deus cristão. O universo plurireligioso da igreja evangélica absorve culturas às quais se associam personagens e situações bíblicas culturais paganizadas. Adere aos simbolismos do culto pentecostal mágico, sincretista cultural e religiosamente, estabelecendo a identidade que incha as igrejas das últimas décadas, favorecendo suas estatísticas, confundindo a opinião pública. Esta não diferencia a ekklesia da antiekklesia, por motivos óbvios.

Desafiavam a Reforma Protestante superstições, crendices em forças sobrenaturais, ocultismo, anjos e demônios em pé de igualdade. A igreja se sustentava através de inquisições ou de caça às bruxas, concorrentes de sacerdotes credenciados. Doenças, em muitas manifestações, eram atribuídas a demônios – particularmente as doenças psicossomáticas, doenças  psicossociais, porque as pessoas enfermas, que não mais tinham controle de si mesmas ou de seus corpos, inteiramente vulneráveis, acreditavam na importância da religião camuflada nos mitos e na religião popular, nas crendices e superstições. Como ocorre com os que buscam terreiros, centros espíritas, templos evangélicos pentecostais e católicos, de hoje e de sempre, sob influência “carismática”. Cristã ou pagã.

A magia funciona, ainda hoje, como substituto do exorcismo religioso, diante do temor e respeito popular, até extraordinário, em relação ao que transitava no mundo de demônios e forças sobrenaturais. Na Reforma, era também o tempo dos alquimistas, da busca da pedra filosofal, também desautorizados pela igreja, assunto que estava na pauta dos reformadores. Porém, os magos buscavam a fórmula para transformar minerais comuns em ouro, e não solucionar o problemas das enfermidades, da peste ou da fome. Pentecostais, mais “realistas” que os próprios alquimistas, transformam em ouro a fé na graça oferecida no altar, sob fórmulas mágicas que lhes foram “reveladas” com exclusividade. Sustentam-se, e enriquecem, através do abuso das consciências dos fiéis, na complacência das leis fiscais do Estado.

A existência teológica de uma igreja no caminho da Fé Apostólica é, por finalidade, a existência própria, objetiva, da pequena ou grande igreja denominacional, segundo a herança testemunhal das Escrituras sob os desafios da graça de Deus. Nós a reconhecemos como biblicamente apostólica. É que ela não está apenas dentro do mundo, nem apenas dentro da comunidade, mas também e simplesmente em si e consigo mesma, como existência não isenta, porém envolvida – mas não submissa –  nos conceitos comuns da existência social, histórica ou religiosa. A palavra de Deus, assunto ou objeto da Igreja de Cristo, trata do mundo e da comunidade visível que existe; trata também da Igreja em seu “ser-em-si-mesma”. Ela existe em e por causa da Graça de Cristo. Trata do juízo sob o qual ela se encontra; trata da Graça que lhe é oferecida, enquanto obrigada em reciprocidade divina a estender o cuidado e misericórdia de Deus ao mundo. Trata de seus cativeiros e de suas libertações, de sua morte e de sua vida. Ekklesia é Igreja que testemunha as intenções salvadoras e libertadoras de Deus, ou tornou-se antiekklesia como qualquer outra igreja do mundo.

Rev. Derval Dasilio

Pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

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