TRINDADE, REFORMA E PENTECOSTALISMO

TRINDADE, REFORMA E PENTECOSTALISMO

Por Derval Dasilio

Lutero começou a Reforma da Igreja dentro da igreja na qual fora ordenado ministro (séc.16). Nela permaneceu até a morte. Como tantos outros reformadores ordenados na igreja romana, propôs a Reforma dentro da sua igreja. Nenhum reformador declarou-se não-católico, eles professaram a fé que receberam. Sustentaram a herança original da Igreja dos Apóstolos, da Igreja Antiga, Ocidental ou Oriental (romana; bizantina). Em 1054 houve o cisma entre a igreja romana (Ocidente) a bizantina (Oriente). Na Reforma, nenhum reformador foi re-ordenado ministro da igreja, ao que se sabe. Sem corrupção do ordo, todos permaneceram com a ordenação original (Calvino, porém, jamais foi ordenado ministro evangélico, como disse Wendel – Calvin,1965). A matriz do protestantismo é a Igreja Romana. Como um filho é por toda vida cria de sua mãe, a igreja evangélica procede do catolicismo romano. Porém, a matriz moderna de batistas, presbiterianos e congregacionais, incluindo metodistas, é, em segunda via, a Igreja Anglicana. Nem é preciso pesquisa histórica acurada.

 O termo “cathólikos” foi usado ainda nos primeiros séculos da igreja de Cristo. O sentido da palavra deve ser esclarecido (total, abrangente, universal: comunidade cristã no mundo inteiro). O uso se deveu ao combate às heresias dos séculos iniciais, que negavam a Trindade, por exemplo, ou atribuíam a Cristo uma ausência na história humana como um ser humano. A igreja “cathólika”, etimologicamente, portanto, é a “ekklesia” fiel a Jesus Cristo em todos os quadrantes da Terra. Nunca existiu uma “igreja protestante” ou uma “igreja evangélica”, que negasse  a catolicidade original (que não é exclusividade da igreja romana, absolutamente), identificada em seu nome. O pentecostalismo radical, neoevangélico, ousou fazê-lo, apropriando-se até do termo “universal” para sua igreja particular.

As primeiras confissões cristãs (Credo Apostólico, Confissão de Nicéia, Credo Calcedônico, Credo Niceno-Constantinopolitano) são aceitas integralmente pelas igrejas evangélicas protestantes e ecumênicas. Esse princípio confessional foi ampliado no Movimento Protestante do século 16 nas “Confissões Reformadas” (1530: Augsburg; 1567: Heidelberg; 1561: Belga ). Sola Fide, Sola Gratia,  Sola Scriptura, são princípios que a teologia católico-romana contemporânea também não discute quanto à sua validade. Foram discutidos desde a Pré-Reforma. Ao contrário, hoje, afirma-os com mais veemência que o desmemoriado movimento  evangélico contemporâneo. Desde a Idade Média, a expressão “reformata semper reformanda” (reformada sempre se reformando) era conhecida.  Não só Wyclif, outros reformadores antecederam Lutero, Zwínglio, Calvino ou Cranmer. Aliás, batistas e presbiterianos deveriam estudar melhor sua procedência, desde Wyclif e Cranmer, legítimos antecessores de seus movimentos religiosos no século 17.

  1. Por que é ecumênica a Reforma Protestante?  Imaginemos se os reformadores tivessem ignorado o dogma da Trindade e o cristocentrismo dos credos Apostólico (200 d.C.),  Niceno (325 d.C.), Niceno-Constantinopolitano (381 d.C.?), Calcedônico (451 d.C.). É exatamente o que vigora no ambiente das novas denominações evangélicas, no Brasil, e no movimento carismático católico ou evangélico pentecostal radical de hoje. Vigora o “pneumocentrismo”. Nesse caso, o Espírito independente  não está vinculado ao Pai e ao Filho, sujeitos ao Espírito e não procedente “do” Espírito, como ênfase trinitária secundária, à semelhança dos movimentos religiosos paralelos da Igreja Antiga pós-apostólica nos séculos iniciais.

Lutero, principalmente, mas sem esquecer Melanchton, Zwinglio e Bucer, tinha perfeita familiaridade com as lutas teológicas da primeira patrística. Todos sabemos da dissidência pentecostal  montanista (séc. 3º), à qual se rendeu o grande Tertuliano. Calvino cita Agostinho abundantemente. Os reformadores conheciam profundamente os credos iniciais, ecumênicos, e os adotaram em seus trabalhos reformadores. De Atanásio a Agostinho, ou de Lutero a Schleiermacher, a abertura para novas conceituações jamais nos livrará do princípio fixado nas grandes confissões da Igreja Antiga.

  1. Para diferençá-las, os diferentes monoteísmos devem estar na pauta: políticos, filosóficos e éticos. Característicos do paganismo, frequentemente em conflito entre si, a crença em muitos deuses, refletem diferentes situações humanas. Paulo observa, na Carta aos Romanos (8,38-39;13,1-7), uma relação entre a idolatria monoteista, poderes e paixões humanas em conflito. São os deuses em batalhas cósmicas mitológicas refletem o destino trágico de uma existência humana dilacerada por forças e desejos em conflito (cf. Cl 1,13).  Aristóteles, mentor de Alexandre o Grande, implantando o helenismo econômico, crava a frase militar – da guerra contra Tróia, segundo o relato de Homero – para a filosofia: “toda a realidade deve ser comandada por um único princípio, e esse princípio Uno e Único é divino”, assim se fortaleceu a convicção do monoteísmo de forma filosófica, como já no Egito e na China de Gengis Khan tinham surgido monoteísmos políticos: uma só divindade no céu e um só poder e filho da divindade na terra (L.C.Susin). O imperador é a divindade monoteísta na terra!

No entanto, a imagem monoteísta de Deus em Israel e no Novo Testamento – o Deus revelado em Jesus – não é assim, um Deus com poder político. Em Israel, Deus mostrou-se junto a quem não tinha nem poder nem riqueza, junto aos que sofriam e eram vítimas. E um Deus dos pequenos e dos pobres: “Eu habito em lugar alto e santo, mas estou junto ao abatido e humilde” (Is 57,15). Deus é grande e imortal, mas não é encontrado olhando-se para cima, para fora da terra. Ele se deixa encontrar na Trindade Santíssima quando se olha para baixo, para os mais frágeis e mortais, para os que precisam de compaixão e de proteção. Por isso mesmo o profeta Jeremias radicalizou, ao lembrar um bom governador de Jerusalém: “Praticou o direito e a justiça, julgou a causa do pobre e do indigente; não é isso conhecer-me?” (Jr 22,15-16). Mas não divinizou-o.

  • O Novo Testamento é tão radical nessa união que chega à identificação impressionante: o Espírito é enviado pelo Pai e pelo Filho, para que o Reino seja acessível ao mundo inteiro (Moltmann). O longo caminho percorrido, na arte bizantina, na representação do ícone da Trindade de André Rublev, é atingido – pois através de meios humanos traduz-se uma realidade que escapa – em sua natureza transcendental, a linguagem humana não a alcança. Parece uma empresa impossível representar o mistério da Trindade. No entanto, através do admirável ícone russo ortodoxo, mostram-se em afeição íntima, três pessoas que apresentam-se em unidade profunda. A unidade liga mutuamente as três pessoas, fazendo delas uma só imagem. Assim, a Igreja para ser trinitária, deve reconhece-se una, ecumênica, ou já traiu suas origens.
  • A Trindade Santíssima não será exibida em espetáculos de grandeza religiosa triunfante, como no evangelical show business, ou em catedrais dedicadas à Theotókos (mãe de Deus) em fascinantes espaços e palcos religiosos; em luzes, gelo seco, parafernálias hightec e tremores e emoções soltas, pois, para a fé, o Deus Trinitário não precisa de aplausos e de fãs; de bajuladores e reconhecimento superficial nos louvores interesseiros. Isso seria transformá-lo em ídolo, e não reconhecê-lo como o Deus vivo. O verdadeiro louvor e a verdadeira religião são o socorro ao pobre, ao órfão e à viúva (Tg 1,27; Os 6,6; Mq 6,8). Dessa forma, não se separa  a Trindade da ética, já que o centro da ética e do culto cristão é o outro. O amor e o culto agradável a Deus estão intrinsecamente ligados ao amor às criaturas de Deus, desde as mais frágeis, e ao socorro da misericórdia e compaixão pelos desgraçados. Amor desde o compromisso nas mais ferrenhas lutas e causas da libertação humana.

A fé cristã é trinitária, e não exclusivamente pneumocêntrica, carismática, pentecostal, como se observa no pentecostalismo prático de nossos dias. Nela, Jesus é o caminho, a verdade e a vida. O Pai e o Espírito, ao longo do caminho da fé, enriquecem as paisagens. Deus tem nome, mas cada nome nos remete a outro nome, numa dança sem fim. Cristãos crêem, desde o início da fé apostólica, que tudo provém do Pai através do Filho no Espírito. Tudo que procede do Espírito, através do Filho, vai ao Pai. Não havendo possibilidades de ver a Trindade, vemos o rosto de Deus em três espelhos. Glória do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Derval Dasilio – pastor da IPU

Teólogo e pesquisador

Centro de Formação Teológica Richard Shaull

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