A – PASTORAIS NA IGREJA: METAS E OBJETIVOS PARA A DÉCADA ATUAL

Planejamento, Metas e Objetivos para a Segunda Década  do Século 21

Uma abordagem teológica sobre princípios de fé, organização de ações, através de uma análise sistêmica atualizada, sobre o que se “idealizou “, através do presbitério a que pertence, para a Igreja Presbiteriana Unida nos seus documentos fundantes. Por Derval Dasilio.

Justificando teologicamente o planejamento pastoral a ser debatido e transformado em programas de comunicação com a sociedade:

De modo destacado, abordagem permanente, como resgate da relevância que a IPU encontrou nos Documentos de Fundação, desde o Compromisso Social, Manifesto, Princípios de Fé e Ordem, externa e internamente, sob o pressuposto de que “a Igreja é serviço do Reino de Deus” (e as perguntas são: Por que servir? A quem  servir? Como servir? O Evangelho de Jesus responderá, antes de qualquer outra coisa: “A quem, pois, compararei os homens desta geração, e a quem são semelhantes? São semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, clamam uns aos outros, e dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes”. Não reagem à “missão”. Do ministério com eficácia e oportunidade diaconal, disse: “Ide e dizei a João Baptista aquilo que vistes – os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres (excluídos) é anunciado o Evangelho”. Antecedentes necessários para o incansável “ide” em Marcos 16,15-18 (Lucas 7,30-32; Mateus 11:4-6).

Nossas indagações sobre Ministérios, Missão e Serviço, terão o foco na declaração de Jesus sobre seu próprio  ministério, missão e oferta de serviço, tema gerador dos elementos teológicos que orientam a ação pastoral da Igreja para as demandas do Reino de Deus, até agora impropriamente deslocado para o além, para um mundo espiritual interior: “O Espírito do Senhor está sobre mim, eis que me consagrou pela unção a apresentar a notícia nova aos pobres; enviou-me para publicar a libertação dos cativos (aos determinismos fatalistas) e aos cegos a recuperação da visão (sobre as realidades humanas), para restituir a liberdade aos oprimidos (pelos sistemas de pensar), e para proclamar um ano de graça do Senhor [Lc 4,16ss/ Isaías 61,1e11): ano sabático; jubileu; justiça social, remissão, alforria, libertação de contratos injustos, perdão das dívidas; cf. Deut 15,1-18; Is 61 1ss.]. Jesus, sobre a natureza do Reino de Deus, proclama que o Reino é bem-vindo em qualquer tempo: o corpo curado, a mente restaurada, a sociedade mais justa, corações prontos para o perdão e reconciliação, são os primeiros sinais do cumprimento da missão, em Jesus. A agenda de Deus está na ordem do dia, aqui e agora, neste momento.

 
I – Missão para “fora” da instituição eclesiástica (IPU):

•    combater a violência e suas manifestações na sociedade e na família,
•    combater o crime político e o crime organizado, latentes desde a sociedade autoritária/solidária com os mesmos;
•    combater a intolerância religiosa, política, ou social; o preconceito e a homofobia (ou a héterofobia: desrespeito à alteridade de indivíduos e instituições, aversão ao diferente);
•    combater a violência intrafamiliar e  o racismo latentes, cultural ou institucionalmente;
•    acentuar a premência de redução da pobreza (exclusão social);
•    garantir o direito à saúde, à seguridade e previdência social para todos;
•    abordar questões da bioética, células tronco, saúde reprodutiva, saúde do deficiente, e suas particularidades;
•    “profetizar” sobre a justiça ambiental, renovação do meio-ambiente, acesso à água potável, saneamento urbano;
•    garantir o direito de imigrantes (latinos, asiáticos, outros), ao trabalho e aos bens sociais da nação.

I I – Missão para “dentro” da instituição eclesiástica (IPU):

•    LITURGIA  ATUALIZADA DIANTE DA INVASÃO DO CULTO CARISMÁTICO E  DA MAGIA SIMBÓLICA DOMÉSTICA E COMUNITÁRIA
•    ABORDAGENS SOBRE IGREJA, FAMÍLIA, E SOCIEDADE RELIGIOSA
•    ORIENTAÇÃO ÉTICA SOBRE RACISMO, HOMOFOBIA, PEDOFILIA E VIOLÊNCIA INTRAFAMILIAR  
•    IDENTIFICAR OS PAPÉIS DA IGREJA,  DA CRIANÇA, DO JOVEM E DO IDOSO NA COMUNIDADE DE FÉ

Ponderações:

Sobre as diaconias sociais (Igreja Nacional e Igrejas Locais)

Na verdade, a sociedade marginalizada precisa  da Igreja para  representá-la junto aos poderes públicos e a sociedade como um todo. A missão da igreja é nada mais que   “submissão” à Missão de Deus (missio Dei). A igreja assume sua condição humana, e quando fala ao mundo, fala através dos homens e das mulheres. Seres humanos. Nas palavras do grande teólogo, só podemos falar de Deus e sua missão (missio Dei) como homens e mulheres (Karl Barth). O povo cristão é a “nação eleita” para representar o anúncio evangélico do Reino de Deus. O envio da Igreja, humana e vulnerável ao pecado, através do Espírito Santo, se dá pelo envio do Pai e do Filho, tornando-a instrumento das diaconias do Reino, não mais que isso. A Igreja não é em si o Reino de Deus, mas uma torre, um mirante donde se vislumbram as paisagens humanas, para que Deus lhe dê o horizonte da missão. O Espírito da Vida indica  a indestrutibilidade da vida criada, quando a morte quer estabelecer o seu império. A Igreja se manifesta anunciando a restauração da vida; um mundo novo possível, novas relações libertadoras,  apresentando alternativas para melhorar a vida da nação, das famílias e das comunidades humanas. Ela não pode omitir-se diante das cadeias da opressão, da corrupção e  impunidade, da injustiça e das desigualdades, propostas pelos poderes deste mundo.

1. A omissão da Igreja estimula a vingança contra os mais fracos, na sociedade voltada para o materialismo, alcance do consumo sofisticado, privilegiado, elitizado, e especialmente o acesso a bens secundários e superficiais. Sabendo que há um imenso contingente de crianças, adolescentes, jovens, idosos, inocentes que jamais poderão defender-se da distorção massificada dos verdadeiros bens sociais que se devem pretender, é responsabilidade da igreja cuidar de quem não tem voz nem vez; denunciar as omissões nas políticas públicas com respeito às necessidades identificadas imediatamente na existência da opressão das desigualdades e das injustiças sociais.

2. Devemos lembrar o compromisso bíblico cristão, quando batizados na Igreja, confirmados pela profissão de fé, ordenados diáconos, presbíteros, pastores, ministros sem ordenação eclesiástica, para as diaconias de Deus. Certamente aos ministros ordenados, especificamente, lhes é lembrado que devem guardar o rebanho de Deus contra todas as ameaças à dignidade humana. Que o grande inimigo do homem e da sociedade é a presunção humana de querer situar-se no lugar de Deus, e até de afastar Deus das causas humanas: liberdades civis, direitos humanos e direitos aos bens sociais; cidadania, direito ao alimento do corpo, habitação, saneamento e saúde pública, educação em todos os níveis, medicina qualificada; direitos da natureza explorada, escravizada e violada sem tréguas em todas as eras.               
3. Devemos lembrar que pastores, e todos os ministros ordenados ou não ordenados, devem  cuidar do bem comum, devendo também voltar-se para os rebanhos dos vários redis, tendências, diferenças, o universo equilibrado segundo a diversidade da criação de Deus. Lembrar que toda a sociedade, embora dividida, seja beneficiada pelo cuidado com a vida humana aviltada pela exclusão, desproteção, fome e miséria; em favor da paz, nas diversas pastagens e lugares onde o equilíbrio possa ser turbado, é alvo e finalidade do Reino de Deus, nas palavras de Jesus Cristo, pastor da Igreja. Para que não vençam o preconceito, a discriminação, os ódios entre grupos e pessoas (racismo, sexismo, homofobia e héterofobia), sejam quais  forem as suas opções, crenças e religiões. Assim, a nação respeitará  a Igreja,  como a sociedade reconhecerá que, de fato, ela ouve e acata a Palavra de Deus antes de cobrar da mesma sociedade o que ela significa, para julgamento das instituições e da justiça do Estado. A Igreja deve ser a voz dos sem voz e sem vez, até que o evangelho do Reino de Deus, segundo Jesus Cristo, seja proclamado em todos os confins da terra (“e eis que estarei convosco até o final desta era”).

Ponderações:

Sobre as diaconias eclesiásticas internas (Igrejas Locais)

I. PROPOR LITURGIA  ATUALIZADA DIANTE DA INVASÃO DO CULTO CARISMÁTICO E DA MAGIA SIMBÓLICA NA DEVOÇÃO DOMÉSTICA

1.1. O culto doméstico, ou a devocional no lar, evangélico, tem sido invadido pela magia cultual, prestidigitação ritual, curandeirismo e superstição. Constituirão num perigo tempestuoso  na igreja, como foi em todos os tempos? A religião pessoal recente, contemporânea, não é estranha à igreja do tempo bíblico. Nesta, as aspirações espirituais se misturavam com solicitações grosseiras e vulgares de satisfação física e material. Não havia uma linha demarcatória entre o culto mágico e a nova religião (cristã). Práticas de astrologia, adivinhação, prestidigitação, superstição e magia, eram elementos que permeavam o culto cristão. Papiros contendo orações e hinos “libertadores” eram elementos que circulavam juntamente com esboços das fontes dos evangelhos. Maldições e pragas se insinuavam em práticas supersticiosas repulsivas. “Batalhas espirituais”. Qual a diferença, quanto ao que observamos hoje?

1.2. Muitos, entre nós, independentemente do ensino regular praticado nos limites do templo, se servem da fé condicionada, materialista, pragmática, buscando resultados imediatos. A fé funciona como anestésico, ou droga comercializada, aos entregarem-nos à alienação quanto às realidades do tempo presente (“allienus”: ficar fora de si, não exercer papel consciente diante dos compromissos assumidos, i.e.).

Para alguns, na comunidade e no âmbito da família, a fé não deveria ser assim, materializada e pragmática. Pedem soluções, metas, políticas, para se estancar estruturalmente a onda de injustiça social, de violência, de corrupção, que grassa no mundo, atingindo a família em cheio (quais, das nossas famílias, escapam da violência transparente no drogadismo criminoso ou farmacológico, alcoolismo, tabagismo,  consumismo irresponsável, etc.?).

Aderindo à “fé condicional”, materialista, pragmática (religião de resultados), trilhamos para um futuro com rastros de vidas inocentes ceifadas. Pelo despreparo e pelo descaso, ou inconsciência das responsabilidades  cristãs e eclesiásticas na orientação espiritual, inclusive no culto e na liturgia que se omitem quanto aos problemas do mundo (“Ele tocou a flauta e nós não dançamos…”).  

1.3. O culto simbólico, carismático, torna-se modelo, dispensa a “fé incondicional” (que é calcada na gratuidade de Deus).  Desconhecendo a esperança ética de transformações, mergulha no louvor como bajulação de um “deus quebra-galho”. Apresenta receitas novas, porém, sem ingredientes, forno e tabuleiro, para a vida de fé. Para muitos evangélicos, preocupados com a prosperidade e solução para tudo, vale o dinheiro, o sucesso. “Entre Deus e o dinheiro, o segundo é o primeiro”, disse um teólogo. Não é inclusiva, a fé neoevangélica. É extorsiva, autoritária, abusiva. Desconsidera as lutas por direitos iguais; despreza as minorias  oprimidas e as alija da vida de fé; esquece as crianças sob forte risco social, que morrem como moscas nas periferias das metrópoles e são condenadas à marginalização perpétua. Crianças de hoje também levam armas de fogo para as salas de aula e pretendem matar professores. Por quê?

1.4. Uma autópsia, antes que um diagnóstico? Esta sociedade (IBGE e FGV – Mapa das religiões: depois de estagnado nos 73,79%, a população católica voltou a cair, de 2003 a 2009, chegando a 68,43%, desde os primeiros registros censitários iniciados em 1872, 130 milhões, em 2009; evangélicos históricos, pentecostais, outras religiões e  não-confessantes, compõem os 26,21% restantes) ignora a violência como consequência de vários fatores, inclusive da pobreza e miséria, enquanto se paga o preço, aliviado por meio do consumismo compulsivo ou estimulado. Drogaditos, alcoolistas, no mesmo plano de abandono e desespero, marcam a realidade presente.

Jovens evangélicos, sem orientação sobre ética e missão cristãs, carismáticos, servem à alienação nos louvores emocionados, na pele arrepiada pela oração esotérica (pra dentro, oposta à realidade humana externa, nas implicações referentes ao aviltamento da justiça: desigualdades, intolerância, preconceitos, violação de direitos fundamentais). Enquanto isso, ocupam altares em busca de espaço e sucesso, que sejam na liturgia, quinze a trinta minutos de louvor, olhos estrábicos ao mal sistêmico  que não se quer combater.

II. ABORDAGENS SOBRE IGREJA, FAMÍLIA E SOCIEDADE RELIGIOSA

2.1. Temos uma discussão importantíssima sobre a igreja e a família. O discipulado cristão, em exigências para os filhos da fé, exige uma visão sobre várias formas de  rompimento éticos. A “família violenta”, autoritária, por exemplo, enquanto estrutura de domínio. Igrejas, tantas vezes apontadas como “famílias da fé”, identificam-se na sustentação do abuso religioso. Pessoas se envolvem em experiências de abusos, de tal maneira que ficam profundamente marcadas: abuso da mulher, da criança,  do jovem diante das situações profissionais, suas vocações e mesmo da vida sexual.

Defrontam-se com a necessidade de construção de uma alternativa de vida sem  autoritarismo ou patriarcalismo, e sem heteronomias (leis externas influenciando a espiritualidade) afinadas pelo diapasão da sociedade não-religiosa, como proposta por Jesus na comunidade de seguidores e seguidoras, discípulos e discípulas da fé apostólica (“Quem ouve as minhas palavras e as pratica…” – Mateus 7,24). O Novo Testamento denuncia a violência intrafamiliar (não se pode dizer o mesmo do Primeiro Testamento). Assim como toda forma de violência, preconceito e exclusão social.

A experiência do “Abbá” em Jesus evoca indubitáveis ressonâncias da ternura, do cuidado, através do idioma aramaico bíblico. Porque a segurança em Deus, em sua profundidade mais abissal, em sua interioridade mais entranhada, é de um Deus paternal. Mas evangélicos proeminentes, com citações bíblicas, afirmam a rejeição à lei que impedirá os pais violentos de continuarem a castigar fisicamente seus filhos, por exemplo, infringindo as leis vigentes, em nome da “bíblia”. Esquecem que, na dureza das leis humanas, nos textos anteriores ao Novo Testamento, também se autoriza venda das filhas adolescentes (Êx 21.7). Algumas vezes, até as filhas desonradas por estupro deveriam ser queimadas (Lv 21.9), e jovens ou adultos homossexuais seriam condenados à morte (Lv 18,22). Se a Bíblia é buscada, o Novo Testamento será o parâmetro pedagógico, e não as leis raciais e exclusivistas do judaísmo bíblico. A Igreja do Novo Testamento representa o cristianismo, e não a antiga Sinagoga, por mais respeito que tenhamos pela religião exclusivista, racista e legalista depois do exílio.

Ignora-se que a intimidade e a ternura não são coisas banais na família – mesmo a carente de direitos fundamentais, quanto à saúde, escola de qualidade, saneamento básico, habitação e trabalho condigno –. Quando depoentes evangélicos, deixam escorrer entre dentes o direito patriarcal “bíblico” de continuar o que pais violentos fizeram com eles, em nome da Bíblia, a linguagem legalista é pronunciada como judaísmo continuado, e não como a gratuidade fundamental do cristianismo. Paulo se dirige ao mundo greco-romano condenando os estilos pagãos de praticar o sexo, inclusive homoeroticamente, mas não os declara condenados ao inferno ou  excluídos da igreja.

2.2. Eucaristia e Comunhão

Na fuga religiosa, o púlpito e a mesa da comunhão, por excelência, alimentadores da fé, são substituídos por palcos, ofertórios compulsórios, promessas jamais cumpridas. Deus é bajulado com louvação insincera; não há lugar para a oração íntima, de indignação e de inconformismo com a injustiça (cf. Salmos), de intercessão, no novo culto pentecostalizado. Inexistem cultos e ritos em ação de graças pela vida dos irmãos que nos deixam, enlutados são ignorados, porque a morte é concebida como derrota das teses pentecostais, perdendo relevância pastoral e litúrgica.

Todos querem ser ricos e bem-sucedidos sob o favor da materialidade idolatrada, enquanto pretendem “vitórias” sobre enfermidades (inclusive as incuráveis ou terminais: pastores exorcistas e benzedores atuando como feiticeiros, dotados de poderes mágicos sobre a vida e a morte, propondo a proteção material e o êxito); posses e bens materiais (os quais, quando adquiridos, devem ser benzidos, passar pela unção supersticiosa, através de ritos e atividades mágicas, e garantias ilusionistas, como as orações de poder para afastar mau-olhado e curas espirituais).

“Ter-e-aparecer” como crentes privilegiados, agraciados por causa da fé interesseira, é meta comum no culto carismático sofisticado (high tech, eletrônico, midiático, pirotécnico). Almeja-se sucesso, vitória, prosperidade pessoal e nada mais. Nenhum aprofundamento espiritual é mencionado; nenhuma alusão ao serviço cristão ou à missão de Deus (missio Dei), quanto ao sentido da fé bíblica estimulada pelos apóstolos de Cristo. Pregadores interesseiros anunciam igrejas populosas e crentes ricos como sinais da bem-aventurança eterna, de olho nos dízimos e contribuições que deles virão.

Crenças, prática da religião mágica, truques de prestidigitação, misticismos e abuso sobre a consciência  religiosa, superstição, envolvem campanhas e promessas no culto materialista recente: “Deus dará a vitória”. Estas atitudes somadas fortalecem a repetição e a reprodução desta modalidade de religiosidade externa, à flor da pele, olhos lacrimejantes tomados pela emoção, estimulando o egoísmo e exterminando o sentido da comunhão na congregação, onde estão os enfermos, deficientes, crianças e mulheres violadas, e idosos carentes de cuidados. Ignora-se a congregação real: os socialmente fracassados, excluídos, abandonados pelos poderes públicos e eclesiásticos. Fortalecem a prática supersticiosa cada vez mais frequentes no ambiente doméstico familiar, onde não entra a orientação cultual para a comunhão total com a Igreja e com a congregação sociologicamente visível. Se realizarmos um inventário dos objetos constantes na residência de um evangélico, histórico ou recente, seremos surpreendido por “novidades”  simbólicas entre as muitas das encontradas no catolicismo popular  e na religiosidade afro-brasileira, recusadas no tempo da implantação do protestantismo. Porém, com a identificação “evangélica”.

2.3. Doentes terminais, cadáveres, deficientes físicos, homens e mulheres  idosos, são empecilhos às teses neoevangélicas pentecostais, por serem improdutivos e dependentes de cuidados diaconais. Poucos se lembram desses crentes ou não crentes (que poderiam ser alvos de evangelização e/ou cuidados pastorais, no luto ou no conforto aos familiares). Não são bons “clientes”  para a religião pentecostalizada recente (a reprodução das práticas mágicas e supersticiosas do catolicismo popular, anteriormente combatidas no protestantismo, vêm em primeiro lugar). O verdadeiro prêmio nessa competição é a falsa garantia de cura, felicidade, e sair das fileiras dos derrotados. Moradores de rua, prostitutas, minorias sexuais, trabalhadores de baixa qualificação; desventurados amorosos, mal casados, mal instalados, mal empregados, não são alvos do novo pentecostalismo. Voltamos à infância do protestantismo brasileiro, diante das práticas religiosas recusadas e combatidas, a razão é óbvia: evangélicos reproduzem a religiosidade supersticiosa combatida no início da evangelização no país. Prosperidade, êxito sob ênfase gananciosa, constitui-se em virtude nesse ambiente religioso.

 2.4. – A pentecostalização eclesiástica comum inclina-se à simplificação da prática e procura do “melhor espetáculo litúrgico”, e da vida devocional diária com o uso da religião mágica, orações de poder, e seus símbolos: rosas vermelhas, galhos de arruda, sal grosso, corredor de fogo, manto santo, chave da vitória, toalhas, lenço da cura, oração dos 70, dos 300; vigília do milagre; unções  supersticiosas com óleo em carros e residências, e diversos outros resultados materiais pretendidos para evitar “mau-olhado”. Ou “para dar sorte”. Realizando-se “batalhas espirituais” e auto-exorcismos chega-se à “vitória” (conceito abstrato contraditoriamente materialista, no extremo). Essa “espiritualidade” impõe resultados materiais aqui e agora, demonstrados na prática familiar e publicamente (cf. Estudo sobre situações eclesiásticas, de Pedro Lísias Moraes e Silva, seminarista; Anacleto Rodrigues da Silva,  professor no CFTRS).

Sem admissão dos interessados, que vêem e se satisfazem espiritualmente com o trabalho “devocional” diário da mídia, predominantemente pentecostal, sem a presença corpórea e pastoral da igreja, a televisão é “pastora” de evangélicos, em tese. Constata-se o abandono da devoção doméstica em favor da “reunião” para ver os cultos na mídia televisiva (que ocupam um tempo consideravelmente maior que o dedicado às atividades comunitárias na sede/templo da congregação). O apoio logístico à pentecostalização doméstica, na mídia, é avassalador. Canais poderosos de televisão favorecem o “culto doméstico” pentecostal em torno da televisão (nesse meio, observe-se a presença exígua das igrejas históricas). Espaços importantes da vida familiar são ocupados pela pregação interesseira de líderes midiáticos para uma doutrinação insistente e incansável; a ganância é compartilhada e tacitamente admitida como comportamento “evangélico”. A importância da comunidade de fé é reduzida ao mínimo. Entre as membresias das igrejas históricas, grande parte, também freqüenta-se com regularidade presencial, ou ocasionalmente, o culto pentecostal em comunidades carismáticas neoevangélicas. Esperam a aceitação e rendição de suas igrejas originais (a IBLagoínha recebe evangélicos aos milhares, todos os anos; faz proselitismo e amembramento por telefone, inclusive; declara o números de seus membros considerando evangélicos que flutuam entre suas comunidades originais e ela própria, por exemplo).

III. ORIENTAÇÃO SOBRE RACISMO, HOMOFOBIA, PEDOFILIA E VIOLÊNCIA INTRAFAMILIAR  

3.1. As leis racistas e discriminatórias pertencem à dureza dos corações (Mt 19.8). A lei permite, mas Deus não criou homens e mulheres para tanto, dirá Jesus. O exemplo, inclusive, de que o castigo físico afasta da violência, do crime e das drogas, é desmentido pelos próprios fatos: adolescentes e jovens envolvidos com o crime são originários de famílias extremamente violentas, segundo analistas comportamentais. Além do mais, pouquíssimos deles apresentam comportamento delinquente.

A pedofilia, o abuso sexual, a violência contra a mulher e a criança, começam no ambiente familiar distorcido e desobediente às leis de proteção da criança. A instabilidade familiar, o ambiente da miséria, a opressão, a inquietude quanto ao futuro, a fome e desnutrição, espetáculos de destruição, de morte violenta, são traumas que acompanham adolescentes e crianças desassistidas e violentadas, na própria sociedade civil. Porém, estão em todas as classes sociais representadas na igreja. Inegavelmente há espancadores e perseguidores de homossexuais, no meio evangélico favorável ao preconceito e à violência intrafamiliar, embora não admitidos. Pouca diferença quanto à violência contra mulheres e crianças comuns.

3.2. Se temos dificuldades em identificar nossas famílias no compartilhamento do perfil bíblico, agradável, amoroso, respeitoso e carinhoso, devemos abrir nossos olhos para não nos identificarmos com os “projetos” humanos em desacordo com o que recebemos por herança desde a experiência de Deus. Através da história social do povo bíblico, devemos reconhecer que nossas famílias recebem também influências perversas, parecendo viver na contramão da história da fé. O Novo Testamento apresenta Jesus como um novo redentor da família. Jesus chamou o Pai de “Paínho” (Abbá), designando-o como misericordioso, compassivo, terno, carinhoso, ao mesmo tempo protetor e orientador na vida de fé. As conquistas modernas referentes aos direitos fundamentais, direitos jurídicos de proteção da família, demonstram porque Jesus estava em confronto permanente com a religião autoritária e a sociedade do seu tempo. Sua missão é cumprida em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

IV. A IGREJA: PAPEIS  DA CRIANÇA, DO JOVEM E DO IDOSO NA COMUNIDADE DE FÉ

4.1. É baixa a qualidade do que se oferece à juventude, também nas igrejas não carismáticas. Pouco se diferenciam das demais. De outro modo, completa a denúncia de que os principais assuntos eclesiásticos sobre missão e diaconias sociais, de fato, são solenemente ignorados, assim como o cuidado com a juventude no (que se volta e se expressa na imitação do culto pentecostal midiático, no entretenimento, no gospel show business). “Em verdade vos digo”, não sabemos o que fazer com os desafios deste século, quanto ao discipulado da vocação cristã (Rm 12,2).

Prevenir o dano biográfico e psicosocial desde a infância, adolescência e juventude, deveria ser prioridade, na igreja. Mas não é. Drogas, violência, deserção escolar, trabalho infantil precoce, prostituição juvenil, gravidez de adolescentes, crack, aids, mendicância, delinquência, anomia, antecipação da maioridade penal também são consideradas ameaças severas para a juventude? Em que sentido pode-se colocar em risco o projeto de Deus de vida plena para esse grupo? Nesta perspectiva, como poderemos  atender às demandas para uma permanente responsabilidade dos cristãos e das igrejas em relação às crianças, aos adolescentes, aos jovens, e aos mais velhos?

Como interpelar a sociedade, e a própria igreja, sobre sua responsabilidade na reconstrução das relações entre atores ativos da violência intrafamiliar, a partir do reconhecimento mútuo como seres humanos iguais em dignidade, liberdade e responsabilidade? A respeito da violência contra a mulher e a criança; da violência hétero ou homofóbica; da discriminação por causa da cor da pele; discriminação entre sexo(s) ou gênero(s), que estratégias pastorais devem ser construídas? Constituímos na igreja um chamado à diaconia, ao serviço libertador de pessoas, famílias, grupos, entre as propostas de serviço ao outro com as quais Jesus Cristo se identifica? Se existem, devemos colocá-las em relevo.

4.2. Pessoas da terceira idade têm um lugar legítimo na igreja? Valorizados e plenamente participativas nas famílias cristãs ou não, que dizer sobre os “maracujás murchos” sentados até com mais assiduidade que os jovens nos bancos das igrejas? A presença de idosos em nosso meio se apresenta como um peso tolerado, sublimado, idealizado hipocritamente, como nos tem ensinado a “cultura evangélica autoritária” da qual participamos e representamos?

Em que ponto pode a diaconia social cristã ajudar a integrar o idoso e o jovem na participação dos valores da sociedade contemporânea, referentes à cidadania, direitos e dignidade humanos? Levamos em conta que Deus, na Bíblia, por si mesmo, não pode ser avaliado segundo as configurações simbólicas do velho que já fez tudo, não age mais, cumpriu seu papel? Jesus disse: “Meu Pai ainda trabalha!”. Agimos como que afirmando que nada mais se precisa fazer, além de contemplar um passado ancestral?

Consideramos que a velhice é a proximidade da plenitude, no entardecer da vida, ou que a velhice é o tempo em que a vida se recolhe e não pode mais brilhar e dar frutos visíveis e maduros? Problema para a igreja cristã de hoje, como foi em todos os tempos. A fé da igreja apostólica extinguiu-se: “Eu te estabeleci como luz entre as nações, para que sejas portador(a) de salvação até os confins da terra” (Atos 13,47)?

Concluindo. Muitos se enganam quando insistem que as comunidades nascentes no período neotestamentário viveram sem conflitos; que tiveram identidades únicas definidas com rigor doutrinal “cristão”. Idealização absurda, irreal. Não houve jamais eclesiologias idênticas, ministérios ordenados uniformes (impossível dedução, diante da diversidade mediterrânica no mundo do Novo Testamento). Missão e sacramentos são compartilhados em recomendação apostólica: Igreja é missão e ministérios, e serviço em totalidade (Joaquim Beato). Falta-nos examinar estes pontos e contradições. Os conflitos vão crescendo, as dificuldades se impõem. Atos dos Apóstolos, minimizando, mantém seu objetivo conciliatório. Diante dos desafios desse século (Rm 12,2), a igreja não pode perder de vista que é comunidade de salvação e liberdade, jamais o lugar da opressão ou da omissão diante das escravidões dos sistemas de pensar e dos falsos determinismos religiosos, políticos e sociais; ou da afirmação falaciosa do mal irredutível e irrevogável. Não é lugar do autoritarismo e da exclusão. O serviço ao mundo é a sua meta. Disse o Senhor da Igreja: “vim para servir, e não para ser servido”. Bom conselho para nossas igrejas, em qualquer lugar que estejam. (Gravura: Dons em Cristo, Barredo Cerezo).

(Texto entregue ao Presbitério de Vitória para avaliação: Derval Dasilio – Pastor do PVTR)

2 opiniões sobre “A – PASTORAIS NA IGREJA: METAS E OBJETIVOS PARA A DÉCADA ATUAL”

  1. Elias Aranha disse:

    Revdo. Derval,
    Desde já tenha meu apoio na formulação deste documento, sua dissertação acerca dos programas e documentos internos da IPU, foi de extrema felicidade e é basicamente o que tem ocorrido no seio da Igreja, com raríssimas exceções.

    • Elias:
      Que prazer… vc percebeu que a conversa mole sobre documentos fundantes já transbordaram e descem pelo ralo. São inúteis. Ações ecumênicas diaconais marcam a cooperação que se espera das igrejas históricas que ainda pensam na “Missão de Deus”. Teologia que o nosso grande teólogo Zwinglio Mota Dias vem propondo. Um agradecimento por seu comentário, do irmão e amigo,
      Derval
      OBS – A propósito, vc observará que introduzo estas propostas (já encaminhadas pelo PVTR e discutidas nos Conselhos Coordenador e Consultivo) com apontamentos fundados na eclesiologia teológica de Zwínglio M. Dias.

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